

Como ela se fazia passar por uma mulher casada e insatisfeita como o marido sempre em viagens de negócios, não poderia manter a própria virgindade. Mais cedo ou mais tarde, o político colaborador com os japoneses a ser eliminado a levaria para a cama e aí ela, deveria aparentar prazer e paixão. Essa breve sinopse, no entanto, vale como as cartas colocadas à mesa de um jogo dramático que surpreende a cada minuto. O roteiro se baseia num conto de Eileen Chang (1929-1995), uma das escritoras mais populares do oriente e cinéfila confessa.
A influência do cinema ocidental, digamos, clássico é, portanto, inegável. Mas o que o diretor consegue obter dos intérpretes evidencia o seu estilo essencialmente minimalista, em que uma leve mudança de olhar pode sugerir turbilhões emocionais. Como enuncia o personagem de Tony Leung, a emoção que ali predomina é o medo. Num elogioso ensaio clássico de 1929 sobre o teatro oriental, o pensador e cineasta soviético Sergei Eisenstein se admirava com o papel dos elementos cênicos que, no ocidente se limitavam a emoldurar o drama:
“Voz, palmas, música, mímica, gritos do narrador e painéis coloridos são como os jogadores passando um para o outro a bola dramática e dirigindo-se para o gol, que é o atônito espectador” Como se tivesse essa observação como lema, Ang Lee nos oferece três motivos para embarcar nessa tragédia erótica e política admiravelmente construída.
O primeiro é a música do francês Alexandre Desplat (“O Curioso Caso de Benjamim Button”), com destaque para uma cena inesquecível, em que se organiza um confronto dramático e sensual entre a música chinesa e a japonesa. Lembram-se de Tchaikovsky na abertura “1812”, fazendo os hinos da Rússia e da França se chocarem? Depois, temos a fotografia do mexicano Rodrigo Prieto (“21 Gramas”), que “veste” os corpos nus e os rostos em close com sombras e cores enunciadoras de sentimentos indizíveis. E finalmente a direção de arte e figurinos de Lai Pan, que deu plena visualidade à Xangai dos anos 40 e seus habitantes. A trama poderia até se encaixar no modelo de film-noir predominante na época em que ela se ambienta. Como foi o trabalho de Harry Stradling Sr em “Suspeita”. Um excesso de sombras poderia até facilitar a produção, permitindo um figurino e uma cenografia apenas sugestiva. Mas o que vemos em “Desejo e Perigo” uma cidade solar e repleta de luz – o que nos obriga a enxergar os personagens e o mundo em que se movimentam por inteiro, sem meios tons, como se estivéssemos olhando pela janela de nossa casa.

Ang Lee percebeu uma atmosfera cinematográfica nas entrelinhas da história, identificando uma forte presença de Hitchcock em “Um Corpo que Cai” (1958), com todo aquele jogo de ambigüidades e aparências que se anulam mutuamente. Mas preferiu o clima de “Suspeita” (1941), em que vítima e algoz parecem se amar de fato. Tanto assim que o clímax de “Desejo e Perigo” acontece exatamente durante o lançamento daquele filme em Xangai. Os personagens até entram no cinema em que o espetáculo estrelado por Cary Grant e Joan Fontaine se acha em exibição.
Mas a imagem abaixo remete irresistivelmente à preparação do ator teatral para a entrada em cena. No teatro tradicional da China e do Japão, a maquiagem serve tanto para exprimir a intenção das personagens quanto para esconder os sentimentos do ator.
Mas a imagem abaixo remete irresistivelmente à preparação do ator teatral para a entrada em cena. No teatro tradicional da China e do Japão, a maquiagem serve tanto para exprimir a intenção das personagens quanto para esconder os sentimentos do ator.
“Voz, palmas, música, mímica, gritos do narrador e painéis coloridos são como os jogadores passando um para o outro a bola dramática e dirigindo-se para o gol, que é o atônito espectador” Como se tivesse essa observação como lema, Ang Lee nos oferece três motivos para embarcar nessa tragédia erótica e política admiravelmente construída.
Lust, Caution
(2007, China / EUA )
Leão de Ouro em Veneza 2007
estréia 15 /05/ 2009
Leão de Ouro em Veneza 2007
estréia 15 /05/ 2009
distribuição Europa Filmes
Direção de Ang Lee
Com Tony Leung, Tang Ewi,
Chiu Wai e Joan Chen
Chiu Wai e Joan Chen
Um comentário:
Luciano, apesar do cartaz à entrada do cinema ser o de "Suspeita", o filme exibido é "Penny serenade/Serenata prateada", de George Stevens, com Cary Grant e Irene Dunne. Neste momento, aliás, há uma interrupção brusca para entrada de propaganda japonesa, que irrita o público e o faz debandar. A espiã tem nítida preferência por melodramas (ver, no início, a imagem de "Casablanca" que a faz chorar). "Desejo e perigo" é de fato superior (por mais universal e abrangente, além de incluir a Política como face radicalmente oposta ao Desejo, já que este é individualizador enquanto ela seria mais impessoal)a "Brokeback mountain". Também nunca vi um filme beirar o explícito com tanta classe em cenas de sexo. E Tony Leung é um ator maravilhoso
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