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domingo, 26 de março de 2017

"Conspiração e Poder" questiona: vale mais a ética ou as conveniências do poder?



Robert Redford e Cate Blanchett compõem o elenco do filme "jornalístico-político"

O título original do filme “Conspiração e Poder” é “Truth”, ou seja, “Verdade”. Porque afinal é disso de que ele trata. Tudo se passa nos bastidores do departamento de jornalismo da CBS, ou seja, da Columbia Broadcast System. Ao lado da NBC e da ABC, a CBS é uma das três maiores redes norte americanas de rádio e TV. Imagine-se o poder que essa corporação detém no dia a dia dos EUA, ao exercer o oficio de descobrir e de revelar aquilo que se chama de “verdade”. Neste filme em que Robert Redford faz o papel do âncora Dan Rather, veremos o que pode acontecer quando essa empresa colide com os interesses da Casa Branca.
Os jornalistas descobriram que o presidente tinha evitado os combates durante o seu serviço militar no Vietnã. Isso seria uma mancha na carreira de George Bush que acontecera 40 anos antes dele se candidatar à reeleição em 2004. Para desviar o foco do noticiário sobre o assunto, o governo agiu para desacreditar os documentos, e assim, evitar a discussão se o futuro presidente fugiu ou não fugiu dos combates. Aqui no Brasil, aliás, a gente já viu esse truque em plena execução... 

Este é o primeiro filme dirigido pelo jovem roteirista James Vanderbilt que escreveu os filmes recentes do Homem-Aranha e adquiriu celebridade imediata em 2007, ao redigir o roteiro de “Zodíaco”, um excelente drama de suspense em torno de um espinhoso caso de jornalismo policial. Seguindo a linha daquele filme estrelado por Jake Gylenhall, Robert Downey Jr.
 e Mark Ruffalo, temos agora a competente Cate Blanchet no papel de Mary Mates, a produtora do programa “60 Minutos” apresentado por Dan Rather na CBS até 2005 e também autora do livro que deu origem ao roteiro.


Cate Blnachett está glorificante no papel principal

Todos sabemos que, em 1938, quando ainda era apenas radialista, o cineasta Orson Welles lançou uma adaptação radiofônica do livro de ficção científica “A Guerra dos Mundos”. A história foi contada pelo rádio como se fosse uma reportagem e muita gente entrou em pânico. Essa mentira, esse fingimento teve um sucesso tão retumbante que levou Welles para Hollywood. Mas aquele projeto estava fundamentado numa farsa e, até hoje, representa um problema de natureza ética. Isto é, o que viria em primeiro lugar... a verdade sobre o fato ou as conveniências do poder e das empresas de comunicação? Ou, colocando de outro modo, prevaleceria o título brasileiro “Conspiração e Poder”, ou o americano, que é simplesmente “Verdade”. 

segunda-feira, 20 de março de 2017

"Conspiração e Poder" fala da manipulação em prol dos poderosos na comunicação de massa


Cate Blanchet brilha como protagonista do longa.

O ponto central do filme “Conspiração e Poder” é um conjunto de documentos que foram considerados falsos, mesmo referentes a um fato bem real. O tema é uma farsa que o jovem George Bush teria praticado na época em que cumpria o serviço militar. E que, portanto envolve matéria à qual o povo americano é especialmente sensível. Trata-se de um vibrante docudrama protagonizado por Robert Redford, que desde “Leões e Cordeiros” de 2007 tem feito obras de conteúdo político.
Durante a Guerra do Vietnam, sabia-se que alguns jovens da elite usaram as suas conexões sociais para evitar o combate nas frentes de batalha. Apesar de ter obtido uma espécie de certificado de alguns oficiais, na verdade o jovem Bush não esteve presente no período e no local onde deveria servir, de 1961 a 1964. O avô dele era Senador e o pai foi o mais jovem piloto da marinha, tendo lutado durante toda a 2ª Guerra. Aos 40 anos Bush Pai tornou-se milionário e deu início à carreira de político como deputado. Foi vice-presidente entre 1981 e 1993. Mas entre 1961 e 1964 o Bush Filho era um "filhinho de papai". 

Em 2004, os jornalistas da CBS levantaram toda aquela história às vésperas da eleição presidencial, no final do primeiro mandato de George Bush - àquela altura, cheio de poder e prestígio. Essa reportagem se apoiava em memorandos assinados por um Coronel Killian, que continham referência ao fato, e no testemunho de outro oficial reformado. A reportagem foi ao ar no programa “60 minutes” no dia 08 de setembro, e naturalmente enfureceu o poder constituído. 

Robert Redford interpretra o âncora Dan Rather

No entanto, o governo conseguiu provar que os chamados “Documentos de Killian” eram falsos – simplesmente porque foram datilografados num computador e não numa máquina de escrever fabricada nos anos de 1960. Foi o suficiente para desacreditar os testemunhos e arruinar a carreira do ancora Dan Rather e toda a sua equipe. Na semana seguinte, os jornalistas foram obrigados a se retratar e a pedir desculpas ao vivo pela CBS. Abrindo um parêntese, hoje se acredita que alguém deve ter redigitado os documentos num computador e queimado os originais. 

Em outras palavras, 
para não ter que discutir se Bush cabulou ou não o serviço militar, conforme os testemunhos, preferiu-se lançar dúvidas sobre os documentos. Assim como se faz ainda hoje, por exemplo... para esfumaçar o conteúdo de um telefonema, questiona-se a legalidade da sua divulgação. Depois de 43 anos de trabalho, Dan Rather saiu da CBS e processou a empresa, por tê-lo usado como “bode expiatório” no conflito com a presidência da república. Agora com 85 anos, ele continua combatendo a influência dos governos e das corporações no jornalismo. Amanhã continuamos o nosso comentário sobre este magnífico “Conspiração e Poder”. Até lá.

segunda-feira, 6 de março de 2017

"Cinema Falado": Sesc Pompeia realiza uma sequência de atividades sobre cinema


Imagem do Sesc Pompeia, onde ocorrerão os eventos de "Cinema Falado"

Dos dias 8 a 24 de março o Sesc Pompeia realizará um ciclo de atividades e experiências sobre cinema. Na verdade, o evento "Cinema Falado" se define da seguinte forma:  uma investigação sobre a fala, enquanto discurso fílmico, a voz e o roteiro no cinema. O nome é só uma coincidência com o do blog, mas vale dar destaque a programação desse conjunto de workshops, experimentos cênicos e cursos.

Nos dias 8 e 9 de março (quarta e quinta), às 22h, Suzana Reck Miranda (mestre e doutora em Cinema) ministra o minicurso "O uso da música no cinema: uma introdução", que trata da trilha musical desde os primórdios da sétima arte até propostas estéticas do cinema moderno e contemporâneo.

Dagoberto Feliz comandará a encenação de "Fragmentos da Vida"

O filme "Fragmentos da Vida", de 1929 e dirigido por José Medina, é uma película brasileira muda e com ela o diretor Dagoberto Feliz ("O Que Se Move"), nos dias 17, 18 e 19 de março (de sexta a domingo), fará a posposta de um experimento cênico: em uma espécie de jogo cênico, os atores dizem o texto que é exibido nos letreiros, e um deles - surdo - interpreta as mesmas cenas em LIBRAS. Cantores, piano ao vivo e sonoplastias incorporam-se às cenas, revivendo a sonorização características das projeções de cinema mudo do começo do século XX.

Dagoberto explica que a escolha desse filme, que conta a história de dois sujeitos que sobrevivem em fazer golpes, se deu pois a partir dele "existe um tema, o som; também uma sequência de temas do projeto, interpretação e roteiro; e uma provocação: fazer o som ao vivo. Porém, ‘escutando’, esse verbo pode ser utilizado de várias maneiras; e ‘re/escutando’ os tempos bicudos nos quais vivemos surgem outros temas que o filme também ‘escuta’, lá em 1929. Entre eles, dois nos interessaram: a desigualdade (explícita) e a inadequação (do indivíduo inapto). O homem totalmente inserido é o que se deseja; o homem amansado, aquele que cumpre rigorosamente com suas obrigações. Essa busca era, e continua sendo, cruel até hoje. E cruel é o tratamento dado ao que é diferente de nós”.

O música DJ Dolores, que fará um workshop em "Cinema Falado"

E para encerrar, o experiente compositor para cinema DJ Dolores ("Tatuagem" e "O Som ao Redor") realiza uma conversa com o público acerca do conceito de música cinematográfica, filmes que o influenciaram, soluções criativas na combinação entre imagem e som, a relação compositor/diretor/roteirista e, ainda, reserva momentos do workshop para falar do seu próprio trabalho. Isso acontecerá nos dias 23 e 24 de março (quinta e sexta), às 19 horas.

Para os realizadores do evento, "Cinema Falado" é um "convite à reflexão sobre a fala no cinema, desde a escrita do roteiro, passando pelas escolhas da direção, culminando no trabalho do ator e incluindo até mesmo os desdobramentos políticos da fala enquanto construção narrativa e representação do outro.As inscrições são feitas separadamente para cada evento e podem ser realizadas na Central de Atendimento do Sesc Pompeia e online. Para mais informações e consulta de preços das inscrições, acesse o site do Sesc.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

Federico Fellini foi um dos diretores que melhor incorporou a "carnavalização"




O diretor italiano comandando sua orquestra.

O filósofo russo Mikhail Bakhtin, um dos fundadores da semiótica, falecido em 1975 aos 80 anos, formulou o conceito de “carnavalização”, como parte de uma teoria geral do humor. 
Para ele, o carnaval representa um conjunto de manifestações da cultura popular medieval, além de um princípio para a compreensão de mundo que, ao ser transportado para obras literárias, chama-se “carnavalização da literatura”. De modo simplificado, ela se manifesta pela inversão das formas consagradas. Quando essa atitude é passada para o cinema, o primeiro cineasta a ser lembrado é Federico Fellini.

O filme de Fellini em que melhor se percebe essa postura de inversão é “Satyricon”, realizado em 1969. Ambientado na Roma no tempo de Nero, o roteiro se inspira no texto do cronista Petrônio, que vivia naquela época e frequentava a corte do imperador. 

O protagonista é o jovem Encólpio, que lamenta a perda de seu amante Gitone para o seu amigo Ascilto. A carnavalização felliniana se manifesta na própria forma do filme que se mostrava erótico, extravagante e escandaloso, enquanto a corrente dominante do cinema focalizava as mais sérias questões políticas e existenciais. 


“Satyricon de Fellini” se encontra numa caixa junto com outros três títulos do diretor. Numa linha estética semelhante, temos “Roma de Fellini”, de 1972, que pode ser definido como um filme-ensaio sobre a própria memória do cineasta. Por meio de lembranças ficcionadas da sua juventude, e de algumas cenas da cidade no tempo em que o filme foi rodado, Federico reconstrói a Roma da sua imaginação. 

Parte de "Roma de Fellini", de 1972

Em seu último filme, “A Voz da Lua”, de 1990, o cineasta retorna àquela mesma atmosfera onírica e poética. O filme é armado pelos devaneios de um lunático, interpretado pelo cômico Roberto Benigni que, mais tarde, seria premiado com o Oscar por “A Vida é Bela”. 

E finalmente a caixa se completa com o documentário “Ciao Federico”, de 1970, filmado nos bastidores da produção de "Satyricon", com a participação de Giulietta Massina, Capuccine e do próprio Federico. Isso e mais uma hora de entrevistas e depoimentos na coleção da Versátil com o título de “A Arte de Federico Fellini”.

Filmes dos Irmãos Marx são diversão garantida para as platéias.

Quarteto era composto por Groucho, Harpo, Chico e Zeppo.

Para alegrar o carnaval dos cinéfilos, sugerimos DVDs com os cinco primeiros filmes dos Irmãos Marx, esse o mais completo e competente time de humoristas da história do cinema americano. Essa coleção da Universal inclui "No Hotel da Fuzarca", "Os Galhofeiros", "Os Quatro Batutas", "Os Gênios da Pelota e Diabo a Quatro"
Groucho, Chico e Harpo já estavam numa outra caixa da Warner, também disponível no Brasil, e contendo outras seis comédias insuperáveis: A Grande Loja, No Tempo da Onça, Um Dia nas Corridas, Os Irmãos Marx no Circo, Uma Noite em Casablanca e Uma Noite na ÓperaEstes últimos são espetáculos musicais de produção requintada.
O que marca o trabalho dos Irmãos Marx é a coordenação de três diferentes estilos de comicidade. Em primeiro lugar, o humor verbal e anárquico de Groucho, famoso por frases de efeito, como “não frequento clubes que me aceitem como sócio”. Depois, as piadas visuais criadas pelo Harpo, que jamais falava, e cujas gags partiam para o absurdo. E, finalmente, o Chico. 

Além de fazer o tipo do imigrante italiano que nunca conseguia se expressar em inglês corretamente, em todos os filmes, ele costumava apresentar um número de humor musical, tocando piano de um modo caricato e muito engraçado. Os Irmãos Marx
 significam diversão garantida.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

Chanchada "Tudo Azul" traz consigo homenagem ao carnaval e crítica social


Letreiro do filme de Moacyr Fenelon
Quando se pensa em juntar filmes e carnaval, a associação mais imediata são as comédias carnavalescas que dominavam o nosso cinema entre os anos de 1940 e 1960. 
Esse tipo de espetáculo conhecido como “chanchada”, entretanto, começou a perder força com o advento da televisão. Mas algumas obras primas do gênero podem ser vistas em DVD ou no Youtube. Entre elas, o magnífico “Tudo Azul” dirigido por Moacyr Fenelon, com roteiro de Henrique Pongetti, em 1952.

Era uma comédia abertamente crítica e social, como se percebe em seu carro chefe “Lata d’agua na cabeça”, uma marchinha de Jota Junior. Enquanto Marlene cantava, a imagem mostrava lavadeiras reais, filmadas de verdade, numa favela de morro.


Cena do musical "Tudo Azul"

O lado especificamente satírico e político de “Tudo Azul”, porém, aparece em outros números musicais do filme, como é caso do célebre Maria Candelária, cantada pelo saudoso Blecaute. 

O filme traz outras marchinhas que impressionam pela temática social, como por exemplo “O Apanhador de Papel”, lançada pelo grupo Quatro Ases e um Coringa. A imagem mostra moradores de rua apanhando restos de papel para reciclar, enquanto pessoas bem vestidas saem alegremente dos bares restaurantes.


Com um elenco repleto de estrelas da década de 1950, ou seja, Virgínia Lane, Luiz Delfino, Linda Batista, Dalva de Oliveira, Jorge Goulart e a participação especial da Escola de Samba Império Serrano. O filme "Tudo Azul", voltou em 2002 em cópia restaurada, quando foi relançado pelo SESC.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Marcelo Gomes faz um encantador trabalho em "Cinema, Aspirinas e Urubus"


João Miguel (esquerda) e Peter Ketnath (direita) protagonizam o longa

Hoje vamos voltar uns 12 anos no tempo e relembrar um belo filme para ser revisitado em DVD ou na TV a cabo. É “Cinema, Aspirinas e Urubus”.A direção era de Marcelo Gomes e, no elenco estavam Peter Ketnath, João Miguel e Hermila Guedes.
Em plena 2ª Guerra, o sertanejo nordestino Ranulpho segue em busca de vida melhor no Rio de Janeiro. Nesse caminho, porém, ele encontra um aventureiro alemão que, numa direção oposta, foge da guerra na Europa e pretende se embrenhar cada vez mais pelo sertão nordestino. O estrangeiro sai do Rio de Janeiro e se dirige ao Nordeste do Brasil num caminhão carregado de frascos de aspirina e de filmes para a divulgação desse produto, que ainda não era conhecido entre nos.

Desse encontro, resulta uma amizade quase impossível, que permite ao então estreante diretor pernambucano Marcelo Gomes desenvolver um curioso ensaio sobre o confronto e a atração entre duas culturas diferentes. Ou seja, traz um olhar completamente novo sobre o processo de integração do Brasil arcaico à moderna civilização ocidental que, no filme, é simbolizada pelo rádio, pelo cinema, pelo motor a gasolina e pela indústria farmacêutica.

O rádio do caminhão transmite os sucessos da Rádio Nacional, enquanto um projetor portátil exibe filmes de propaganda – esse é o saboroso lado documental do filme. No Festival do Rio de Janeiro de 2004, Cinema, Aspirinas e Urubus, ganhou o Prêmio Especial do Júri, além do prêmio de Melhor Ator para João Miguel, que interpreta o sertanejo Ranulpho. Na 29ª Mostra Internacional de Cinema SP, o ator repetiu a façanha e o filme foi a primeira produção brasileira a receber o prêmio de Melhor Filme da Mostra.


Filme tem o sertão de Pernambuco como cenário

Essa impressionante série de troféus começou no Festival de Cannes, em que recebeu o Prêmio da Educação Nacional, concedido pelo Ministério de Educação da França. Caberia, então, perguntar se esta é uma peça educativa. De modo geral, qualquer filme é capaz de educar, desde que apresente qualidade artística. Mas este trabalho de Marcelo Gomes é um curioso exemplo de ensaio histórico e sociológico sobre o Brasil dos anos de 1940.

A história se passa em 1942, no interior de Pernambuco, onde se cruzam um sertanejo que foge da seca e um alemão que foge da guerra, vendendo aspirina pelo sertão. Só que além dessas figuras centrais, “Cinema, Aspirinas e Urubus” quase atribui status de personagem a determinados meios de comunicação que promoveram a inserção do Brasil no mundo contemporâneo, ou seja, o cinema e o rádio.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

"Capital Humano" discorre sobre política e sociedade com primazia


Valeria Bruni Tedeschi tem ótima presença neste longa

Na situação de conflito generalizado que caracteriza a presente situação política e social brasileira, é o momento de rever o drama italiano "Capital Humano", dirigido pelo prestigiado Paolo Virzì. No ano passado, o filme conquistou cerca de 40 prêmios internacionais, entre eles um dos mais cobiçados da Itália que é o “David de Donatello”, concedido pela Academia Italiana de Cinema.
“Capital Humano” fala das transformações na sociedade italiana atual, especificamente no que se refere às dramáticas flutuações no mercado de capitais, ocorridas por volta de 2013 quando o filme foi produzido. Apesar da presença do astro popular Fabrizio Bentivoglio, as participações mais marcantes são as de Valeria Golino e de Valeria Bruni Tedeschi.

De certa forma, o personagem de Bentivoglio é o oposto daquele interpretado por Leonardo Di Caprio em “O Lobo de Wall Street” – por coincidência, produzido naquele mesmo ano. Quase um fanfarrão, entusiasmado ao ver gente enriquecendo com facilidade, ele é um corretor de imóveis que se ilude com ações da bolsa que lhe parecem ser uma espécie de bilhete premiado. Mas esse é apenas o pano de fundo de uma trama que gira em torno de um acidente automobilístico, tal como foi vivenciado por três personagens diferentes.

O elenco do filme em foto para divulgação de "Capital Humano"

Ainda que fascinante, a organização do roteiro é complexa e, exige atenção absoluta do expectador.As três versões de um mesmo fato são apresentadas sob a forma de capítulos, com o apoio de um longo flashback. Essa é uma técnica narrativa cuja invenção é tradicionalmente atribuída a Akira Kurosawa a partir de seu drama “Rashomon”, vencedor do Oscar em 1950, em que um assassinato é descrito de modos diversos por três testemunhas.

Essa estrutura caminha na contramão da dramaturgia cinematográfica mais usual, porque os acontecimentos se desenvolvem sem que as informações básicas sobre o enredo tenham sido fornecidas. Acontece um acidente, um ciclista é atropelado e o motorista foge da cena. Mas o responsável pelo crime permanecerá desconhecido durante todo o filme, embora tenha fundamental importância no desenrolar dos acontecimentos.

O roteiro se baseia num livro escrito por Stephen Amidon (1959) – um autor americano que trabalha na Inglaterra como crítico literário. A direção é de Paolo Virzì, um cineasta toscano que, aos 52 anos alcança um crescente prestígio em seu país.

O filme “Capital Humano” explora a corrupção dos negócios na vida social e a progressiva redução da existência a um conjunto de cifras financeiras. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Park Chan Wook volta às telas com mais uma obra prima: "A Criada"


Kim Min-hee (à direita) e Kim Tae-ri (esquerda) vivem aristocrata e criada

Em 2003, o jovem diretor sul coreano Park Chan Wook tornou-se uma celebridade mundial com o filme “OldBoy”. Ele tinha apenas 40 anos e mostrou ao mundo a força do cinema que se fazia naquele cantinho do planeta. Formado em filosofia, paradoxalmente ele desenvolveu um estilo marcado pela violência física e moral.
Apesar de ter uma clara ligação com a clássica história de O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, o roteiro de “OldBoy” se baseava num mangá, ou seja uma HQ japonesa de Garon Tsuchiya e Nobuaki Minedishi. Na verdade, trata-se de uma narrativa de alcance internacional, tanto assim que foi refilmada pelo cinema americano, com direção de Spike Lee.

No último Festival de Cannes, seu filme mais recente “A Criada” concorreu à Palma de Ouro, mas ganhou o prêmio de Direção de Arte, além de outros 44 troféus internacionais – além de melhor filme pelo público da Mostra de Cinema de SP. De fato, tanto o diretor quanto “A Criada” parecem reiterar as suas raízes internacionais. O roteiro se baseia numa novela escrita no País de Gales por Sarah Waters e é ambientada na Coreia em 1930, durante o período em que aquele país era dominado pelo Japão.

A dualidade cultural é enfatizada pela cenografia porque tudo se passa na mansão de um milionário coreano obcecado pela Inglaterra e pelo Japão. Por isso o palácio tem duas partes: uma de arquitetura britânica e outra de estilo Japonês. O filme também se acha dividido em duas partes, seguidas de uma terceira que funciona como epílogo. Na primeira, a história é narrada por Sook-he, uma jovem órfã que vive com um grupo de ladrões e vigaristas e se torna criada de Hideko. Ou seja, assistimos à trama tal como é vivenciada por essa personagem.



A criada, vivida por Kim Tae-ri

A exemplo do clássico “Rashomon”, de Kurosawa, na segunda metade quase não há narração, e tudo o que foi visto na primeira é mostrado novamente, tal como de fato teria acontecido. Ou seja, como foi presenciado pela dona da mansão: uma jovem japonesa chamada Hideko. Apesar de ser uma abastada proprietária, toda a sua fortuna é controlada por um tio, pervertido e autoritário. O drama tem início quando um farsante que se apresenta como o Conde Fujiwara contrata a jovem Sook-he para com ele executar um plano mirabolante.

A criada deveria ajudar o falso conde a seduzir a herdeira e casar-se com ela. Em seguida o casal fugiria do país e o farsante prenderia a herdeira num hospício para se apossar de sua fortuna. As duas partes em que se divide o filme, aliás, servem justamente para nos mostrar que as coisas não acontecem exatamente como o planejado, em mais esta obra prima de Park Chan Wook.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mostra Tiradentes tem documentários e maior espaço para as mulheres como destaque


Mostra cujo nome homenageia sua cidade sede chega à vigésima edição

Entre os dias 20 e 28 de janeiro, na cidade histórica mineira, acontece a 20ª Mostra de Cinema de Tiradentes, que neste ano conta com a exibição de 33 longas-metragens. Os realizadores presentes no Festival representam o cinema de 10 estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará, Pernambuco, Paraná, Maranhão, Espírito Santo, Distrito Federal e Goiás). Como tem acontecido nos últimos anos, o Programa Cinema Falado estará presente, para transmitir as novidades desse evento.

Entre títulos em lançamento e pré-estreias, a seleção de 2017 traz um grande número de documentários sobre personalidades da cultura nacional. A marca que identifica a Mostra de Cinema de Tiradentes consiste em obras inovadoras e criativas, que não se prendem às exigências do mercado. A abertura vai acontecer no dia 20, com “Divinas Divas”, dirigido pela atriz Leandra Leal.

Neste ano de 2017, a propósito, a quantidade de filmes dirigidos por mulheres é impressionante. Dos 157 longas inscritos para a Mostra, 33 tinham mulheres na direção, ou seja, 21% do total. Trata-se da maior proporção em duas décadas. Dos 29 títulos novos selecionados, 12 são de realizadoras, ou seja, 41% dos selecionados, o que é uma novidade no evento.

A atriz e diretora Helena Ignez é uma das homenageadas da mostra

Em 2017 também aumenta o número de filmes totalmente inéditos. Dos 33 longas programados, 29 são títulos recentes (os outros quatro se referem a trabalhos das personalidades homenageadas Helena Ignez e Leandra Leal). Desse total, 14 terão sua primeira exibição durante o evento – o que é mais do que acontece em diversos festivais competitivos ao no país. Esse dado confirma a maturidade de Tiradentes ao atingir os 20 anos de existência.


Um dos aspectos a serem destacados nesta edição da Mostra em Tiradentes é a força dos documentários. Chamamos atenção para "Guarnieri", de Francisco Guarnieri, que recupera a vida e obra do ator e dramaturgo Giafrancesco Guarnieri. "O Jabuti e a Anta", de Eliza Capai, "O Que nos Olha", de Ana Johann. E "Guerra do Paraguay", do veterano Luiz Rosemberg Filho.

O Cinema Falado vai informar em detalhes o que de mais interessante para o cinéfilo acontece nesta 20ª edição da Mostra de Tiradentes.

Os filmes lançados no circuito comercial de SP na semana iniciada em 12 01 2017



"La La Land", que estreia essa semana, levou sete Globos de Ouro"


Em termos de filmes novos, a semana traz alguns atrativos potencialmente capazes de arrancar os espectadores das piscinas, dos lazeres campestres e até das praias. Isso significa que os cinemas oferecem filmes para as principais facções nas quais se divide o público de cinema.
Provavelmente o primeiro da fila, ou seja, aquele título que poderá provocar a formação de filas à porta das salas de cinema é “La La Land – Cantando Estações”, ganhador de 7 prêmios no Globo de Ouro, inclusive os de melhores filme, ator, atriz (todos na categoria comédia ou musical) e diretor.

O filme já colecionou outros 127 prêmios em festivais e associações de críticos. É escrito e dirigido por um jovem de 31 anos, chamado Damien Chazelle, que já aplaudimos em seu outro título de sucesso, que foi “
Whiplash: Em Busca da Perfeição”. Aliás, aquele outro trabalho deu o Oscar de melhor ator coadjuvante para JK Simmons.
Na essência, a história consiste num simples encontro de amor: ao chegar em Los Angeles o pianista de jazz Seb (Ryan Gosling) conhece a atriz iniciante Mia (Emma Stone) e os dois se apaixonam. Eles tentam se relacionar afetivamente, apesar da extrema competitividade da capital do cinema.

O filme tem charme e estatura para reeditar o sucesso de grandes clássicos musicais, como “Cantando na Chuva” (1952), “O Picolino” (1935), e “Um americano em Paris” (1951).
O diretor de “A Criada” é o sul coreano Park Chan-Wook, que se tornou mundialmente famoso pelo seu modo cru e expressivo de filmar no filme “OldBoy” – uma versão oriental da história do Conde de Monte Cristo, que aliás foi refilmada em Hollywood.

Em 1930, por ocasião do domínio japonês na Coreia do Sul, uma jovem nativa vai trabalhar para uma herdeira japonesa vive vida isolada ao lado de um tio autoritário. Ela e um vigarista planejam conquistar a herdeira, casar com ela, roubar a sua fortuna e prendê-la em um sanatório.

Essa história em tom de tragédia shakespeariana foi aplaudida em Cannes e ganhou o prêmio de público como na 40° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

O filme “Assassin's Creeed” é a versão cinematográfica do game de mesmo nome - que em português seria "A Seita dos Assassinos". Essa entidade, que tem origem nos tempos medievais, povoa vários romances de ficção desde as narrativas de Marco Polo. No elenco, temos as presenças de Marion Cotillard, Jeremy Irons e Michael Fassbender.

Esse personagem descobre que é descendente de um integrante dessa seita e, por conta de uma suposta herança genética, reencarna um guerreiro espanhol para enfrentar os cavaleiros templários que sobrevivem até hoje. A direção é de Justin Kurzel, que fez uma versão australiana de Macbeth, também estrelada por Michael Fassbender.
Também estreia, ou melhor, reestreia com cópia restaurada o clássico de ficção científica “O Homem que Caiu na Terra”, de Nicolas Roeg, com David Bowie. Pra muita gente, este é o lançamento mais importante da semana. O filme é de fato uma preciosidade em termos de roteiro e realização dramática.
Sem grande chance de competir com todas estas atrações temos o drama familiar “Manchester à Beira-Mar”, com Casey Affleck e direção do elogiado Kenneth Lonergan.
E também o brasileiro “Eu Fico Loko” – uma comédia sobre um rapaz que enfrenta o bullying dos colegas, dos quais se defende por meio das redes sociais. E acaba ficando famoso. Bem, a vantagem está na atualidade temática, que é sobre adolescentes, raramente focalizados pelo cinema brasileiro.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Retrospectiva Cinema Brasileiro | "Ponto Zero" é um sensível drama sobre a juventude



Filme trata do universo mental da juventude

Foi lançado no último Festival de Gramado, realizado em agosto de 2015, “Ponto Zero”, de Zé Pedro Goulart - que apesar de já veterano na profissão está apresentando o primeiro longa de sua carreira. 

Ele começou como diretor em 1986, numa parceria com Jorge Furtado, no cultuado curta-metragem “O Dia em que Dorival encarou a Guarda”. Aquele filme era estrelado por João Acaiabe, ator que, aliás, permaneceu durante muitos anos contratado pela TV Cultura. Depois disso, ele se dedicou ao cinema publicitário e à televisão.
Naquela edição de Gramado, “Ponto Zero” recebeu os chamados prêmios técnicos, ou seja, melhor montagem e desenho de som. O paulista “Ausência” ganhou melhor filme, diretor, roteiro e trilha. Em 2º lugar, ficou o brasiliense “Último Cine Drive-In”, que levou o prêmio da Crítica, além de direção de arte, atriz coadjuvante e ator. “Um Homem Só”, ganhou coadjuvante e fotografia, além de melhor atriz para Mariana Ximenes, com lançamento prometido para setembro próximo. 

Com interpretação do experiente Eucir de Souza e do iniciante Sandro Aliprandi, o filme realmente se estaca pela qualidade técnica, com imagens de alto impacto – como o solo da cidade de Porto Alegre visto em lugar das nuvens e uma câmara subjetiva da chuva ao cair do céu. A maior parte das cenas acontece à noite, inclusive para sublinhar o caráter melancólico do jovem protagonista, em crise afetiva e emocional. 

O filme não é propriamente divertido, mas a narrativa se mostra empenhada em dissecar o desenvolvimento de uma inadequação existencial própria de um adolescente. O garoto precisa lidar com a irrupção do sexo e, ao mesmo tempo, com a rejeição do pai truculento e com a depressão da mãe. Revisto agora, meio ano depois de Gramado, “Ponto Zero” não é apenas bonito e bem feito do ponto de vista sonoro e visual. Trata-se de um ensaio sensível e contemporâneo sobre o universo mental da juventude urbana.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Confuso e apressado, o decepcionante "Estados Unidos Pelo Amor" é abaixo da expectativa


Magdalena Cielecka é uma das atrizes principais.

“Estados Unidos pelo Amor” deve ser o título de impacto criado para dar nome a um filme polonês ambientado em 1990, justamente no momento em que aquele país via destruído o seu projeto de socialismo soviético e nada mais parecia dar certo. O diretor e roteirista é Tomasz Wasilewski, um jovem de 37 anos que, com este projeto, ganhou o Urso de Prata no último Festival de Berlim.
Seu trabalho anterior era “Arranha-céus Flutuantes”, de 2013, que igualmente circulou bem em outros festivais de perfil dedicado a filmes diferenciados. Mas este, porém, parece ter sido pensado para ser puro marketing. Trata-se de um apanhado circunstancial na vida de quatro mulheres. E estas precisam ser bastante infelizes, para atender a uma provável encomenda: ou seja, vejam como elas sofriam. Como eram tristes as mulheres trabalhadoras daquele tempo e naquele país.

Pra começar, a fotografia é lavada e esmaecida, praticamente monocromática, num tom quase fúnebre e deprimente. Não há trilha sonora musical e os personagens quase não interagem – apenas se trombam uns com os outros. Todas as quatro figuras centrais são professoras e trabalham na mesma escola. Além disso, moram no mesmo prédio – um daqueles edifícios populares de cinco pavimentos ,sem elevador, em que os moradores não convivem, apenas se amontoam.

Na primeira cena, essas pessoas e seus maridos jantam em conjunto, provavelmente numa festividade cívica. São elas a diretora da escola, jovem e vaidosa, a já veterana professora de literatura, a instrutora sexy de ginástica, sempre sonhando em se tornar modelo, e a gerente de uma locadora de vídeo VHS. Essa a mais trágica das quatro, simplesmente porque está apaixonada pelo padre que atende a paróquia local.



As cores esmaecidas se acumulam no filme.

Basta lembrar o peso e a seriedade que o culto católico tinha, e ainda tem, naquele país. O religioso nem desconfia, mas ocupa diariamente os sonhos eróticos daquela pessoa. Já a diretora da escola é obcecada pelo médico, há anos seu amante, numa história que ele quer encerrar, porque a sua esposa acabara de falecer. Uma história que tem tudo para terminar em violência.

Até aí, tudo bem. Estamos diante de uma farsa que lembra antigos dramas italianos neorrealistas. Mas o diretor Tomasz Wasilewski, batalhou pelo prêmio em Berlim, usando a seguinte estratégia: podendo complicar para que simplificar? A narrativa é um tanto misteriosa, no sentido de que as cenas praticamente nunca se concluem. Os cortes são abruptos e quase sem sentido. Os personagens são desenhados por meio de pinceladas apressadas e não sobra tempo para qualquer reflexão. Ou seja, cinema polonês de qualidade está nas mãos de veteranos como Pavel Paulikovski de 60 anos que, em 2015, fez o genial “Ida”, Oscar de Melhor filme estrangeiro naquele ano. 

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

"Animais Noturnos", segundo longa de Tom Ford, mostra o notório talento de seu diretor


Jake Gyllenhaal é um dos destaques do filme

Sete anos atrás o estilista de moda Tom Ford decidiu virar a sua própria mesa profissional e experimentar a direção de cinema. Assim como acontecera com algumas raras celebridades – como, por exemplo, o milionário pintor Julian Schnabel que, em 2007, se lançou na complicada tarefa de dirigir “O Escafandro e a Borboleta”. Em 2002 Schnabel já tinha se exercitado num docudrama com Javier Barden. Por sua vez, Tom Ford era totalmente calouro quando assumiu a direção de “O Direito de Amar” – título que deu o Oscar de melhor ator para Colin Firth.  


Mas nenhum estúdio cinematográfico em sã consciência se negaria a abrir as portas a um designer de moda que, em 1994, passou a comandar a Gucci à beira da falência. E dez anos mais tarde, aquela companhia passara a lucrar cerca de 4 bilhões por ano. É claro que alguns críticos e cinéfilos bradaram “como é que pode” e torceram o nariz. Mas ao assistirem o filme, que é de primeiríssima qualidade, dobraram a língua. Agora, sete anos depois, com a mesma segurança e determinação, ele nos traz o seu segundo trabalho como autor: o excelente e insólito “Animais Noturnos”.

Bem mais complexo que o primeiro, este filme apresenta três narrativas se entrelaçando de modo surpreendente. Na primeira, temos a personagem de Amy Adams. Trata-se de Susan, a proprietária de uma galeria de arte, que se acha infeliz com o marido, porque este a engana de modo quase ostensivo. Ela se recorda de Edward – o seu primeiro amor, interpretado por Jake Gyllenhaal. Nesta segunda narrativa, vemos o desenho dessa pessoa: Edward é um aspirante a escritor, carinhoso e bom caráter, mas desprovido de qualquer agressividade profissional. Ela o abandonara há 20 anos e eles nunca se falaram desde então. 


Amy Adams vive "Susan" no novo longa de Tom Ford

Agora ela recebe os originais do livro que ele acabara de concluir e que é dedicado a ela, com o título de “Animais noturnos” – que é como ela a chamava. Quando ela inicia a leitura, passamos a enxergar o que está no texto e aí vemos que o protagonista do romance é Tony – cujo papel é feito pelo mesmo Jake Gyllenhaal. Ou seja, ela imagina o personagem central do livro com a mesma aparência do ex-marido. E isso é essencial para a compreensão do roteiro: ou seja, é uma história dentro de outra história. A contundente resposta de um personagem a outro personagem, ainda que tenha demorado duas décadas para ser enviada. 

domingo, 8 de janeiro de 2017

A Mostra Tiradentes se consolida como um dos principais eventos cinematográficos do país



A 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes se encerou no último fim de Semana, reafirmando a sua vocação de abrir um espaço privilegiado para o “cinema independente”. Houve um tempo em que essa expressão “cinema independente” servia para designar os filmes provenientes de Hollywood, ou de grandes empresas, como a Vera Cruz, a Atlântida ou, quanto a hoje em dia, a Globo. E, mais recentemente a Record, como seu discutido “Dez Mandamentos”.

No entanto,o seu significado mais atual se refere a um cinema de baixo ou nenhum orçamento. Mais precisamente, o tipo de filme que não visa retorno comercial de bilheteria e que, portanto, se permite ousar em termos de linguagem e de temática. Mais ou menos como era o ciclo de obras dos anos de 1960 e 1970 que foi chamado de Cinema Marginal, liderado por nomes como Julio Bressane, Rogério Sganzerla e Andrea Tonacci. Nesta 19ª edição, o festival de Tiradentes deixa bem clara essa origem genética, homenageando Tonacci e exibindo novas criações de Bressane e de Helena Ignez – essa, a herdeira familiar e artística de Sganzerla.


Cena do filme "Jovens Infelizes ou um Homem que Grita não é um Urso"

Essa opção estética (e também ideológica) se manifestou no Júri principal, formado por críticos e professores de cinema. Eles elegeram
o filme “Jovens Infelizes ou um Homem que Grita não é um Urso que Dança”, do paulista de Thiago Mendonça, que focaliza um grupo de jovens ativistas numa cidade convulsionada por manifestações de rua que protestavam contra a realização da Copa do Mundo. Trata-se de uma produção realizada por um coletivo que se intitula a “Cia do Terror”: um grupo comunitário que faz música e teatro, mas que também produz filmes – assim como o Alumbramento, lá do Ceará e o brasiliense comandado por Adirley Queiros, realizador do controvertido “Branco Sai, Preto fica”.

É preciso notar que, em Tiradentes, a competição é organizada em diferentes, digamos, sub-mostras. O júri da Crítica escolhe o melhor entre os cineastas que fizeram no máximo três longas metragens, enquanto os iniciantes, ou seja, os que se encontram em seu 1º longa são julgados por um grupo de estudantes universitários com no máximo 25 anos. Estes escolheram o surrealista “Tropykaos”, do baiano Daniel Lisboa, trama em que o sol aparece como metáfora da violência social.
Assim como a maioria dos títulos em competição, os premiados são filmes de difícil (ou até improvável) aceitação por um público mais amplo. Mas seus realizadores não deverão enfrentar problemas financeiros por causa disso, porque são geralmente produções financiadas por editais. Isto é, com recursos liberados por secretarias de cultura de estados e municípios. Em outras palavras, dinheiro público e, por isso mesmo, curto, controlado e modesto. Amanhã, continuaremos a analisar a Mostra de Tiradentes, que vem se firmando como um dos mais importantes eventos cinematográficos do país. Ate lá!

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Os filmes lançados no circuito comercial de SP na semana iniciada em 05 01 2017 (II)



"Eu, Daniel Blake", filme de forte cunho progressista, é a melhor estreia da semana

Atualmente o cinema tem se mostrado bem diferente do que era em meados do século passado. Naquela época a pessoa levava mais tempo se preparando intelectual e psicologicamente para dirigir um filme. Por outro lado, se aposentava mais cedo, ou em alguns casos migrava-se para a produção. Hoje é comum observar um veterano de 80 anos, como é o caso do inglês Ken Loach, no Festival de Cannes batalhando para tomar a Palma de Ouro, disputada também por gente bem mais moça. Como, por exemplo, o canadense Xavier Dolan, de 27 anos, cujo filme “É apenas o Fim do Mundo” ganhou o prêmio Especial do Júri.
O filme de Ken Loach é “Eu, Daniel Blake” – com certeza o melhor desta semana, talvez da temporada. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes, sem astros e nem estrelas, apenas com o “stand up comic” Dave Johns, num papel sério. Assim se confirma a crença de que grandes papéis por vezes são defendidos por comediantes – como vimos Jerry Lewis em “O Rei da Comédia”, sob a direção de Martin Scorcese. Johns faz o papel de um carpinteiro veterano que sofre um ataque cardíaco e é proibido de continuar trabalhando.

Seu único caminho é se inscrever no programa britânico de seguridade social que, segundo alguns, é um dos mais avançados do mundo. O filme, porém, nos revela que as coisas não são bem assim.
Agora com somente 42 anos, o espanhol Juan Bayonateve teve um excelente início de carreira em 2007 com “O Orfanato” - um filme de horror autoral produzido por Guillermo del Toro. Depois, em 2012, ele fez o complicadíssimo “Impossível”, em que Naomi Watts enfrentava nada menos que um tsunami. E agora ele traz “Sete Minutos Depois da Meia-Noite” sobre o relacionamento entre um garoto, que esconde uma incômoda verdade de seu passado. E também uma árvore monstro.

Como coadjuvantes ele tem Felicity Jones, no papel da mãe, e a experiente Sigourney Weaver, fazendo a avó, como megera explícita. Bastante elogiado, o filme segue uma linha do horror clássico que os produtores ingleses vêm aprimorando desde os anos de 1960.
Com produção da Disney teremos a animação “Moana - Um Mar de Aventuras”, sobre a filha do chefe de uma tribo na Oceania. Vinda de uma longa linhagem de navegadores, ela parte em busca de seus ancestrais, acompanhada por um lendário semideus. Parece movimentado e bem divertido.
Provavelmente bem mais do que “Dominação”: um filme de horror com Aaron Eckhart, no papel de um exorcista capaz de invadir o subconsciente de uma mente possuída. Ou seja, o personagem de Eckhart pratica o exorcismo, digamos...de dentro para fora. Será que dá certo? Quanto ao filme, não há dúvida de que ele se mostra convencional como os demais da mesma linha...

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Os filmes lançados no circuito comercial de SP na semana iniciada em 05 01 2017


Asghar Farhadi (esquerda) dirige Shahab Hosseini em seu filme "O Apartamento"

Com toda aquela névoa, a humidade das ruas refletindo os postes de luz e as sombras de uma cidade ainda ainda mal iluminada, nos anos de 1940, a cidade de Nova York era o habitat natural dos gângsters e dos detetives particulares que contribuíam para formar os elencos dos chamados "film noir". Ou seja, histórias de crime e violência que marcavam a fauna urbana de Nova York. Agora numa inesperada coincidência da história um clima parecido se repete em outras paragens do planeta, como Teerã, capital do Irã – que é palco de um dos melhores filmes desta semana.
Essa a é a atmosfera de “O Apartamento”, o último filme do iraniano que nos deu belos trabalhos como “A Separação” (2011), Asghar Farhadi. “O Apartamento” foi premiado no último Festival de Cannes, como o melhor roteiro e melhor intérprete para Shahab Hosseini – o papel de um ator que interpreta a peça “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller.

É provavelmente um dos melhores filme da semana. Pela maestria em termos de direção e pelo nervosismo da história, que guarda um curioso parentesco com os filmes policiais americanos dos anos de 1940, mostrando com a cultura se movimenta em ciclos, ao longo do tempo. 
O cinema quase sempre procura lançar a sua imaginação para momentos cada vez mais distantes no tempo. Imagine um futuro em que os humanos estão colonizando outros planetas e enviam uma espaçonave sem tripulantes para um local extremo do universo. São cinco mil passageiros que viajam dormindo por 130 anos até chegarem ao seu destino, que á uma colônia.

Mas acontece uma pane inesperada e um casal desses viajantes é despertado de seu sono criogênico 90 anos antes do tempo programado. E assim precisam salvar a nave como um todo, além de suas próprias vidas. O diretor é o mesmo Morten Tyldum, responsável pela excelência de “O Jogo da Imitação” (2014). Além do casal Jennifer Lawrence e Chris Pratt, o elenco é formado por Michael Sheen, no papel de um robô que é o barman da espaçonave. Temos aqui uma boa história e um verdadeiro show de design e efeitos especiais – dois ingredientes indispensáveis para um bom filme de ficção científica.

O ano mal começa e já enfrentamos uma quantidade bem maior de títulos sobre os quais temos condições de comentar. De modo que hoje falamos de apenas dois deles. E deixamos os outros quatro para amanhã. Até lá.