Trata-se de um trabalho precioso do paulista Ricardo Dias sobre Paulo Vanzolini. A estrutura a um só tempo cartesiana e diversificada desse documentário poderia ser considerada “pós-moderna” – por lançar mão de diversos recursos estilísticos e harmonizar diferentes vozes, num todo integrado. Ainda que aparentemente simples, é primorosamente fotografado por Carlos Ebert, com estilos diversos. Cenas noturnas em que a câmara expõe a paisagem urbana da Avenida São João se misturam com outras passagens em que apenas captura momentos das gravações musicais e com situações em que o diretor, sutilmente, “arranca” declarações do entrevistado.
Os elementos empregados na feitura da obra mostram precisão e variedade. Por meio de uma narração em off, o próprio realizador explicita a sua ligação de amizade com o compositor que é tema do filme e utiliza fotos inéditas de Thomaz Farkas para sugerir o visual de São Paulo, no tempo em que Vanzolini começou a escrever canções. Mais adiante, recorre a registros brutos de ensaios e os combina com cenas da mesma música apresentada no palco de um show. Além disso, usa material de arquivo escolhido a dedo como, por exemplo, um impagável depoimento de Adoniran Barbosa e flagrantes de Vanzolini na selva, exercendo o seu ofício de zoólogo.“A música dele é parecida com a minha, só que mais fina. Afinal ele é um cientista, um zoológico...” (Adoniran Barbosa)
Boa parte das 27 canções incluídas no filme é comentada pelo próprio autor, numa entrevista, e por meio de imagens que Ricardo Dias (na foto abixo com Vanzolini) foi captando e editando em função da “dramaturgia” implícita em cada uma. Assim, a interpretação de “Na Boca da Noite” é ilustrada por fotos de caminhoneiros e moças de estrada, enquanto “Volta Por Cima” é entoada coletivamente por cidadãos anônimos recrutados nas ruas. Em depoimento, o próprio diretor considera essa obra como pertencente a uma linha que ele chama de “o novo gênero de documentário musical”. Assim como "Buena Vista Social Club", de Wim Wenders, que fundou esse "gênero", este filme é indispensável.

Aliás, o tema principal de toda a série é a formação de uma espécie de família constituída daqueles seres tão biologicamente diferentes entre si. Dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha, a Era do Gêlo parece um discurso em favor da aceitação da diversidade racial e cultural. Esse evidente anacronismo é superado por um absurdo ainda maior que é a presença dos dinossauros. A explicação é que os lagartos gigantes habitavam uma imensa caverna subterrânea, parecida com aquela imaginada por Julio Verne em “Viagem ao Centro da Terra”. Lá eles presenciam um conflito com um imenso réptil e uma doninha, que lembra a história clássiva de Moby Dick.
Quase que inteiramente ambientado nesse mundo ancestral e cheio de perigos, o filme é tão simpático e engraçado quanto os anteriores. Mas o melhor de tudo ainda são as participações especiais do esquilo Scrat, que obriga os realizadores a se exercitarem naquela comicidade direta, própria do cinema mudo e da animação puramente gráfica, quase abstrata de Chuck Jones (1912-2002), especialmente nos filmes do Papa Léguas sempre perseguido pelo Coiote. 

O diretor é ainda o sofrível e televisivo David Yates do episódio anterior. Tudo bem se o filme não fosse apenas um show de efeitos especiais e referências ao best-seller de J.K. Rowling. A cenografia tem momentos deslumbrantes, que chegam a lembrar a ilustração gótica de Gustave Doré, mas isso não garante o resultado do todo. Os ingredientes do que seria uma aventura adulta de Harry Potter são o suspense e a frustração erótica. Enquanto luta para evitar um assassinato, o herói tenta chamar a atenção de uma garota que já tem namorado.
Para sugerir um toque na linha de “O Nome da Rosa”, a trama gira em torno de um palimpsesto, ou seja, das anotações secretas redigidas nas margens de um velho livro de magia. Mas, a intenção principal continua sendo a de vender o videogame, os óculos que imitam os do herói, a caneta que parece uma varinha mágica e todo o merchandising envolvido.
Harry Potter e o Enigma do Príncipe






