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quarta-feira, 24 de maio de 2017

Meio western e introspectivo, "Comeback" é marcado como o último filme de Nelson Xavier



Cena cuja feição sombria traduz a melancolia do protagonista.

“Comeback” é um filme de difícil conceituação. De início parece um western, depois se transforma num drama introspectivo e melancólico. Mas a sua principal característica é ter sido o derradeiro filme de Nelson Xavier, falecido a pouco menos de um mês, aos 75 anos de idade. Ator, roteirista e inspirador de vários títulos do cinema novo, ele representou uma das mais importantes figuras da história da dramaturgia brasileira. Este filme deu a Xavier o prêmio de melhor ator no Festival do Rio 2016. 

Nelson Xavier começou sua carreira no Teatro. No cinema e na TV atuou em 96 títulos, sendo, portanto um personagem presente em diversos gêneros nacionais, desde os teleteatros da TV Tupi nos anos de 1950, passando pelo cinema novo, na década de1960, por uma série de novelas na TV Globo a partir de 1970 e uma grande variedade de filmes depois disso. Alguns se mostraram especialmente marcados pela sua atuação, como por exemplo “Rainha Diaba”, “Dona Flor e seus Dois Maridos”, “Lampião e Maria Bonita”, “Narradores da Javé” e, especialmente, “Xico Xavier”, de quem não era parente, mas com quem tinha uma forte identificação religiosa. 

“Comeback” é o retrato de Amador, um pistoleiro e matador aposentado. A historia de fato se passa no centro oeste, numa localidade onde mora o roteirista e diretor do filme, o goiano Erico Rassi. Falo de Anápolis, uma cidade cuja periferia parece ter sido moldada para um filme de faroeste. Amplos espaços e um clima de desolação e abandono. De fala mansa e modulada por um português corretíssimo, o filme e seu protagonista foram premiados no FESTin – Festival de Cinema Itinerante de língua Portuguesa que aconteceu em março na cidade de Lisboa. 


O velho pistoleiro Amador é o último personagem de Nelson Xavier

O velho pistoleiro é solitário e amargurado, sempre se lembrando de um passado que ele considerava heroico. Tanto assim que, todas as noites, ele abria um velho álbum no qual coleciona recortes de jornal, documentando os seus antigos crimes. Sentia-se humilhado em contato com os antigos colegas de bandidagem. Até que uma dupla de cineastas meio amadores resolve procura-lo para auxiliar na feitura de um filme sobre os veteranos bandoleiros da cidade. Nesse ponto, sua memória é despertada e ele decide voltar á ativa. Ou seja, vai reagir com violência à hostilidade do mundo que o cerca. 

O filme é quase uma obra minimalista, com falas curtas, pontuando diálogos econômicos e sintéticos. Trata-se do primeiro longa de ficção do diretor goiano Erico Rassi, e que deixa claro um possível futuro de filmes expressivos. Com uma boa dose de ironia e um humor cortante, o roteiro utiliza situações inesperadas para abordar a angústia da solidão, da melancolia da velhice e do autoritarismo que voltam a incomodar o personagem central. Certamente ele não seria incluído em um filme de Clint Eastwood, daqueles cujo tema é um heroísmo tardio. Mas certamente é uma referencia ao gênero western que teima em não desaparecer.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

"Rei Arthur", um filme acima da média, readapta a milenar história do herói bretão


Djimon Hounsou (esquerda) e Charlie Hunnam (direita) em cena do longa

O blockbuster de ocasião, ou seja, o filme mais comentado na mídia agora é “Rei Arthur: a Lenda da Espada”. Fato é que se trata de uma história extremamente antiga, há muitos séculos difundida, e que quase todo o mundo conhece. Ou, no mínimo, sobre a qual já ouviu falar alguma coisa. Livros infantis, revistas em quadrinhos filmes de cinema ou animações, adaptações curtas e mais alongadas, musicais de palco. Enfim todos nós temos alguma ideia do que seja essa aventura e o herói que a interpreta. Portanto, o grande problema do diretor e roteirista Guy Ritchie foi criar uma obra inédita sobre o tema. 
 
O filme é de fato muito elaborado em termos de texto e linguagem audiovisual. Por isso vamos tentar agora uma espécie de aquecimento, de análise prévia sobre o que acabamos de ver sobre esse espetáculo marcado para estrear agora no dia 18. 

É claro que o tema da magia precisava ocupar o primeiro plano do roteiro. Até porque a série de romances sobre ele e Camelot, chamado “As Brunas de Avalon”, é uma produção essencial e que já ocupou o espaço nas livrarias que já foi da saga Harry Potter. Mas não cabia incluir a figura barbuda do Mago Merlin, porque a total maioria dos personagens é do gênero masculino. Quase não há mulheres em cena. Então Guy Ritchie preferiu escalar uma Maga, que é o papel da diáfana espanhola, aqui muito boa no papel, Astrid Berges-Frisbey. 

Cena da espada fincada na pedra: um dos pontos altos do filme

A maioria acredita que a história se passa na Idade Média europeia. OK. mas aquele prolongado período durou cerca de mil anos e teve várias fases. A partir das indicações fornecidas na tela pela arquitetura, armas e vestuário do filme, parece que tudo se passa no centro da idade Média, com armaduras reluzentes, espadas de aço e armas de fogo. Mas as referências históricas da narrativa que, se acham misturadas com lendas e ficção, a colocam no final do século 5º, ainda no fim do Império Romano. Isso, quando os Bretões enfrentavam as tribos de saxões. Mas o diretor prefere contar com os vikings, talvez porque para ele eram mais interessantes do ponto de vista visual. 

O filme, porém, está acima da média das aventuras épicas e a cena da espada na pedra é uma das melhores.  No entanto, os problemas mais graves estão no texto, que chama a Inglaterra de “Nação” – que na verdade só apareceu como tal no meio da Idade Média, após a invasão dos normandos no século XI. No filme é todo exagerado em termos de volume e tamanho. Os exércitos e os castelos são superdimensionados. A cidade de Londinium, que era o primeiro nome de Londres, aparece como uma metrópole majestosa, mas era apenas uma vila romana cercada por muralhas, apenas o povoado mais populoso da Bretanha. 

Charlie Hunnam vive Rei Arthur

O problema do anacronismo, aliás, se manifesta algumas vezes ao longo do filme. Que, aliás conta com no mínimo dois atores que já conhecemos da série “The Game of Thrones”. Por exemplo, o tio de Arthur interpretado, por Jude Law, cumprimenta os seus guerreiros com uma saudação igual à dos nazistas. E a própria formação do herói se parece com a de Jesus Cristo, com a sua peregrinação a sós pelo deserto. Além disso, do ponto de vista físico, o ator inglês Charlie Hunnam se parece com um halterofilista ou guerreiro ninja.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

"A Grande Ilusão", de S. Zaillin, é um filme muito temático para os dias correntes




Sean Penn e Mark Ruffalo integram o seleto elenco do longa

Talvez o filme mais sugestivo deste momento date de 2006 – tem pelo menos mais de 10 anos – e até hoje ainda não foi lançado nos cinemas. Trata-se de “A Grande Ilusão”. Pode parecer mentira, mas esse foi um dos mais importantes filmes americanos produzidos em 2006 nos EUA e, no entanto, só foi lançado no Brasil em DVD. 
O título original deste filme escrito e dirigido por Steven Zaillin é “All the King's Men” e conta com um elenco arrasador, em que o protagonista é Sean Penn. Mas veja só o nível dos coadjuvantes: Kate Winslet, Jude Law, James Gandolfini, Mark Ruffalo e Anthony Hopkins... e trazendo como atração adicional a elegância de Patricia Clarkson – que, além de atriz, é uma das melhores narradoras de documentários para TV, como "For the Love of Movie: The Story of the American Film Criticism".
A proposta é contar a história de Huey Long, um político real que tinha o apelido The King Fish (ou seja, Tubarão) por causa da ferocidade no palanque. Seus discursos eram incomparáveis e nos debates ninguém o derrotava.


Sean Penn está impecável neste seu papel de Huey Long

Na verdade, o mais importante era o conteúdo sedutor das suas propostas, geralmente inflamadas pelo uísque. Vejam, ele simplesmente prometia a abolição da desigualdade social. Nada menos do que a repartição geral da riqueza nos EUA. Pra completar, ele combinava um estilo populista, mas, ao mesmo tempo comandava a corrupção no Estado da Louisiana. 

“A Grande Ilusão” é a refilmagem de um clássico de Robert Rossen que ganhou três Oscars em 1949: melhor filme, melhor atriz coadjuvante e melhor ator, para Broderick Crawford. Aliás, esses dois títulos se acham disponíveis em DVD no mercado brasileiro. 

Ambos os filmes se baseiam num livro de Robert Penn Warren (1905 – 1989) premiado com o Pullitzer e considerado um dos mais importantes romances americanos: a biografia disfarçada de um populista dos anos de 1930, o qual certamente chegaria à presidência se os escândalos da sua administração não fossem revelados. 

"All the King's Men" de 1949: vencedor do Oscar de Melhor Filme
Seu governo foi uma mistura de obras públicas gigantescas, feitas sem licitação e superfaturadas, com a sistemática compra de votos da oposição. O curioso é que, no começo da carreira política, ele era um trabalhador que ganhou notoriedade denunciando a corrupção das elites e, mais tarde, depois de apanhado com a mão na massa, alegou que não sabia de nada e jogou a culpa em alguns assessores. Sean Penn de 2006 está mais exuberante e, mesmo assim, mais natural que Broderick Crawford em 1949 no papel do protagonista, que morreu em 1935. Interpretando o marqueteiro do Tubarão, Jude Law realiza um dos melhores trabalhos de sua carreira.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Marcelo Gomes dirige o drama histórico "Joaquim", sobre a vida de Tiradentes



Filme se passa na Vila Rica antes dos tempos de luxo

Se não for o filme comercialmente mais atrativo, “Joaquim” é sem dúvida o título mais curioso desta temporada. Primeiro por ter como base uma narrativa biográfica do alferes Joaquim José da Silva Xavier. Aquele que em seu tempo foi conhecido como o Tiradentes.
Em seu nono trabalho, o diretor é o consagrado Marcelo Gomes, autor do premiado “Cinema, Aspirina e Urubus”, de 2005. Junto com “O Baile Perfumado”, feito em 1997 por Paulo Caldas e Lírio Ferreira, são títulos que marcaram o início do ciclo ascendente dos cineastas pernambucanos. Esses que se colocam agora na linha de frente do cinema brasileiro, com obras como “Aquarius”, de Kleber Mendonça.

No papel do Mártir da Independência, temos Júlio Machado, que se tornou conhecido na TV pelo papel do jagunço Clemente, na novela “O Velho Chico”. Uma figura mais próxima de vilão do que de um herói. Um rosto marcante, mas de olhar feroz e macabro. O cabelo e a barba aparados à faca ampliam a aparência assustadora daquele militar mineiro, líder da Inconfidência. Não se trata de uma biografia detalhada, porque o roteiro se concentra no período em que ele era um policial, ocupado, em perseguir os contrabandistas das minas de ouro.


Júlio Machado vive um Tiradentes de aparência longe de idealizações

Alguns professores veteranos de história, talvez se escandalizem com o inesperado tratamento atribuído pelo diretor Marcelo Gomes à aparência e ao comportamento do Tiradentes. Especialmente à maneira brutal com que ele arrancava os dentes de quem o contratava para esse serviço. Mas também à sua ambição e a agressividade, que contrasta com aquela figura semelhante à de cristo, divulgada na maioria dos livros didáticos.

E, também, muito diferente daquele clássico do cinema novo, “Os Inconfidentes”, feito em 1972 por Joaquim Pedro de Andrade, assim como dos elegíacos poemas de Tomas Antonio Gonzaga e Cecilia Meireles. Os monumentos arquitetônicos do barroco, por sua vez, não aparecem nesta modesta reconstituição anterior ao luxo de Vila Rica.

Os atores Júlio Machado e Isábel Zuaa, o diretor Marcelo Gomes e o ator Welket Bungué
Façamos uma comparação com o atual “Sully – o Herói do Rio Hudson”, em que um piloto salvou centenas de passageiros, pousando o avião nas águas do rio. Ele atribuiu o sucesso daquela proeza ao conjunto de participantes de sua equipe. Por outro lado, no começo do filme Joaquim repete esta frase... “Aqui quem vos fala é um decatipado... Outros homens também conspiraram conta a coroa portuguesa, mas apenas eu perdi a cabeça”

sexta-feira, 5 de maio de 2017

"Passageiro: Profissão Repórter" é filme imperdível em mostra sobre Antonioni



Jack Nicholson e Maria Schneider fazem parte do filme.

Estamos dando continuidade à analise do filme “Passageiro: Profissão Repórter”, obra prima que Michelangelo Antonioni lançou em 1975. O filme se destaca entre aqueles que formam a Retrospectiva do cineasta Michelangelo Antonioni, que se estende até 22 de maio e acontece no CCBB de São Paulo e, posteriormente, no CineSesc. O texto do comentário se baseia originalmente num artigo publicado pelo crítico, na época em que o filme foi lançado em São Paulo.
No roteiro do queniano Mark Peploe, o protagonista é Jack Nicholson, no papel de um repórter a serviço da TV britânica. Ele está no deserto do Chade procurando dar início a uma reportagem em que pesquisa a ação dos guerrilheiros locais. Mas o repórter não consegue se comunicar com esses dado o fato de suas línguas não serem a mesma. Numa cena posterior, o repórter caminha sozinho e desanimado. E tenta contato com um garoto, que permanece impassível. O diretor não cede à nossa curiosidade, até porque a proposta de Antonioni é, como sempre, questionar a comunicação entre as pessoas.

Numa representação física do drama vivido pelo personagem central, o Land Rover com o que ele se locomove atola na areia do deserto. Ele volta ao hotel e descobre que o seu vizinho de quart, acabava de morrer de enfarte. Decide então trocar de personalidade com o morto, sem ao menos saber qual seria a sua atividade profissional. Nesse ponto, Antonione fabrica uma das suas mais intrincadas soluções narrativas.

Michelangelo Antonioni e Maria Schneider em set de gravação

Enquanto Nicholson falsifica o passaporte do morto, ouve-se uma conversa entre ele e o falecido. Ele olha para um canto e, sem corte, a tela nos mostra o bate papo entre os dois. E essa conversa termina quando Nicholson desliga um gravador. Não era portanto um flash back, mas um replay.


Com a nova personalidade, o repórter vive um período de paz, antes que tudo volte a se complicar. A última cena procura exprimir o sentido global do filme. Ou seja, a ideia é de que tudo sempre recomeça. Segundo Antonioni, embora ainda não sendo conclusivo, esse plano-sequencia é essencial, e, inclusive levou 11 dias para ser filmado. Portanto não perca “Passageiro: Profissão Repórter”, de Michelangelo Antonioni

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Mostra sobre Antonioni exibe grandes clássicos. Dentre eles, "Passageiro: Profissão Repórter"



Cena do longa "Profissão Repórter", com Jack Nicholson

Entre os dias 26 de abril e 22 de maio acontece no CCBB de São Paulo uma Retrospectiva – talvez a mais completa exibida até hoje – do mestre Michelangelo Antonioni, que morreu em 2007 aos 95 anos. A partir do dia 11 de maio essa mostra será replicada no Cinesc até o dia 17, sempre com cópias digitais ou em película 35 mm. Poderemos ver tudo o que ele criou: desde os curtas iniciais até as obras primas da maturidade.

Trailer de "O Eclipse", memorável filme em cartaz no CCBB:

Ao lado dos títulos mais conhecidos, como “Blow Up” e a chamada “Trilogia da Incomunicabilidade”, se destaca “Passageiro Profissão Repórter”, estrelado por Jack Nicholson. O destaque vem de seu caráter inovador ou, melhor, revolucionário em termos de linguagem. Em duas salas de cinema, o filme estreou em São Paulo em abril de 1976, portanto há 41 anos. Eu, Luciano Ramos, escrevi a crítica para o Jornal da Tarde, e seleciono trechos que reproduzo agora.

Considerava o filme como “uma realização tão desconcertante quanto deve ter sido o primeiro contra-plano, ou a primeira fusão de imagens da história do cinema". Trata-se de um plano-sequencia com sete minutos de duração, em que a câmara passeia pelo interior de um quarto de hotel, voa para gora, ultrapassando as grades da janela, circula pela praça em frente e enquadra o ponto de partida.

Continuando os trechos selecionados de minha crítica de 1976, afirmo que "os fatos cruciais do enredo acontecem dentro daqueles minutos, mas sempre fora do nosso campo de visão. Com isso, o que não aparece na imagem torna-se estranhamente vivo. Essa dinamização da área exterior à tela amplia o peso dos limites da percepção visual, bem como o desequilíbrio entre o aparente e o transparente captados pela câmara. (...) Os cortes de tempo mantem-se imprevisíveis, forçando ao máximo a atenção e se negando a satisfazer qualquer expectativa da plateia."


Trailer de "Passageiro: Profissão Repórter"
Ou seja, a objetiva nunca se compromete com o desejo da plateia e nem com o ritmo da história. Às vezes se demora sobre um detalha da paisagem, antes de enfocar os atores. Ou permanece no ambiente, mesmo depois dos intérpretes terem se retirado. Assim, o cineasta rompe com os esquemas consagrados de narração e não compactua com os condicionamentos cinematográficos costumeiros do público. Torna-se o senhor absoluto do espetáculo e obriga o espectador a preocupar-se com o que está acontecendo fora da tela. Não apenas com a ação do repórter, mas com o tema que ele pretende noticiar.

Em breve continuaremos a análise de “Passageiro: Profissão Repórter”, obra prima que Michelangelo Antonioni lançou em 1975 e que se destaca entre aquelas que formam a Retrospectiva do cineasta lendário, a ser mostrada até 22 de maio e acontece no CCBB de São Paulo e, em seguida, no Cinesesc.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Jim Jarmush se reinventa, como de costume, em seu "Paterson"



Adam Driver e Golshifteh Farahani em cena como namorados

As pessoas que vão assistir “Paterson”, do celebrado Jim Jarmush, assumem posturas diferentes em relação ao filme. Boa parte se mostra ainda marcada pela lembrança do icônico “Daunbailó”, que ele fez aos 33 anos e o colocou criador num patamar de prestígio geralmente só atingido por veteranos. Desde aquele trabalho de 1986, esse cineasta tem lançado filmes no mínimo inusitados e surpreendentes. Como se ele se encontrasse constantemente em fuga da repetição.
De fato, ele sempre faz um filme diferente do outro. Basta observar obras tão diferenciadas, como “Flores Partidas” de 2005 e “Amantes Eternos” de 2013. E “Paterson”, por sua vez vem sendo amplamente considerado como “um filme poético”. De fato algumas coisas estranhas se manifestam no roteiro. Em primeiro lugar a misteriosa coincidência: Paterson é o nome da cidadezinha real do estado de Nova Jersey onde acontece a história, e é também o nome do protagonista.

O personagem se dedica a duas atividades aparentemente antagônicas: ele trabalha como motorista de ônibus e também é poeta. Repete o mesmo trajeto todos os dias e sua rotina é feita de gestos que se reiteram, dia após dia: toma o café com a esposa, passeia com o cão, bebe uma cerveja no bar, escreve versos na hora do almoço e assim por diante. O personagem é interpretado por Adam Driver – um dos que fez o papel de padre no filme “Silêncio”, de Martin Scorcese. Por outro lado, a talentosíssima Golshifteh Farahani, que interpreta a esposa dele é uma celebridade no cinema iraniano e europeu.


O protagonista Paterson (Adam Driver), que tem mesmo nome de sua cidade

Acontece que, igualmente, no sentido estrito e preciso desse adjetivo, a designação de poético se mostra adequada porque, acima de tudo, a própria estrutura do roteiro é construída em função dessa qualidade. Além da musicalidade dos diálogos, ao assistir o filme, poderemos notar que as suas partes se intercalam e se repetem mais ou menos como as estrofes e as rimas de uma poesia. Foi estudando a composição “O Corvo” de Edgar Alan Poe, com aquele pássaro que repetia“Nunca Mais, Nunca mais”, que o linguista Roman Jacobson definiu o conceito de função poética da linguagem.

domingo, 26 de março de 2017

"Conspiração e Poder" questiona: vale mais a ética ou as conveniências do poder?



Robert Redford e Cate Blanchett compõem o elenco do filme "jornalístico-político"

O título original do filme “Conspiração e Poder” é “Truth”, ou seja, “Verdade”. Porque afinal é disso de que ele trata. Tudo se passa nos bastidores do departamento de jornalismo da CBS, ou seja, da Columbia Broadcast System. Ao lado da NBC e da ABC, a CBS é uma das três maiores redes norte americanas de rádio e TV. Imagine-se o poder que essa corporação detém no dia a dia dos EUA, ao exercer o oficio de descobrir e de revelar aquilo que se chama de “verdade”. Neste filme em que Robert Redford faz o papel do âncora Dan Rather, veremos o que pode acontecer quando essa empresa colide com os interesses da Casa Branca.
Os jornalistas descobriram que o presidente tinha evitado os combates durante o seu serviço militar no Vietnã. Isso seria uma mancha na carreira de George Bush que acontecera 40 anos antes dele se candidatar à reeleição em 2004. Para desviar o foco do noticiário sobre o assunto, o governo agiu para desacreditar os documentos, e assim, evitar a discussão se o futuro presidente fugiu ou não fugiu dos combates. Aqui no Brasil, aliás, a gente já viu esse truque em plena execução... 

Este é o primeiro filme dirigido pelo jovem roteirista James Vanderbilt que escreveu os filmes recentes do Homem-Aranha e adquiriu celebridade imediata em 2007, ao redigir o roteiro de “Zodíaco”, um excelente drama de suspense em torno de um espinhoso caso de jornalismo policial. Seguindo a linha daquele filme estrelado por Jake Gylenhall, Robert Downey Jr.
 e Mark Ruffalo, temos agora a competente Cate Blanchet no papel de Mary Mates, a produtora do programa “60 Minutos” apresentado por Dan Rather na CBS até 2005 e também autora do livro que deu origem ao roteiro.


Cate Blnachett está glorificante no papel principal

Todos sabemos que, em 1938, quando ainda era apenas radialista, o cineasta Orson Welles lançou uma adaptação radiofônica do livro de ficção científica “A Guerra dos Mundos”. A história foi contada pelo rádio como se fosse uma reportagem e muita gente entrou em pânico. Essa mentira, esse fingimento teve um sucesso tão retumbante que levou Welles para Hollywood. Mas aquele projeto estava fundamentado numa farsa e, até hoje, representa um problema de natureza ética. Isto é, o que viria em primeiro lugar... a verdade sobre o fato ou as conveniências do poder e das empresas de comunicação? Ou, colocando de outro modo, prevaleceria o título brasileiro “Conspiração e Poder”, ou o americano, que é simplesmente “Verdade”. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

"Conspiração e Poder" fala da manipulação em prol dos poderosos na comunicação de massa


Cate Blanchet brilha como protagonista do longa.

O ponto central do filme “Conspiração e Poder” é um conjunto de documentos que foram considerados falsos, mesmo referentes a um fato bem real. O tema é uma farsa que o jovem George Bush teria praticado na época em que cumpria o serviço militar. E que, portanto envolve matéria à qual o povo americano é especialmente sensível. Trata-se de um vibrante docudrama protagonizado por Robert Redford, que desde “Leões e Cordeiros” de 2007 tem feito obras de conteúdo político.
Durante a Guerra do Vietnam, sabia-se que alguns jovens da elite usaram as suas conexões sociais para evitar o combate nas frentes de batalha. Apesar de ter obtido uma espécie de certificado de alguns oficiais, na verdade o jovem Bush não esteve presente no período e no local onde deveria servir, de 1961 a 1964. O avô dele era Senador e o pai foi o mais jovem piloto da marinha, tendo lutado durante toda a 2ª Guerra. Aos 40 anos Bush Pai tornou-se milionário e deu início à carreira de político como deputado. Foi vice-presidente entre 1981 e 1993. Mas entre 1961 e 1964 o Bush Filho era um "filhinho de papai". 

Em 2004, os jornalistas da CBS levantaram toda aquela história às vésperas da eleição presidencial, no final do primeiro mandato de George Bush - àquela altura, cheio de poder e prestígio. Essa reportagem se apoiava em memorandos assinados por um Coronel Killian, que continham referência ao fato, e no testemunho de outro oficial reformado. A reportagem foi ao ar no programa “60 minutes” no dia 08 de setembro, e naturalmente enfureceu o poder constituído. 

Robert Redford interpretra o âncora Dan Rather

No entanto, o governo conseguiu provar que os chamados “Documentos de Killian” eram falsos – simplesmente porque foram datilografados num computador e não numa máquina de escrever fabricada nos anos de 1960. Foi o suficiente para desacreditar os testemunhos e arruinar a carreira do ancora Dan Rather e toda a sua equipe. Na semana seguinte, os jornalistas foram obrigados a se retratar e a pedir desculpas ao vivo pela CBS. Abrindo um parêntese, hoje se acredita que alguém deve ter redigitado os documentos num computador e queimado os originais. 

Em outras palavras, 
para não ter que discutir se Bush cabulou ou não o serviço militar, conforme os testemunhos, preferiu-se lançar dúvidas sobre os documentos. Assim como se faz ainda hoje, por exemplo... para esfumaçar o conteúdo de um telefonema, questiona-se a legalidade da sua divulgação. Depois de 43 anos de trabalho, Dan Rather saiu da CBS e processou a empresa, por tê-lo usado como “bode expiatório” no conflito com a presidência da república. Agora com 85 anos, ele continua combatendo a influência dos governos e das corporações no jornalismo. Amanhã continuamos o nosso comentário sobre este magnífico “Conspiração e Poder”. Até lá.

segunda-feira, 6 de março de 2017

"Cinema Falado": Sesc Pompeia realiza uma sequência de atividades sobre cinema


Imagem do Sesc Pompeia, onde ocorrerão os eventos de "Cinema Falado"

Dos dias 8 a 24 de março o Sesc Pompeia realizará um ciclo de atividades e experiências sobre cinema. Na verdade, o evento "Cinema Falado" se define da seguinte forma:  uma investigação sobre a fala, enquanto discurso fílmico, a voz e o roteiro no cinema. O nome é só uma coincidência com o do blog, mas vale dar destaque a programação desse conjunto de workshops, experimentos cênicos e cursos.

Nos dias 8 e 9 de março (quarta e quinta), às 22h, Suzana Reck Miranda (mestre e doutora em Cinema) ministra o minicurso "O uso da música no cinema: uma introdução", que trata da trilha musical desde os primórdios da sétima arte até propostas estéticas do cinema moderno e contemporâneo.

Dagoberto Feliz comandará a encenação de "Fragmentos da Vida"

O filme "Fragmentos da Vida", de 1929 e dirigido por José Medina, é uma película brasileira muda e com ela o diretor Dagoberto Feliz ("O Que Se Move"), nos dias 17, 18 e 19 de março (de sexta a domingo), fará a posposta de um experimento cênico: em uma espécie de jogo cênico, os atores dizem o texto que é exibido nos letreiros, e um deles - surdo - interpreta as mesmas cenas em LIBRAS. Cantores, piano ao vivo e sonoplastias incorporam-se às cenas, revivendo a sonorização características das projeções de cinema mudo do começo do século XX.

Dagoberto explica que a escolha desse filme, que conta a história de dois sujeitos que sobrevivem em fazer golpes, se deu pois a partir dele "existe um tema, o som; também uma sequência de temas do projeto, interpretação e roteiro; e uma provocação: fazer o som ao vivo. Porém, ‘escutando’, esse verbo pode ser utilizado de várias maneiras; e ‘re/escutando’ os tempos bicudos nos quais vivemos surgem outros temas que o filme também ‘escuta’, lá em 1929. Entre eles, dois nos interessaram: a desigualdade (explícita) e a inadequação (do indivíduo inapto). O homem totalmente inserido é o que se deseja; o homem amansado, aquele que cumpre rigorosamente com suas obrigações. Essa busca era, e continua sendo, cruel até hoje. E cruel é o tratamento dado ao que é diferente de nós”.

O música DJ Dolores, que fará um workshop em "Cinema Falado"

E para encerrar, o experiente compositor para cinema DJ Dolores ("Tatuagem" e "O Som ao Redor") realiza uma conversa com o público acerca do conceito de música cinematográfica, filmes que o influenciaram, soluções criativas na combinação entre imagem e som, a relação compositor/diretor/roteirista e, ainda, reserva momentos do workshop para falar do seu próprio trabalho. Isso acontecerá nos dias 23 e 24 de março (quinta e sexta), às 19 horas.

Para os realizadores do evento, "Cinema Falado" é um "convite à reflexão sobre a fala no cinema, desde a escrita do roteiro, passando pelas escolhas da direção, culminando no trabalho do ator e incluindo até mesmo os desdobramentos políticos da fala enquanto construção narrativa e representação do outro.As inscrições são feitas separadamente para cada evento e podem ser realizadas na Central de Atendimento do Sesc Pompeia e online. Para mais informações e consulta de preços das inscrições, acesse o site do Sesc.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Federico Fellini foi um dos diretores que melhor incorporou a "carnavalização"




O diretor italiano comandando sua orquestra.

O filósofo russo Mikhail Bakhtin, um dos fundadores da semiótica, falecido em 1975 aos 80 anos, formulou o conceito de “carnavalização”, como parte de uma teoria geral do humor. 
Para ele, o carnaval representa um conjunto de manifestações da cultura popular medieval, além de um princípio para a compreensão de mundo que, ao ser transportado para obras literárias, chama-se “carnavalização da literatura”. De modo simplificado, ela se manifesta pela inversão das formas consagradas. Quando essa atitude é passada para o cinema, o primeiro cineasta a ser lembrado é Federico Fellini.

O filme de Fellini em que melhor se percebe essa postura de inversão é “Satyricon”, realizado em 1969. Ambientado na Roma no tempo de Nero, o roteiro se inspira no texto do cronista Petrônio, que vivia naquela época e frequentava a corte do imperador. 

O protagonista é o jovem Encólpio, que lamenta a perda de seu amante Gitone para o seu amigo Ascilto. A carnavalização felliniana se manifesta na própria forma do filme que se mostrava erótico, extravagante e escandaloso, enquanto a corrente dominante do cinema focalizava as mais sérias questões políticas e existenciais. 


“Satyricon de Fellini” se encontra numa caixa junto com outros três títulos do diretor. Numa linha estética semelhante, temos “Roma de Fellini”, de 1972, que pode ser definido como um filme-ensaio sobre a própria memória do cineasta. Por meio de lembranças ficcionadas da sua juventude, e de algumas cenas da cidade no tempo em que o filme foi rodado, Federico reconstrói a Roma da sua imaginação. 

Parte de "Roma de Fellini", de 1972

Em seu último filme, “A Voz da Lua”, de 1990, o cineasta retorna àquela mesma atmosfera onírica e poética. O filme é armado pelos devaneios de um lunático, interpretado pelo cômico Roberto Benigni que, mais tarde, seria premiado com o Oscar por “A Vida é Bela”. 

E finalmente a caixa se completa com o documentário “Ciao Federico”, de 1970, filmado nos bastidores da produção de "Satyricon", com a participação de Giulietta Massina, Capuccine e do próprio Federico. Isso e mais uma hora de entrevistas e depoimentos na coleção da Versátil com o título de “A Arte de Federico Fellini”.

Filmes dos Irmãos Marx são diversão garantida para as platéias.

Quarteto era composto por Groucho, Harpo, Chico e Zeppo.

Para alegrar o carnaval dos cinéfilos, sugerimos DVDs com os cinco primeiros filmes dos Irmãos Marx, esse o mais completo e competente time de humoristas da história do cinema americano. Essa coleção da Universal inclui "No Hotel da Fuzarca", "Os Galhofeiros", "Os Quatro Batutas", "Os Gênios da Pelota e Diabo a Quatro"
Groucho, Chico e Harpo já estavam numa outra caixa da Warner, também disponível no Brasil, e contendo outras seis comédias insuperáveis: A Grande Loja, No Tempo da Onça, Um Dia nas Corridas, Os Irmãos Marx no Circo, Uma Noite em Casablanca e Uma Noite na ÓperaEstes últimos são espetáculos musicais de produção requintada.
O que marca o trabalho dos Irmãos Marx é a coordenação de três diferentes estilos de comicidade. Em primeiro lugar, o humor verbal e anárquico de Groucho, famoso por frases de efeito, como “não frequento clubes que me aceitem como sócio”. Depois, as piadas visuais criadas pelo Harpo, que jamais falava, e cujas gags partiam para o absurdo. E, finalmente, o Chico. 

Além de fazer o tipo do imigrante italiano que nunca conseguia se expressar em inglês corretamente, em todos os filmes, ele costumava apresentar um número de humor musical, tocando piano de um modo caricato e muito engraçado. Os Irmãos Marx
 significam diversão garantida.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Chanchada "Tudo Azul" traz consigo homenagem ao carnaval e crítica social


Letreiro do filme de Moacyr Fenelon
Quando se pensa em juntar filmes e carnaval, a associação mais imediata são as comédias carnavalescas que dominavam o nosso cinema entre os anos de 1940 e 1960. 
Esse tipo de espetáculo conhecido como “chanchada”, entretanto, começou a perder força com o advento da televisão. Mas algumas obras primas do gênero podem ser vistas em DVD ou no Youtube. Entre elas, o magnífico “Tudo Azul” dirigido por Moacyr Fenelon, com roteiro de Henrique Pongetti, em 1952.

Era uma comédia abertamente crítica e social, como se percebe em seu carro chefe “Lata d’agua na cabeça”, uma marchinha de Jota Junior. Enquanto Marlene cantava, a imagem mostrava lavadeiras reais, filmadas de verdade, numa favela de morro.


Cena do musical "Tudo Azul"

O lado especificamente satírico e político de “Tudo Azul”, porém, aparece em outros números musicais do filme, como é caso do célebre Maria Candelária, cantada pelo saudoso Blecaute. 

O filme traz outras marchinhas que impressionam pela temática social, como por exemplo “O Apanhador de Papel”, lançada pelo grupo Quatro Ases e um Coringa. A imagem mostra moradores de rua apanhando restos de papel para reciclar, enquanto pessoas bem vestidas saem alegremente dos bares restaurantes.


Com um elenco repleto de estrelas da década de 1950, ou seja, Virgínia Lane, Luiz Delfino, Linda Batista, Dalva de Oliveira, Jorge Goulart e a participação especial da Escola de Samba Império Serrano. O filme "Tudo Azul", voltou em 2002 em cópia restaurada, quando foi relançado pelo SESC.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Marcelo Gomes faz um encantador trabalho em "Cinema, Aspirinas e Urubus"


João Miguel (esquerda) e Peter Ketnath (direita) protagonizam o longa

Hoje vamos voltar uns 12 anos no tempo e relembrar um belo filme para ser revisitado em DVD ou na TV a cabo. É “Cinema, Aspirinas e Urubus”.A direção era de Marcelo Gomes e, no elenco estavam Peter Ketnath, João Miguel e Hermila Guedes.
Em plena 2ª Guerra, o sertanejo nordestino Ranulpho segue em busca de vida melhor no Rio de Janeiro. Nesse caminho, porém, ele encontra um aventureiro alemão que, numa direção oposta, foge da guerra na Europa e pretende se embrenhar cada vez mais pelo sertão nordestino. O estrangeiro sai do Rio de Janeiro e se dirige ao Nordeste do Brasil num caminhão carregado de frascos de aspirina e de filmes para a divulgação desse produto, que ainda não era conhecido entre nos.

Desse encontro, resulta uma amizade quase impossível, que permite ao então estreante diretor pernambucano Marcelo Gomes desenvolver um curioso ensaio sobre o confronto e a atração entre duas culturas diferentes. Ou seja, traz um olhar completamente novo sobre o processo de integração do Brasil arcaico à moderna civilização ocidental que, no filme, é simbolizada pelo rádio, pelo cinema, pelo motor a gasolina e pela indústria farmacêutica.

O rádio do caminhão transmite os sucessos da Rádio Nacional, enquanto um projetor portátil exibe filmes de propaganda – esse é o saboroso lado documental do filme. No Festival do Rio de Janeiro de 2004, Cinema, Aspirinas e Urubus, ganhou o Prêmio Especial do Júri, além do prêmio de Melhor Ator para João Miguel, que interpreta o sertanejo Ranulpho. Na 29ª Mostra Internacional de Cinema SP, o ator repetiu a façanha e o filme foi a primeira produção brasileira a receber o prêmio de Melhor Filme da Mostra.


Filme tem o sertão de Pernambuco como cenário

Essa impressionante série de troféus começou no Festival de Cannes, em que recebeu o Prêmio da Educação Nacional, concedido pelo Ministério de Educação da França. Caberia, então, perguntar se esta é uma peça educativa. De modo geral, qualquer filme é capaz de educar, desde que apresente qualidade artística. Mas este trabalho de Marcelo Gomes é um curioso exemplo de ensaio histórico e sociológico sobre o Brasil dos anos de 1940.

A história se passa em 1942, no interior de Pernambuco, onde se cruzam um sertanejo que foge da seca e um alemão que foge da guerra, vendendo aspirina pelo sertão. Só que além dessas figuras centrais, “Cinema, Aspirinas e Urubus” quase atribui status de personagem a determinados meios de comunicação que promoveram a inserção do Brasil no mundo contemporâneo, ou seja, o cinema e o rádio.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

"Capital Humano" discorre sobre política e sociedade com primazia


Valeria Bruni Tedeschi tem ótima presença neste longa

Na situação de conflito generalizado que caracteriza a presente situação política e social brasileira, é o momento de rever o drama italiano "Capital Humano", dirigido pelo prestigiado Paolo Virzì. No ano passado, o filme conquistou cerca de 40 prêmios internacionais, entre eles um dos mais cobiçados da Itália que é o “David de Donatello”, concedido pela Academia Italiana de Cinema.
“Capital Humano” fala das transformações na sociedade italiana atual, especificamente no que se refere às dramáticas flutuações no mercado de capitais, ocorridas por volta de 2013 quando o filme foi produzido. Apesar da presença do astro popular Fabrizio Bentivoglio, as participações mais marcantes são as de Valeria Golino e de Valeria Bruni Tedeschi.

De certa forma, o personagem de Bentivoglio é o oposto daquele interpretado por Leonardo Di Caprio em “O Lobo de Wall Street” – por coincidência, produzido naquele mesmo ano. Quase um fanfarrão, entusiasmado ao ver gente enriquecendo com facilidade, ele é um corretor de imóveis que se ilude com ações da bolsa que lhe parecem ser uma espécie de bilhete premiado. Mas esse é apenas o pano de fundo de uma trama que gira em torno de um acidente automobilístico, tal como foi vivenciado por três personagens diferentes.

O elenco do filme em foto para divulgação de "Capital Humano"

Ainda que fascinante, a organização do roteiro é complexa e, exige atenção absoluta do expectador.As três versões de um mesmo fato são apresentadas sob a forma de capítulos, com o apoio de um longo flashback. Essa é uma técnica narrativa cuja invenção é tradicionalmente atribuída a Akira Kurosawa a partir de seu drama “Rashomon”, vencedor do Oscar em 1950, em que um assassinato é descrito de modos diversos por três testemunhas.

Essa estrutura caminha na contramão da dramaturgia cinematográfica mais usual, porque os acontecimentos se desenvolvem sem que as informações básicas sobre o enredo tenham sido fornecidas. Acontece um acidente, um ciclista é atropelado e o motorista foge da cena. Mas o responsável pelo crime permanecerá desconhecido durante todo o filme, embora tenha fundamental importância no desenrolar dos acontecimentos.

O roteiro se baseia num livro escrito por Stephen Amidon (1959) – um autor americano que trabalha na Inglaterra como crítico literário. A direção é de Paolo Virzì, um cineasta toscano que, aos 52 anos alcança um crescente prestígio em seu país.

O filme “Capital Humano” explora a corrupção dos negócios na vida social e a progressiva redução da existência a um conjunto de cifras financeiras. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Park Chan Wook volta às telas com mais uma obra prima: "A Criada"


Kim Min-hee (à direita) e Kim Tae-ri (esquerda) vivem aristocrata e criada

Em 2003, o jovem diretor sul coreano Park Chan Wook tornou-se uma celebridade mundial com o filme “OldBoy”. Ele tinha apenas 40 anos e mostrou ao mundo a força do cinema que se fazia naquele cantinho do planeta. Formado em filosofia, paradoxalmente ele desenvolveu um estilo marcado pela violência física e moral.
Apesar de ter uma clara ligação com a clássica história de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, o roteiro de “OldBoy” se baseava num mangá, ou seja uma HQ japonesa de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minedishi. Na verdade, trata-se de uma narrativa de alcance internacional, tanto assim que foi refilmada pelo cinema americano, com direção de Spike Lee.

No último Festival de Cannes, seu filme mais recente “A Criada” concorreu à Palma de Ouro, mas ganhou o prêmio de Direção de Arte, além de outros 44 troféus internacionais – além de melhor filme pelo público da Mostra de Cinema de SP. De fato, tanto o diretor quanto “A Criada” parecem reiterar as suas raízes internacionais. O roteiro se baseia numa novela escrita no País de Gales por Sarah Waters e é ambientada na Coreia em 1930, durante o período em que aquele país era dominado pelo Japão.

A dualidade cultural é enfatizada pela cenografia porque tudo se passa na mansão de um milionário coreano obcecado pela Inglaterra e pelo Japão. Por isso o palácio tem duas partes: uma de arquitetura britânica e outra de estilo Japonês. O filme também se acha dividido em duas partes, seguidas de uma terceira que funciona como epílogo. Na primeira, a história é narrada por Sook-he, uma jovem órfã que vive com um grupo de ladrões e vigaristas e se torna criada de Hideko. Ou seja, assistimos à trama tal como é vivenciada por essa personagem.



A criada, vivida por Kim Tae-ri

A exemplo do clássico “Rashomon”, de Kurosawa, na segunda metade quase não há narração, e tudo o que foi visto na primeira é mostrado novamente, tal como de fato teria acontecido. Ou seja, como foi presenciado pela dona da mansão: uma jovem japonesa chamada Hideko. Apesar de ser uma abastada proprietária, toda a sua fortuna é controlada por um tio, pervertido e autoritário. O drama tem início quando um farsante que se apresenta como o Conde Fujiwara contrata a jovem Sook-he para com ele executar um plano mirabolante.

A criada deveria ajudar o falso conde a seduzir a herdeira e casar-se com ela. Em seguida o casal fugiria do país e o farsante prenderia a herdeira num hospício para se apossar de sua fortuna. As duas partes em que se divide o filme, aliás, servem justamente para nos mostrar que as coisas não acontecem exatamente como o planejado, em mais esta obra prima de Park Chan Wook.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mostra Tiradentes tem documentários e maior espaço para as mulheres como destaque


Mostra cujo nome homenageia sua cidade sede chega à vigésima edição

Entre os dias 20 e 28 de janeiro, na cidade histórica mineira, acontece a 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que neste ano conta com a exibição de 33 longas-metragens. Os realizadores presentes no Festival representam o cinema de 10 estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Paraná, Maranhão, Espírito Santo, Distrito Federal e Goiás). Como tem acontecido nos últimos anos, o Programa Cinema Falado estará presente, para transmitir as novidades desse evento.

Entre títulos em lançamento e pré-estreias, a seleção de 2017 traz um grande número de documentários sobre personalidades da cultura nacional. A marca que identifica a Mostra de Cinema de Tiradentes consiste em obras inovadoras e criativas, que não se prendem às exigências do mercado. A abertura vai acontecer no dia 20, com “Divinas Divas”, dirigido pela atriz Leandra Leal.

Neste ano de 2017, a propósito, a quantidade de filmes dirigidos por mulheres é impressionante. Dos 157 longas inscritos para a Mostra, 33 tinham mulheres na direção, ou seja, 21% do total. Trata-se da maior proporção em duas décadas. Dos 29 títulos novos selecionados, 12 são de realizadoras, ou seja, 41% dos selecionados, o que é uma novidade no evento.

A atriz e diretora Helena Ignez é uma das homenageadas da mostra

Em 2017 também aumenta o número de filmes totalmente inéditos. Dos 33 longas programados, 29 são títulos recentes (os outros quatro se referem a trabalhos das personalidades homenageadas Helena Ignez e Leandra Leal). Desse total, 14 terão sua primeira exibição durante o evento – o que é mais do que acontece em diversos festivais competitivos ao no país. Esse dado confirma a maturidade de Tiradentes ao atingir os 20 anos de existência.


Um dos aspectos a serem destacados nesta edição da Mostra em Tiradentes é a força dos documentários. Chamamos atenção para "Guarnieri", de Francisco Guarnieri, que recupera a vida e obra do ator e dramaturgo Giafrancesco Guarnieri. "O Jabuti e a Anta", de Eliza Capai, "O Que nos Olha", de Ana Johann. E "Guerra do Paraguay", do veterano Luiz Rosemberg Filho.

O Cinema Falado vai informar em detalhes o que de mais interessante para o cinéfilo acontece nesta 20ª edição da Mostra de Tiradentes.