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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

"Meu Nome não é Johnny" é o filme brasileiro que teve mais público em 2008

Há 10 anos, nem os mais esperançosos poderiam imaginar que, depois de reduzida à zero na época Collor, a produção nacional estaria hoje deslanchando. Depois do fenômeno Dois Filhos de Francisco, assistido por 5 milhões em 2005, veio Tropa de Elite que arrastou mais de 2 milhões de pessoas para as salas de cinema em 2007. Sem falar nos incontáveis milhares que o assistiram em discos piratas. Agora em 2008, no topo da lista, temos Meu Nome não é Johnny, de Mauro Lima, superando a marca de 2,1 milhões de espectadores. Descontando o incontável “público pirata”, o resultado se aproxima de Tropa de Elite. Os críticos e pesquisadores ainda não decifraram inteiramente os motivos de tamanho sucesso.
Meu nome não é Johnny é baseado num personagem de verdade: o produtor musical carioca João Estrella que, em 95, foi preso como um dos maiores traficantes de cocaína do Brasil. O espantoso era que não se tratava de um favelado, mas do filho de um diretor de banco. Depois de alguns meses preso, foi condenado a permanecer por dois anos num manicômio judiciário. Em 98 foi libertado e hoje, além de ter virado tema de filme financiado por uma multinacional, está estreando como cantor e compositor. Como se explica isso? Numa versão oficial dos fatos, ele conseguiu convencer a justiça de que não passava de um dependente, que vendia a droga para sustentar o vício. Nunca usara armas e, por algum motivo, os tribunais não consideraram a sua ligação com os fornecedores que traziam o tóxico da Bolívia como uma manifestação de crime organizado. E o filme quer que acreditemos nessa versão, assim como o protagonista conseguiu fazer com a juíza vivida no filme por Cássia Kiss. Com apoio de Cleo Pires, fazendo a namorada, e de Julia Lemmertz no papel da mãe, Selton Mello trabalha com o empenho e a eficiência que o caracterizam. Escrito pela produtora Marisa Leão, o roteiro de Meu nome não é Johnny, vale pela fluência e pelo colorido dos personagens. Curioso o fato de que, antes, ela produzia filmes sobre grandes figuras da história, como Antonio Conselheiro, Lamarca, Tenório Cavalcanti e Zuzu Angel. Mas em seu longa de estréia, como roteirista de ficção, escolheu um personagem digamos, mais sintonizado com o mundo de hoje.

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

"Sete Vidas" foi arquitetado para lançamento no Natal. Mas não podemos explicar porque.

Sete Vidas (estréia 25/12/2008) foi feito para repetir o sucesso anterior da parceria entre o ator Will Smith e o diretor italiano Gabrielle Muccino. No ano passado, eles apresentaram o infalível À Procura da Felicidade, melodrama capaz de derreter um coração de pedra. Mas a arte de estimular as lágrimas das platéias não se baseia numa ciência exata. A escolha de um roteirista (Grant Nieporte) de TV, estreante em cinema, para cuidar do roteiro faz toda a diferença. Ele abusa do mistério que, como ensinava o mestre Hitchcock, pode até ser interessante, mas não emociona. Simplesmente por lidar mais com o cérebro do que com o coração do público. Se o espectador fica se perguntando “mas que fiscal do imposto de renda é este que demonstra mais interesse em ajudar do que em processar as vítimas do leão?” está usando mais a razão que o sentimento. Não poderá se comover com um personagem que levanta dúvidas do tipo: “se ele não é gay nem aleijado, por que despreza as insinuações dessa personagem da Rosario Dawson (na foto) que ele tanto ajuda?" A fórmula, desta vez, depende quase inteiramente do carisma de Will Smith, que se esforça para segurar o interesse no protagonista até o desfecho final, quando então tudo se esclarece. Inclusive o título, e o motivo pelo qual o filme é lançado exatamente no dia do Natal. Como se o roteiro colocasse um ponto final nas dúvidas mentais, abrindo espaço para o pretendido choro. Por outro lado, é exatamente nessa ousada estratégia narrativa que reside o lado mais interessante do espetáculo e seu tema central: um caso de amor diferente de todos os demais já mostrados pelo cinema.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

"Um Conto de Natal": sofisticado filme francês com lançamento no dia de natal

Por este trabalho, Catherine Deneuve ganhou o Prêmio Especial do júri no 61º Festival de Cannes deste ano. Mas ela não é a única atração deste filme de Arnaud Desplechin, atualmente o mais importante cineasta francês, autor de Reis e Rainha que, para muitos críticos, foi o melhor de 2005. Naquele filme ele mostrava um casal separado, que ainda mantinha um tipo ligação por causa do forte afeto que unia o filho e o marido. Ele era interpretado pelo mesmo Mathieu Amalric (na foto com Deneuve), que também se destaca neste filme. Desta vez o foco é uma família completa: pai, mãe, filhos e netos, além de primos, esposa, marido e amigos. Uma gente aparentemente comum, não fosse o pai o dono de uma prosaica tinturaria que tem o hábito de ouvir música contemporânea acompanhando a execução pela partitura. Já a mãe é uma dona de casa que tem Emerson, o complexo filósofo transcendentalista, como leitura de cabeceira. Eles se reúnem para celebrar o natal, com todos os rituais costumeiros da sociedade burguesa, inclusive uma “missa do galo”. Só que, em lugar da chegada do Papai Noel, o que se espera é a internação da mãe para proceder a um transplante de medula. Uma leucemia fora recentemente descoberta e espera-se que um dos filhos seja apto para uma doação de medula. Sabe-se que o neto mais velho é compatível, mas o menino é psicótico depressivo e acabara de tentar o suicídio. Por sua vez, a mãe dele tinha banido o irmão mais novo da família. Vivido pelo intenso Mathieu Amalric, este está disposto a virar a mesa em plena ceia. Além de ódios explícitos, o clã tem amores reprimidos e muitas outras complicações varridas para debaixo do tapete da salle a manger. Justamente por isso, a maestria de Arnaud Desplechin se faz mais evidente, ao entrelaçar com destreza todos esses conflitos, sem jamais esbarrar na banalidade e nem deixar desamarrada uma só ponta dramática. Vejamos agora o que dissemos de Reis e Rainha em 2005:

"Reis e Rainha" prova que o cinema francês continua vivo, saudável e criativo

O trabalho de de Arnaud Desplechin pode ser visto como uma síntese brilhante das contribuições deixadas por mestres como Godard, Truffaut e Rohmer. Seu cinema é rico em diálogos, mas também se mostra extremamente visual, num estilo que não privilegia as palavras e nem os gestos. Aqui ele conta uma história com dois protagonistas, vividos pelo elétrico Mathieu Amalric (na foto) e pela inefável Emmanuelle Devos. Ele um músico desequilibrado e encantador e ela uma mulher que parece inicialmente um anjo de candura e que, aos poucos, vai revelando a sua verdadeira face. Na verdade são duas histórias que se cruzam, tendo como denominador comum o filho que eles um dia tiveram. São tantas as reviravoltas e surpresas, que a narrativa parece querer se fragmentar a qualquer momento, transformando-se numa série de episódios ou curtas metragens. E cada um de um gênero diferente: tragédia grega, drama shakespeariano e até comédia musical. Mas gradativamente o leque vai se fechando e vamos absorvendo a obra de Desplechin em toda a sua envolvente unicidade temática e formal. Reis e Rainha (estreia 9/12/2005) é um filme sobre a grandeza e a insignificância da existência, sobre homens e mulheres que superam a si mesmos, na redenção ou no embrutecimento.

sábado, 20 de dezembro de 2008

"Rebobine Por Favor", uma comédia que tem mais graça para quem gosta muito de cinema


Superestimado pela imprensa, o francês Michel Gondry apresenta o seu Rebobine Por Favor (estreia 12/12/2008), uma comédia de baixa voltagem humorística, ainda que cheia de afeto pelo cinema em que a imaginação supera os orçamentos. O personagem do especialista em caricatura Jack Black (na foto, como Robocop) trabalha num ferro-velho e sofre com intermináveis dores de cabeça. Ele atribui o problema a uma rede de transmissão elétrica que passa por perto. Tentando sabotar as instalações, recebe uma descarga tão forte que seu corpo fica magnetizado. Depois, ao entrar na locadora de filmes em VHS de um amigo (Mos Def), ele desmagnetiza todos os filmes disponíveis. A solução encontrada é “refazer”, com uma velha câmara VHS, as principais cenas e diálogos de filmes como O Rei Leão, Os Caça Fantasmas, Quando Éramos Reis, De Volta para o Futuro, Conduzindo Miss Daisy e Robocop. O curioso é que essa tecnologia, hoje superada, era infinitamente superior aos recursos de que dispunham os pioneiros do cinema, como Méliès e Griffith. Ao montar essas “réplicas”, a dupla acaba homenageando todos aqueles que criam imagens não “apesar”, mas “a partir” das limitações conceituais, tecnológicas e orçamentárias. Por um motivo inicialmente obscuro, o grande ícone invocado para representar todo esse esforço de recriação por meio da paródia é o compositor e pianista Fats Waller (“Ain't Misbehavin”) que morreu em 1943. Na última, e melhor seqüência do filme, isso se esclarece, com a montagem de um cena que tem tudo a ver com os números musicais típicos de Fats Waller, nos quais ele associava improvisação e um simpático tom de amadorismo a uma execução jazzística de alta categoria. Veja como exemplo “Your feet's too big”:
http://www.youtube.com/watch?v=in1eK3x1PBI

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Para lançamento no dia de Natal, "Um Homem Bom", do brasileiro Vicente Amorim

Agora já começam as pré-estréias de Um Homem Bom, um dos mais atraentes lançamentos para o dia de natal. Uma surpresa é o nome de Vicente Amorim, filho do ministro Celso Amorim, na direção desta ambiciosa produção internacional estrelada por Viggo Mortensen e Jason Isaacs. (na foto) Desde 1987, Amorim vinha fazendo assistência de direção em filmes como Luar sobre Parador de Paul Mazursky e Brincando nos campos do Senhor, de Hector Babenco. Seu primeiro longa de ficção foi O Caminho das Nuvens, de 2003, com Wagner Moura. Drama histórico de intenção crítica, o tema deste Um Homem Bom é a participação de cidadãos que, apesar de não terem ligação ideológica e nem simpatia pelo nazismo, acabaram colaborando com o regime de Hitler e com todos os seus horrores. Com uma expressão sofrida e quase angelical, o americano de origem dinamarquesa Viggo Mortensen faz o papel de um professor de literatura que, para não perder o emprego, entra para a SS. O único romance escrito pelo era interpretado quase como uma justificação da eutanásia e, por isso, foi considerado uma das bases teóricas do holocausto. Essa história tem parentesco com tantas outras, como Lacombe Lucien, que Louis Malle fez em 73. Mas, mesmo sem a profundidade de O Ovo da Serpente (1979) de Ingmar Bergman , Um Homem Bom é impecável em termos de produção e acabamento. E Amorim apresenta uma impressionante fluência em seu modo de narrar, sem medo de recorrer ao flash back, e contando uma história de época com a agilidade de uma aventura contemporânea.

Retrospectiva dos mais importantes filmes de Bernardo Bertolucci no CCBB




Até o dia 4 de Janeiro, o Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo apresenta uma retrospectiva dos filmes de Bernardo Bertolucci intitulada A Estratégia do Sonho. São 11 títulos do diretor de O Último Tango em Paris (1972). Alguns são bem conhecidos do público brasileiro, como 1900 (1976), La Luna (1979) e O Último Imperador (1987). Mas, outros foram muito pouco vistos entre nós, por causa da censura no regime militar. É o caso de A Morte (1962), Antes da Revolução (1964), Partner (1968), O Conformista (1970) e A Estratégia da Aranha (1970). Sobre este último, aliás, eu escrevi na época um artigo para a Folha de São Paulo que foi publicado apenas em 1980. O texto foi incluído no recente lançamento da Cosacnaify Cinema Político Italiano - anos 60 e 70. (na foto). Baseado num conto do argentino Jorge Luis Borges, o filme fala de uma figura cuja imagem oscila entre a de herói e a de traidor. A ideia central do roteiro é colocar em confronto ideologia e realidade histórica.