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terça-feira, 14 de julho de 2009

Corra: ainda dá pra ver o documentário "Um Homem de Moral" nos cinemas

Trata-se de um trabalho precioso do paulista Ricardo Dias sobre Paulo Vanzolini. A estrutura a um só tempo cartesiana e diversificada desse documentário poderia ser considerada “pós-moderna” – por lançar mão de diversos recursos estilísticos e harmonizar diferentes vozes, num todo integrado. Ainda que aparentemente simples, é primorosamente fotografado por Carlos Ebert, com estilos diversos. Cenas noturnas em que a câmara expõe a paisagem urbana da Avenida São João se misturam com outras passagens em que apenas captura momentos das gravações musicais e com situações em que o diretor, sutilmente, “arranca” declarações do entrevistado.

Os elementos empregados na feitura da obra mostram precisão e variedade. Por meio de uma narração em off, o próprio realizador explicita a sua ligação de amizade com o compositor que é tema do filme e utiliza fotos inéditas de Thomaz Farkas para sugerir o visual de São Paulo, no tempo em que Vanzolini começou a escrever canções. Mais adiante, recorre a registros brutos de ensaios e os combina com cenas da mesma música apresentada no palco de um show. Além disso, usa material de arquivo escolhido a dedo como, por exemplo, um impagável depoimento de Adoniran Barbosa e flagrantes de Vanzolini na selva, exercendo o seu ofício de zoólogo.
“A música dele é parecida com a minha, só que mais fina. Afinal ele é um cientista, um zoológico...” (Adoniran Barbosa)

Boa parte das 27 canções incluídas no filme é comentada pelo próprio autor, numa entrevista, e por meio de imagens que Ricardo Dias (na foto abixo com Vanzolini) foi captando e editando em função da “dramaturgia” implícita em cada uma. Assim, a interpretação de “Na Boca da Noite” é ilustrada por fotos de caminhoneiros e moças de estrada, enquanto “Volta Por Cima” é entoada coletivamente por cidadãos anônimos recrutados nas ruas. Em depoimento, o próprio diretor considera essa obra como pertencente a uma linha que ele chama de “o novo gênero de documentário musical”. Assim como "Buena Vista Social Club", de Wim Wenders, que fundou esse "gênero", este filme é indispensável.

terça-feira, 7 de julho de 2009

"A Era do Gelo 3" cruza com Julio Verne e Moby Dick, em pleno centro da terra

O título original de “A Era do Gelo 3” é Dawn of the Dinosaurs – O Despertar dos dinossauros. Pra quem não tinha reparado, os protagonistas da série são um tigre dente de sabre, um mamute, uma preguiça gigante e uma espécie de esquilo que vive correndo atrás de uma avelã. Na “era do gelo”, ou seja, na última glaciação os dinossauros já se achavam extintos. Mas eles encontram e chocam três ovos imensos, dos quais surgem filhotes de tiranossauro.
Aliás, o tema principal de toda a série é a formação de uma espécie de família constituída daqueles seres tão biologicamente diferentes entre si. Dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, a Era do Gêlo parece um discurso em favor da aceitação da diversidade racial e cultural. Esse evidente anacronismo é superado por um absurdo ainda maior que é a presença dos dinossauros. A explicação é que os lagartos gigantes habitavam uma imensa caverna subterrânea, parecida com aquela imaginada por Julio Verne em “Viagem ao Centro da Terra”. Lá eles presenciam um conflito com um imenso réptil e uma doninha, que lembra a história clássiva de Moby Dick.

Quase que inteiramente ambientado nesse mundo ancestral e cheio de perigos, o filme é tão simpático e engraçado quanto os anteriores. Mas o melhor de tudo ainda são as participações especiais do esquilo Scrat, que obriga os realizadores a se exercitarem naquela comicidade direta, própria do cinema mudo e da animação puramente gráfica, quase abstrata de Chuck Jones (1912-2002), especialmente nos filmes do Papa Léguas sempre perseguido pelo Coiote.
A Era do Gelo 3
Ice Age: Dawn of the Dinosaurs
Distribuição Fox
estreia 10/07/2009
Direção: Carlos Saldanha

Para paracer inteligente, na trama deste "Harry Potter" há um palimpsesto.

Chega aos cinemas um dos lançamentos mais esperados e importantes do ano... falando de um ponto de vista estritamente comercial. Trata-se de “Harry Potter - O Enigma do Príncipe”, o sexto longa da série. O jovem bruxo agora é um adolescente que tem até uma namoradinha, da qual consegue apenas um tímido selinho na boca. Porém, isso não quer dizer nada, porque o enredo é o mesmo de sempre: a luta contra os "comensais da morte" e o bruxo maligno, chamado “o senhor das trevas”. Aliás, no filme todos os agentes do mal são andróginos ou assexuados.
O diretor é ainda o sofrível e televisivo David Yates do episódio anterior. Tudo bem se o filme não fosse apenas um show de efeitos especiais e referências ao best-seller de J.K. Rowling. A cenografia tem momentos deslumbrantes, que chegam a lembrar a ilustração gótica de Gustave Doré, mas isso não garante o resultado do todo. Os ingredientes do que seria uma aventura adulta de Harry Potter são o suspense e a frustração erótica. Enquanto luta para evitar um assassinato, o herói tenta chamar a atenção de uma garota que já tem namorado.

Para sugerir um toque na linha de “O Nome da Rosa”, a trama gira em torno de um palimpsesto, ou seja, das anotações secretas redigidas nas margens de um velho livro de magia. Mas, a intenção principal continua sendo a de vender o videogame, os óculos que imitam os do herói, a caneta que parece uma varinha mágica e todo o merchandising envolvido.

Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Harry Potter and the Half-Blood Prince
EUA 2009 – 153 min
estreia 15/07/2009
Direção: David Yates .
Gênero: Aventura
Distribuição: Warner
Com Daniel Radcliffe, Rupert Grint, Emma Watson,
Helena Bonham Carter, Alan Rickman

quinta-feira, 2 de julho de 2009

No ponto mais doce e maduro de sua carreira, Juliette Binoche em dose dupla

Aos 45 anos, a parisiense Juliette Binoche é uma atriz que parece seguir as propostas de Ítalo Calvino para o Terceiro Milênio: é leve no modo de se movimentar em cena; densa na construção dos personagens; exata na forma de dizer os diálogos; múltipla na capacidade de exprimir os sentimentos possíveis numa cena e consistente na representação de momentos cômicos e dramáticos. Todos esses predicados foram aprimorados filme a filme, na generosa maturidade que o cinema e a vida lhe proporcionaram. Do ponto de vista da arte dramática, portanto, esta semana pode ser considerada uma das mais importantes neste ano da França do Brasil, porque Juliette aparece nos dois lançamentos que foram programados para os cinemas de São Paulo: "Paris", de Cédric Klapisch, e "Horas de Verão", de Olivier Assayas. O melhor de tudo é que essa coincidência que vem para ampliar a sua merecida visibilidade nem chegou a ser planejada. Talvez já estivesse ensaiada pelas estrelas, ou tenha sido fruto de um acaso cada vez mais sábio .

No filme "Paris", o diretor Cédric Klapisch afirma que aquela cidade "é para os ricos".

O trabalho do diretor francês Cédric Klapisch (Neuilly-sur-Seine, 1961) já foi bem recebido em São Paulo, com “O Albergue Espanhol (2002) e “Bonecas Russas” (2005). Professor da Fémis -- escola parisiense de cinema, ele declara sua predileção por cineastas como Woody Allen, Bergman e Scorsese. Mas, como bem notou o crítico Luiz Zanin, este seu “Paris” tem muito de Altman, especialmente nos filmes em que a narrativa se fragmenta em vários núcleos, explorando diversos personagens unidos apenas pela linha tênue do acaso.
Eles gravitam em torno de um rapaz (Romain Duris) que (em pleno outono e ao som da “Gnossienne #1, de Erik Satie) descobre precisar de um transplante de coração para tentar permanecer vivo. As folhas mortas e o céu cinzento quase roubam o encanto das paisagens parisienses que ele observa da janela. Logo em seguida, o fio da história é puxado por figuras que, sem aviso, vão entrando em cena: a irmã (Juliette Binoche); o vendedor de frutas do bairro; a linda vizinha do prédio em frente; o professor de história que se apaixona por ela; seu irmão arquiteto e assim por diante.
Ao expor cada uma dessas pessoas em plena agitação existencial, o filme vai se aquecendo e pulsando de vitalidade, como já não acontecia com o coração do personagem que dera início à história. Klapisch salta de uma breve situação dramática para outra, com momentos de gênio, como o pesadelo do arquiteto que se vê dentro da maquete digital que ele mesmo criara. Aliás, a construção deste “Paris” remete a uma observação de Eisenstein em 1929. Ele comparava o teatro japonês a um jogo de futebol em que “voz, música, mímica e painéis coloridos são como os jogadores passando um para o outro a bola dramática e dirigindo-se para o gol, que é o atônito espectador”.
Paris
Paris
França 2008
estreia 03/07/2009
Distribuição Pandora
Gênero: drama
Direção de Cédric Klapisch
Com Juliette Binoche, Romain Duris e François Cluzet

“Horas de Verão” é um manifesto em prol do desapego e do amor à arte.

Com o título “Le Temps de Venir” (O Tempo de Chegar) e o mesmo elenco, a continuação deste “Horas de Verão” já se acha em filmagem pelo francês Olivier Assayas (Paris, 1955). É curioso ver um jovem cineasta fazer filmes, como estes, engajados na defesa do patrimônio cultural europeu, ameaçado pela globalização. O diretor é filho do consagrado roteirista já falecido Jacques Rémy que, em 1958, fez sucesso com “A Gata”, estrelado por Françoise Arnoul. Assayas começou no cinema como crítico da revista “Cahiers du Cinema”, em 1979, quando ainda era estudante. Em 1985 assinou o roteiro de “Rendez–Vous”, de André Techiné, exibido na 10ª Mostra Internacional de São Paulo. No ano seguinte, dirigiu “Désordre”, seu primeiro longa. Seus demais trabalhos são conhecidos pelo público paulista graças à Mostra. Com exceção de “Clean”, de 2004, com o qual ele concorreu em vão à Palma de Ouro em Cannes.
“Horas de Verão” é um drama suave, praticamente desprovido de conflito, que se limita a um olhar irônico sobre a desagregação de uma família da elite cultural francesa. Aqui, no chamado Terceiro Mundo, estamos acostumados a observar exemplos de dissolução familiar provocados em sua maioria pela pobreza. Não é o que ocorre neste caso, protagonizado pelos descendentes de um pintor famoso do século XIX. Ao morrer a sua sobrinha, uma dama que se dedicava a preservar a sua memória, os herdeiros resolvem vender tudo. Inclusive a casa de campo em que ele vivera. O único parente que tinha alguma ligação afetiva com o local e suas lembranças era um economista. Mas foi voto vencido pelos irmãos globalizados: uma designer industrial que mora no EUA e um administrador que vive na China.
Horas de Verão
L’Heure d’été
Estréia 03/07/2009
França 2008
Gênero: Drama
Distribuição: Filmes da Mostra
Direção: Olivier Assayas
Com Juliette Binoche, Charles Berling,
Jérémie Renier, Edith Scob

Foi um sucesso o lançamento do guia de filmes OS MELHORES FILMES NOVOS

O concorrido evento na Livraria Cultura da avenida Paulista já sinalizava uma ampla aceitação pelo público. Logo na primeira semana de lançamento, o livro já entrou para a lista dos mais vendidos da Siciliano. Por isso está sendo vendido com 20% de desconto naquela livraria.
De R$43,00, o preço de capa caiu para R$34,30.
São poucos os programas mais simples e prazerosos que assistir a um bom filme na sala de casa. Mas com tantas opções nas lojas e locadoras, como fazer uma boa escolha?
A resposta está em "Os melhores filmes novos" – 290 filmes comentados e analisados. A escolha, as informações e os comentários são do crítico de cinema Luciano Ramos (na foto acima), que assistiu a mais de dois mil filmes lançados nos últimos quatro anos no circuito comercial brasileiro. A seleção de Ramos promete apoiar a todos os frequentadores de locadoras, na busca pela melhor opção. Há lugar para europeus, como "O pequeno italiano" e "A Vida dos outros", blockbusters, como "Batman Begins", animações como "A era do gelo 2" e brasileiros aplaudidos pelo público, como "Se eu fosse você".
Para selecionar os melhores, o autor analisou cinco aspectos: argumento, roteiro, elenco, produção e direção. Os títulos incluídos no livro mereceram destaque ao menos em quatro deles. “É claro, porém, que a identificação desses predicados depende sempre do olhar pessoal de cada crítico: a sagrada cidadela da sua subjetividade como indivíduo”, adverte Luciano Ramos. Para aqueles que buscam uma lista ainda mais apurada, Ramos também destacou 100 títulos imperdíveis.
Luciano Ramos (na foto com Rogério Covaleski) define o argumento como o nível de conteúdo do filme, pelo qual se avaliam suas ideias e significados: se é superficial, se é original, se reflete com honestidade um episódio histórico. Ao roteiro corresponde a estrutura do filme, revelando o ritmo das ações, a fluência da narrativa, seu grau de interesse, a criatividade das soluções e os diálogos. No elenco se encontra o trabalho dos artistas, a interpretação de cada um e sua adequação aos papéis. A produção designa o nível físico do espetáculo: cenários, figurinos, fotografia, iluminação, trilha sonora, efeitos especiais e montagem. Por fim, a direção significa a instância mais elevada de autoria do produto: o diretor é, em suma, o regente da orquestra.

Os filmes são agrupados em ordem alfabética dentro de capítulos que correspondem às principais categorias: aventura, brasileiros, comédia, documentário, drama, fantasia, história e infantil. Em todos os comentários, com exceção daqueles referentes aos documentários, há também uma relação de “gêneros conexos”, ou seja, um conjunto de gêneros com os quais o filme comentado mostra alguma ligação. Cada título é acompanhado, ainda, de uma breve ficha técnica que inclui os prêmios recebidos.

Como outro diferencial importante, Os melhores filmes novos traz um bônus para quem adquirir este livro: quatro atualizações on-line, que analisam e avaliam os filmes lançados a partir de 2009. A primeira lista já se acha disponível desde o dia de lançamento desta obra nas livrarias. Em seguida, a cada seis meses, acontece uma nova atualização até o fim do próximo ano. “Com esse procedimento, eu e o livro pretendemos nos tornar uma companhia útil e constante para quem gosta de cinema e tem curiosidade pelo que há de novo em matéria de bons espetáculos”. Companheiros sem os quais não será prudente frequentar uma locadora para escolher o que vamos assistir.