sexta-feira, 6 de novembro de 2009

DIÁLOGOS E INTERAÇÕES ENTRE CINEMA, MODA E LITERATURA - na livraria Cultura

COCO ANTES DE CHANEL
Cinema, literatura e moda sempre tiveram tudo a ver... ouvir e tocar. Um triângulo amoroso que vem se aquecendo com a recente diversificação das influências mútuas. Ora são os filmes determinando que tipo de roupa ou acessório as massas devem usar, ora são autores como Marcel Proust, Oscar Wilde e Machado de Assis tomando o universo da moda como fonte de inspiração. Mas esse caminho apresenta mão dupla e múltiplos atalhos: de um lado, estilistas criando figurinos para a tela e, de outro, filmes tendo designers de moda como protagonistas; romances elaborados pela observação de determinados estilos de viver e vestir; coleções criadas a partir de climas emocionais e imagens plásticas sugeridas por obras literárias. Todos os meandros desse percurso são desvendados em eventos da 6ª Semana de Moda da Livraria Cultura, que acontece entre 9 e 13 de novembro.
COCO CHANEL
No dia 09/11, às 12hs o desfile performático Moda e Literatura sai da Avenida Consolação e segue pela Paulista em direção à Livraria Cultura do Conjunto Nacional, em sua entrada da Alameda Santos. Elaborado por alunos da graduação de Moda da FMU e coordenação da professora Romy Tutia, o desfile mostra uma série de 17 looks inspirados em obras literárias que foram adaptadas para o cinema.
No dia 11/11, às 16hs, o crítico e escritor Luciano Ramos, autor do livro Os Melhores Filmes Novos faz uma palestra ilustrada sobre Moda e Cinema
No dia 12/11 às 16 horas, a curadora do desfile performático, professora Jo Souza falará das ricas e plurais relações entre Moda e Literatura numa palestra.
Entrada gratuita e vagas limitadas. As palestras acontecem no Teatro Eva Herz - Livraria Cultura Cj. Nacional - Av. Paulista, 2073 - São Paulo/SP.
Serão distribuídas senhas 2 horas antes do início da palestra. Sujeito à lotação: 166 lugares
Jô SOUZA
Docente da graduação de moda da UNIFMU-SP. Mestranda em Comunicação e Semiótica (PUC-SP). Em 2009, organizou e concebeu a exposição fotográfica Modos da Moda na Reserva Cultural, os ciclos de palestras e debates Cinema e Moda na PUC/SP e Diálogos entre imagens de Moda na UNIFMU/SP.
LUCIANO RAMOS
Docente de pós-graduação em Jornalismo Cultural e Crítica de Cinema na FAAP- SP. Crítico de cinema da Rádio USP e da Revista Reserva Cultural. Mestrando em Multi Meios na UNICAMP-SP. Autor do livro Os Melhores Filmes Novos – 290 filmes analisados e comentados (Editora Contexto)
COCO CHANEL E IGOR STRAVINSKY

Nas imagens acima, vemos Audrey Tatoo, Shirley McLaine e Anna Mouglalis interpretando Coco Chanel em 3 filmes diferentes: um dos temas da palestra Moda e Cinema - dia 11/11/2009

“O Solista”, drama de Joe Wright é um dos mais importantes lançamentos do ano.

O filme se inicia com imagens de um jornal sendo impresso, tendo ao fundo a voz de um de seus redatores ao dar início a um relato. A câmara revela os nomes do jornal e de quem assina uma determinada matéria: Steve Lopez, do Los Angeles Times. Ficou claro, portanto, que essa narrativa acontece em primeira pessoa. E que, além disso, essa pessoa é um jornalista amplamente conhecido nos EUA. Com esse procedimento áudio-visual, o diretor esclarece que o roteiro se fundamenta em personagens reais, deixando de lado os irritantes letreiros que costumam ser usados para isso. É comum ver filmes menores que este recorrendo a esse expediente, porque existe a idéia de que as peças de ficção ganhem credibilidade com o respaldo da “vida real”. E, assim, se mostrem tão respeitáveis quanto os documentários − com a vantagem de serem interpretadas por atores profissionais, seguindo roteiros capazes de atribuir dramaticidade à exposição da história. Como se as posições ideológicas e as fantasias dos realizadores pudessem ser referendadas por aqueles acontecimentos situados aquém da imaginação. Em outras palavras, assim como os documentários fazem asserções sobre o mundo, nas entrelinhas de seus roteiros os diretores do gênero “docudrama” veiculam valores, conceitos e interpretações acerca de si e do contexto histórico em que se situam. Este se baseia numa série de artigos de Steve Lopez publicada em 2005 sobre um morador de rua que tinha sido aluno brilhante da Julliard e concertista de violoncelo.
Protagonizado por Robert Downey Jr, no papel de Steve Lopes, famoso jornalista californiano, e por Jamie Foxx, interpretando um morador de rua que fora concertista de violoncelo – objeto das suas crônicas no Los Angeles Times. É dirigido pelo inglês Joe Wright, que fez o excelente “Desejo e Reparação” e escrito por Susannah Grant que redigiu o também premiado “Uma Mulher de Talento”. Essa dupla não quis seguir a já desgastada tradição hollyoodiana que se estende desde os anos 30, desenvolvida como meio de compensar o desespero social trazido pela crise de 29, e que consistia em fazer filmes para renovar a confiança das pessoas no sistema capitalista.

Como alguém informado por aqueles filmes, a princípio o personagem do Steve Lopez tenta transformar o músico de rua numa figura típica de filme de Frank Capra: em sua fantasia, ele acabaria superando os limites por conta de seu talento e conquistando a redenção por meio de uma segunda chance. Mas isso não ocorre e os realizadores de “O Solista” conseguem produzir emoção, mesmo contando a história de um perdedor. A propósito, as cenas em que ele reconsitui a zona de consumo de drogas de LA, um lugar mais tétrico que a Cracolândia paulista, esfaqueia qualquer coração. Na verdade, o jornalista quase perde a capacidade de acreditar, não apenas no sistema, mas em si mesmo. Esse é o tema real do filme, de resto um luxuoso exercício de estilo, com destaque para o casamento entre música e imagens, como na cena em que a cidade de Los Angeles como que flutua ao som de Beethoven. A trilha do impecável de Dario Badalenti é a moldura sonora para imagens de dolorida beleza, como o momento em que, sentado diane de uma sinfônica, o ex-músico recebe o impacto do primeiro acorde de um concerto de Beethoven.
O SOLISTA
The Soloist
Direção de Joe Wright
Inglaterra / EUA / França - 2009 – 117 min.
Gênero: drama / história
Distribuição Paramount
estréia 06/11/2009
Com Robert Downey Jr, Jamie Foxx e Catherine Keene

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

"Coco antes de Chanel", embalagem vistosa de produto fora do filme: a vida real da estilista

"Coco antes de Chanel" vale pelo que mostra de mais evidente, como um bolo do qual só podemos experimentar a cobertura, impondo-nos a frustração de não ter acesso àquilo que sabemos encontrar-se oculto por trás da primera camada de açucar e confeitos. O roteiro se concentra em pinçar alguns episódios da biografia e alguns traços de personalidade da moça que se tornaria uma das mais importantes estilistas de moda no século XX, só para tentar justificar o seu futuro sucesso. Seria a mesma coisa que tentar explicar a vitória de um general numa batalha pelos planos que ele formulou e pelas técnicas militares que aprendera. Nesse caso imaginário, o historiador estaria se esquecendo de reparar que, no lado derrotado, existe outro general tão competente quanto e que tinha formulado estratégias igualmente engenhosas, ainda que derrubadas pela complexidade e pelo imprevisível dos fatos. No filme "Cartas de Iwo Jima", por exemplo, o diretor Clint Eastwood não comete esse erro e acerta em cheio.
Mas nesse docudrama da experiente diretora e roteirista Anne Fontaine é tudo certinho demais, como se houvesse uma predestinação conduzindo a história da garota interpretada por Audrey Tatoo: o talento para o desenho, associado a um olhar crítico em relação à exagerada indumentária da belle-époque e a prática diária como costureira profissional. Tatoo se apoia na semelhança física com a personagem, mas é Emanuelle Devos quem rouba a cena, recriando com precisão a figura de uma mulher típica do "mundo artístico" daquela época. O roteiro chega até à ousadia de relacionar o que seria uma certa falha de caráter, segundo a moral daquele tempo, com a sua disponibilidade de inovar de modo radical. A jovem Coco vivia com um homem muito rico apenas por conveniência e interesse. Quantas outras jovens costureiras teriam feito o mesmo e continuaram no anonimato? E quantas outras, ainda que talentosas, permaneceram como operárias, exatamente por não tê-lo feito? Mesmo assim se percebe algo de timidez da roteirista em relação a esta personagem tão idolatrada e poderosa.

Coco Antes de Chanel
Coco Avant Chanel
França (2009) – 110 minutos
Gênero drama / história
estréia 30 10 2009
Direção Anne Fontaine
Com Audrey Tautou , Benoît Poelvoorde ,
Alessandro Nivola , Emanuelle Devos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

“Bons Costumes”, irresistível comédia de Noel Coward, um dos melhores filmes do ano

"Bons Costumes” é adaptação de uma peça de Noel Coward por Stephan Elliott, o diretor australiano de “Priscilla - A Rainha do Deserto”. A primeira versão foi de Hitchcock em 1928. A obra foi escrita pelo dramaturgo londrino quando ele tinha apenas 25 anos e já era conhecido como “o mestre da esperteza”. Datado de 1925, o texto atualizava os romances sociais na linha de “A Dama das Camélias”, vertendo o drama para uma chave cômica. Em vez de vítima, a figura carimbada da “demi-mondane” desempenha a função de protagonista e desencadeadora dos acontecimentos
No papel de uma viúva rica que se casa com um jovem aristocrata de família ultra esnobe, Jessica Biel (“O Ilusionista”) representa a nova mulher do século 20 que veio para desafiar a hipocrisia das elites. Esta versão cinematográfica homenageia os artistas da canção e da palavra − como Cole Porter, Scott Fitzgerald e o próprio Coward − daquela primeira onda de contra-cultura no período entre as guerras. A direção se mostra atenta a detalhes insuspeitados, como um rato que aparece na biblioteca da matriarca vivida por Kristin Thomas.
A inversão de expectativas na seqüencia da caçada. Ou um latido de cachorro comentando a evolução da cena − assim como as melodias de Porter, às vezes executadas como num piano de cinema mudo. Além do requinte nos figurinos, destaca-se a atuação de Colin Firth e a sofisticação do diálogo: uma verdadeira luta de punhais afiados pelo humor e a ironia de Noel Coward.
Bons Costumes
Easy Virtue
gênero comédia / história / farsa
estréia 23/10/2009
Distribuição Sony
direção Stephan Elliott
Com Jessica Biel, Kristin, Scott Thomas, Colin Firth

Para Goiânia e redondezas, estarei lá lançando o "Melhores Filmes Novos", dia 21/10

Reforçando:
Data: 21/10/09
Horário: 19h
Local: Centro Cultural da Cara Vídeo.
Rua 83, n. 361, Setor Sul. Goiânia-GO.
Tel.: 62 32186895 (Falar com Delma)
62 84532568 (Luiz Felipe - cineclube Cascavel)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

"O Desinformante", o quarto Soderbergh em 2009: verdade como se fosse mentira

Neste que é um dos melhores filmes da temporada e, certamente, o melhor trabalho de Steven Sorderbergh nos últimos anos, temos uma comédia que lembra o estilo dos irmãos Cohen, mas é muito superior ao que essa dupla tem mostrado recentemente. Inclusive porque “O Desinformante” se fundamenta num caso real, tal como foi narrado por Kurt Eichenwald, repórter do New York Times. Vivido com brilhantismo por Matt Damon, Mark Withacre é um executivo em ascensão que resolve revelar para o FBI algumas falcatruas da emprese em que trabalha. Em seguida, se transforma em informante do governo e passa a gravar reuniões secretamente, brincando de agente secreto.
Porém, essa figura aparentemente ingênua tem muito mais aspectos do que podemos revelar para não estragar as surpresas do roteiro. Ao levar para o cinema esse inacreditável personagem de um livro de não-ficção, o diretor utiliza recursos narrativos da comédia com excelentes resultados. E o cineasta chega a brincar com o gênero de cinema documentário ao colocar na boca do protagonista a frase “eu queria ser uma mosca na parede para ver a cara dele”. A expressão "mosca na parede" se refere ao posicionamento da câmara nos documentários da linha "cinema direto", que se praticava nos anos 60 nos Estados Unidos. É como se Soderbergh nos dissesse: "já tratei histórias fictícias ("Bubble", "Confissões de uma garota de programa") como se fossem verdadeiras e agora filmo uma história real como se fosse uma comédia".
Na estrutura do roteiro, destaca-se a comicidade oferecida pela narração em off na primeira pessoa. Ela permite que observemos o que o passa pela mente do informante enquanto está agindo. E nem sempre o que ele pensa tem relação lógica com o que faz. Essas frases são tão absurdas e engraçadas que aparecem como ilustração sonora no site oficial do filme. Aliás, o compositor do fillme Marvin Hamlisch está em seu terreno preferido que é o humor. Foi ele o pianista que Croucho Marx convidou para acompanhar as suas históricas apresentações como "stand up comic" no Carnegie Hall. Ele se diverte pontuando a trilha sonora com impagáveis comentários musicais sobre a história, recorrendo a citações e paródias de melodias amplamente conhecidas. É um show à parte que, desde já, o credencia para um terceiro Oscar.

O DESINFORMANTE
The Informant!
etreia 16 10 2009
EUA - 2009 – 108 min.
Gênero comédia / história
Distribuição Warner Bros.
Direção Steven Sorderbergh
Com Matt Damonm, Lucas McHugh Carroll e Eddie Jemison


Em sua ousadia, "Distrito 9" presta uma sutil homenagem ao gênio de Orson Welles

O filme “Distrito 9” é produzido por Peter Jackson, o responsável pela grife "O Senhor dos Anéis" e pela versão mais recente de "King Kong". Numa linha totalmente oposta àqueles épicos fantásticos, este imagina uma verdadeira cidade de alienígenas vivendo como favelados na África do Sul. Uma nave descomunal estacionou sobre a cidade de Johanesburgo e seus quase dois milhões de ocupantes, famintos e desnorteados, foram alojados num campo de concentração. Sua aparência repulsiva provoca total aversão dos habitantes que, depois e 20 anos de convivência, decidem transferi-los para fora da cidade.
Tudo se complica quando um funcionário do governo é contaminado com um misterioso material genético e começa a se transformar fisicamente num alienígena. Esse processo é semelhante ao que vimos em "The Fly" (1986 - David Cronenberg) filme que nítidamente inluenciou o design destes ETs de Jackson. Provavelmente para ampliar a impressão de realidade, o filme adota o formato de um documentário ou noticioso. Ou seja, tudo é narrado por meio de entrevistas falsas em que atores desconhecidos respondem para a câmara como se fossem cientistas, policiais transeuntes e o próprio personagem central, antes de ser infectado.
Acima, o alienígena de Peter Jackson.
Abaixo "A Mosca" de David Cronenberg
A encenação procura seguir essa linha de modo radical, mas não consegue. Assim como aconteceu com Orson Welles, em sua histórica adaptação radiofônica de "A Guerra dos Mundos" transmitida em 1938 que, só na primeira parte, tinha o formato de um noticiário. Quando, por exemplo, o personagem central de “Distrito 9” está se escondendo, não há ali nenhuma câmara de reportagem e, ainda assim, acompanhamos a sua movimentação – isso, portanto, que não chega a ser um defeito do filme. Mas um lembrete de que em cinema não vale considerar apenas o que se vê na tela, mas principalmente a maneira como aquilo se mostra. A metáfora com a desumanidade do apartheid sul-africano é evidente. Mas, o drama não se limita a isso e, por meio desse herói que lembra o clássico Prometeu, discute a fragilidade da condição humana.

DISTRITO 9
District 9
Nova Zelândia/África do Sul 2009 – 112 min
estreia 16/10/2009
Gênero Fantasia / Ficção Científica
Distribuição Columbia
Direção Neill Blomkamp
Com Sharlto Copley, Jason Cope,
Nathalie Boltt e Sylvaine Strike