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terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Em "Operação Valquíria" pode-se ver e sentir o modo com os fatos históricos acontecem

A excelência ou a pobreza de um plano não explicam o sucesso nem o fracasso de uma batalha. Isso é o que neste filme mostra o diretor Bryan Singer, atualmente marcado por filmes sobre heróis de quadrinhos, como X Men (2000) e Super Man – O Retorno (2006). Desta vez ele fala de um herói de verdade, ou melhor, de um grupo de militares alemães que, de fato, tentaram executar Hitler, no final da Segunda Guerra. Foram todos fuzilados porque, como se sabe, o atentado fracassou, ainda que tivesse sido matematicamente planejado. Essa é a prova da competência dos realizadores: mesmo conhecendo o final do filme, é muito difícil que a platéia se distraia um só minuto. O diretor Bryan Singer (Nova York, 1965) não filma um único plano sem necessidade e, assim, somos levados a entender a mecânica da história, na qual múltiplas decisões são sempre tomadas ao mesmo tempo.
A bomba que explodiu perto do ditador não o matou, mas, mesmo assim, a operação teria derrubado o regime nazista − não fosse a atuação de personagens anônimos que permaneceram fiéis a ele, como os operadores do telégrafo que noticiaram o malogro da tentativa de eliminar Hitler. Esse episódio já foi tema de filme mais de quinze vezes, sendo a mais famosa A Raposa do Deserto (1951), de Henry Hathaway. O líder da conspiração foi o coronel Klaus Von Stauffenberg, interpretado com dignidade e comedimento por Tom Cruise. Se tudo tivesse dado certo, o novo presidente da Alemanha seria o General Beck, encarnado por Terence Stamp. O resto do elenco é de primeira, com destaque para Tom Wilkinson, Bill Nighy e Carice van Houten.

Operação Valquíria
V a l k y r i e
(2008 – EUA / Alemanha)
Direção de Bryan Singer
Com Tom Cruise, Tom Wilkinson, Terence Stamp,
Kenneth Brannagh, Bill Nighy e Carice van Houten
estréia 13 de fevereiro de 2009

O tema de "O Lutador" não pode ser confundido com a trajetória típica de "Rocky"

O Lutador (estréia 13/02/2009) é dirigido por Darren Aronofsky (Nova York, 1969), cujo último filme lançado no Brasil foi A Fonte da Vida (2006), um roteiro instigante, porém confuso, sobre um homem em busca da eternidade, numa trajetória desenvolvida em três diferentes épocas. Desta vez, a trama é bem mais simples, com uma narrativa em estilo quase documental sobre um profissional de luta livre que, nos anos 80, era um grande astro dessa modalidade e que agora se encontra em dolorosa decadência. Continua se apresentando em arenas de quinta categoria e, para sobreviver, cumpre tarefas temporárias num supermercado perto de sua “casa” na periferia de New Jersey: um modesto trailer cujo aluguel nem sempre consegue pagar. Mickey Rourke (Nova York, 1952) empresta a este tipo tristonho um pouco da sua própria aura de fracassado que tenta voltar ao estrelato como ator.
Caso raro nesse ambiente, ele que na juventude já lutara boxe como amador, tornou-se profissional em 1991, depois de ter chegado a protagonizar filmes de grande sucesso, como Nove Semanas e ½ de Amor (1986) de Adrian Lyne. Quando se aposentou em definitivo do ringue, em 1994, seu rosto se achava irreconhecível, devido a uma série de fraturas e cirurgias. A carreira no cinema derrapou com vários papéis sem importância em produções baratas, até chegar esta oportunidade que ele soube honrar, trabalhando com todo o empenho para dar credibilidade e interesse humano ao personagem. Há, de fato, algumas passagens comoventes, como aquela em que ele tenta se reconcilar com a filha de quem se afastara. À primeira vista, o roteiro parece repetir a típica rotina da série Rocky, em que ele se prepara para uma luta quase impossível contra um antigo oponente, o que lhe faria famoso outra vez.
Na verdade, esta não é uma “história de superação”, mas de reencontro de um homem consigo mesmo. Nessa busca pela identidade perdida, o lutador tem a companhia de uma dançarina de strip-tease que pretende voltar a ser mãe de família, interpretada com sensibilidade e amargura por Marisa Tomei. Ambos concorrem ao Oscar e, aliás, as apostas em torno da candidatura de Rourke cresceram 50% na última semana.
O Lutador
The Wrestler
(2008 - EUA / França)
Direção de Darren Aronofsky
Leão de Ouro no Festival de Veneza 2008
Com Mickey Rourke, Marisa Tomei e Evan Rachel Wood

domingo, 8 de fevereiro de 2009

“Foi Apenas um Sonho”: mais que drama, uma inesperada tragédia existencial

O filme só compete pelos Oscar de direção de arte, figurino e ator coadjuvante (Michael Shannon). Mas é melhor do que muitos dos indicados e inclusive ganhou o USC Libraries Scripter Award de 2008, que é oferecido pela associação nacional das bibliotecas americanas para o melhor roteiro adaptado de uma obra literária. Não conhecia o romance “Revolutionary Road” de Richard Yates, mas o roteiro de Justin Haythe é sensacional, ainda que não tenha sido escolhido para concorrer ao Oscar. Sob a capa de um pequeno drama familiar (casal entra em crise após o fracasso do plano de se mudar de Connecticut para Paris) ele elabora um raro exemplar de tragédia existencial cinematográfica. De tão acurada, a trama poderia ser assinada por Jean Paul Sartre − só para aquilatar a sua profundidade sócio-psicológica.
A protagonista é vivida por Kate Winslet, já premiada por este papel no Globo de Ouro. Ainda bem que os jornalistas estrangeiros em Hollywood, que escolhem aquele prêmio, não deixaram passar em branco essa evidência − apesar de não terem agraciado o filme e nem o diretor Sam Mendes, o talentoso cineasta inglês de Beleza Americana (1999). Poucas vezes o cinema conseguiu demonstrar tão sinteticamente os impasses culturais de um período da história americana como este Foi Apenas Um Sonho. Focaliza um casal que se une logo após o fim da Segunda Guerra e cujo casamento coincide com a consolidação do sistema econômico que só agora vemos entrar em crise nos Estados Unidos.
A monótona vidinha de classe média – definida pelo lúcido lunático interpretado por Michael Shannon, como “the hopeless emptyness” (o vazio desesperador) – incomoda o vaidoso personagem de Leonardo DiCaprio, mas é a esposa quem concebe a idéia de se mudar para a Europa e “passar a viver de fato”. No entanto, os obstáculos a essa meta se mostram tão intransponíveis quanto insidiosos, ou seja, se encontram em tudo, em todas as coisas e pessoas. Exatamente como era a expressão dos desígnios divinos, na tragédia clássica. Insistindo na comparação, o filme também tem um coro (os vizinhos e amigos), um mago portador da verdade (o já citado maluco de Michael Shannon), sem falar na sangrenta catarse do final.
Os personagens simbolizam os pais da geração que se encontra atualmente transtornada pela crise econômica: dessa gente que atravessou a adolescência nos anos 60, experimentou a rebeldia e depois se integrou ao sistema, chegando agora à aposentadoria. Na pele da heroína, a encantadora rebelde que todos queríamos ter sido, Kate Winslet verbaliza a consciência do filme na frase: “ninguém se esquece da verdade, apenas se aprende a mentir melhor”.

Foi Apenas Um Sonho
Revolutionary Road
estréia 13 de fevereiro de 2009
(2008 – EUA / Inglaterra)
Direção Sam Mendes
Com Kate Winslet, Leonardo DiCaprio,
Michael Shannon, Katy Bates

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

"Dúvida" é baseado em peça premiada com o Pulitzer e o Tony, dirigido pelo próprio autor

John Patrick Shanley (Nova York, 1950) é uma figura excepcional no meio cinematográfico. Quase ninguém se lembrava de que, em 1987, ele ganhara o Oscar como roteirista de Feitiço da Lua. Agora quase duas décadas e meia dúzia de filmes depois, ele reaparece com Dúvida, uma peça teatral que, entre vários outros prêmios, ganha o Pulitzer e o Tony ao mesmo tempo. Em seguida, adapta o texto teatral para roteiro de cinema e dirige o filme ele mesmo. A surpresa não é apenas a excelência do resultado em termos de cinema, mas a maneira inusitada como ele conduziu a direção. Começa rompendo um dos preceitos básicos da dramaturgia que é revelar a carpintaria do drama: logo na primeira frase, um dos personagens verbaliza o tema central, que é justamente a dúvida. Ou seja, aquele estado de espírito experimentado por qualquer ser humano e que é inerente a todo o conflito interno, quase um pré-requisito para qualquer ação, principalmente a dramática.
A partir dessa fala inicial, dita com precisão cirúrgica por um padre interpretado por Philip Seymour Hoffman, o público é fisgado pela força do texto e acompanha a trajetória da protagonista: a freira vilã vivida magistralmente por Meryl Streep. Mesmo sem prova alguma, ela tem certeza de que o padre molestara um dos coroinhas e nem pensa em dar-lhe o benefício da dúvida. Assim como os demais personagens, a professora Amy Adams (na foto acima) assiste de camarote esse embate entre a razão e a força de vontade. Pano de fundo: começo dos anos 60, quando as mazelas sociais como racismo e intolerância começavam a ruir.
Dúvida
Doubt (2008 – EUA)
Dir John Patrick Shanley.
Com Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman,
Amy Adams, Viola Davis.
Estréia 06/02/2009

"O Leitor" de Stephen Daldry ("As Horas"): um espetáculo no mínimo indispensável

Direção, interpretações e reconstituição de época impecáveis valorizam uma dramaturgia com a vergonha e o perdão como temas centrais. O livro (O Leitor) parcialmente autobiográfico do professor de direito Bernard Schlink foi lançado no mercado brasileiro junto com o filme. Inclusive porque a leitura, como atividade que separa os seres humanos em duas categorias inconciliáveis, é tema central do enredo. Kate Winslet interpreta uma mulher madura, solitária e analfabeta que trabalha como cobradora de bonde em Berlim, após a Segunda Guerra.
Por acaso, ela encontra um estudante de 16 anos com quem se envolve afetivamente. De um lado ela lhe proporciona uma iniciação sexual repleta de carinho e atenções. De outro ele lê de tudo para ela: da Odisséia às Aventuras de Huck. E, assim, ela dá-se ao luxo de visitar diariamente o encantador mundo dos livros, mesmo sem poder lê-los. E ele experimenta as delícias do amor carnal, ainda sem ter idade e nem licença para desfrutá-lo. Assim se passa a primeira metade do filme, que termina um pouco triste com o dia em que ela desaparece sem explicações.
Oito anos mais tarde, já estudante de direito, ele a encontra num tribunal, entre as acusadas de crimes de guerra praticados pelo nazismo: ela tinha trabalhado como guarda num campo de concentração. O promotor e as ex-colegas tentam incriminá-la por meio de um relatório que ela teria escrito. Em todo o planeta, apenas o ex-amante teria meios para salvá-la da condenação. Com esse dilema, o filme cresce em dramaticidade, preparando para o admirável e comovente desfecho do terceiro ato. Impossível perder.
"O Leitor" -
The Reader (2008 – EUA / Alemanha)
Dir Stephen Daldry.
Com Kate Winslet, Ralph Fiennes, David Kross,
Florian Bartholomäi, Lena Olin, Bruno Ganz
estréia 06/02/09

Andréa Beltrão é "Verônica", personagem maior que o filme de Maurício Farias

Como em qualquer atividade, no cinema nem sempre as boas intenções garantem o resultado. Também não bastam nomes famosos no elenco, para garantir bilheteria. A celebrada Andréa Beltrão − em teatro, televisão e cinema, com mais de 15 filmes no currículo − interpreta uma professora estressada da rede municipal carioca: separada do marido e louca para se aposentar com vinte anos de serviço. Quando a mãe de um aluno de oito anos não vem buscar o garoto, ela resolve levá-lo para casa, na favela. Ao chegar, vê que os pais dele foram assassinados. Como o menino também corre perigo, foge com ele para escondê-lo. Inclusive dos policiais que o procuram para “queimar o arquivo”. Os momentos mais dramáticos e envolventes deste trabalho de Maurício Farias − justamente o diretor de Grande Família, O Filme (2007) − acontecem na frenética busca da professora por ajuda, lembrando a adrenalina de Glória (1980) , de John Cassavetes, com Gena Rowlands, que apresentava um tema, aliás, muito semelhante. Além da atuação do estudante Matheus de Sá (nas fotos com Andréa), outro mérito é o trabalho da própria Andréa Beltrão (Rio de Janeiro, 1964) que atribui vida real à personagem, representante dessa categoria profissional tão desrespeitada pela sociedade brasileira, aviltada pelo estado, ignorada pelas elites econômicas e esquecida pelo cinema. Farias dirige corretamente, com segurança nas seqüências de ação e suspense. O único ponto fraco de Verônica (estréia 06/02/2009) está mesmo na dramaturgia, que não consegue encontrar um desfecho para a trama à altura da maneira como foi aberta, levantando tantas questões tão importantes para o país.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Angelina está brava em "O Procurado", filme que veio de quadrinhos da pesada

Como O Espírito ainda vai demorar um pouco para chegar aos cinemas, vamos torcer para que O Procurado seja lançado logo em DVD. Esse filme com Angelina Jolie em fúria ficou pouquíssimo tempo em cartaz. Aparentemente O procurado é mais um filme baseado em histórias em quadrinhos, como Batman e Hulk. Digo aparentemente porque a novela gráfica em que se baseia O procurado é uma obra de autor e nada tem a ver com os super-heróis, que são produtos de massa. O estúdio Universal comprou os direitos para o cinema dos criadores Mark Millar e J.G. Jones, quando a série de seis edições ainda estava no segundo número. De fato, a primeira impressão que tive quando abri a revista em 2004 foi que aquela narrativa tinha tudo para um grande espetáculo de ação, com uma surpresa a cada página e uma aura de estranheza do começo ao fim.
Deve ter sido por isso que o estúdio contratou o russo Timur Bekmambetov para dirigir o projeto. Ele que fazia filmes de vampiros muito esquisitos, como Guardiões da Noite, em que parecia se inspirar no estilo visual de Tarkovsky e que, inexplicavelmente fizeram sucesso no mundo todo. Interpretado por James McAvoy (foto abaixo, no espelho retrovisor), de Desejo e Reparação, o herói é um fracassado e deprimido que descobre ser o filho de um matador profissional pertencente a uma poderosa irmandade de assassinos que existe a mais de mil anos. Seu líder atual é Morgan Freeman e a sua mentora na organização é Angelina Jolie. Os quadrinhos eram mais fantasiosos, porque se passavam num universo paralelo. Mas, apesar de ambientado numa Chicago de hoje, O Procurado tem um lado místico muito original.