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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Jacques Tati ressuscita de corpo em alma no deslumbrante filme de animação "O Mágico".

A vocação de “O Mágico” para filme cult, vem do fato de somente ser plenamente inteligível conhecendo-se os motivos que cercam a realização deste belíssimo trabalho de animação em longa metragem.O diretor é Sylvian Chomet, do precioso “As bicicletas de Belleville” (2003), cujo estilo do traço era caricatural, como uma bande-dessinée de humor animada. Em “O Mágico”, entretanto, ele trabalha com um roteiro inédito deixado por ninguém menos que Jacques Tati – o gênio do humor cinematográfico francês, consagrado com “As Férias de Mr. Hulot”, indicado ao Oscar de melhor roteiro em 1956.
O desenho desta vez é quase realista, em tom pastel, lembrando a transparência das aquarelas, com uma esplêndida utilização da profundidade de campo e do claro escuro. A sonorização segue mesma de “Meu Tio” (1958), por exemplo: como quase não há closes, ou planos mais aproximados, o som sempre aparece como se fosse tomado de um microfone posicionado ao lado da objetiva e fazendo com que os diálogos apareçam sempre velados, dispensando inclusive a leitura das legendas. Ou seja, é quase um filme sonoro que procura narrar os acontecimentos como se fosse mudo. O protagonista é uma réplica do próprio Mr. Hulot, com o mesmo tipo de roupa, de postura e de gestual indicando que a história tem forte cunho autobiográfico.
Nos anos 1950, com o advento da televisão, os espetáculos de “music-hall” entram em decadência e esse mágico precisa se apresentar em locais remotos, como a Escócia.
E ali ele conhece uma faxineira de um pub , que o adota como pai. Compadecido pela fragilidade da moça, ou por algum outro motivo que não fica explícito no filme, o mágico lhe presenteia com roupas decentes e permite que ela lhe acompanhe até Edimburgo, onde a menina acaba encontrando o seu primeiro namorado. No palco, o velho ilusionista faz truques, mas para a vida da menina, ele opera uma mágica de verdade, permitindo que ela viva um coquetel de contos infantis, que inclui a Gata Borralheira e a Alice no País das Maravilhas.
O humorismo do filme é melancólico, como as demais obras de Tati, e mostra o confronto entre a desumanidade do tempo presente e a pureza de alma do personagem central. O destino dele e seus companheiros de teatro é triste, como o do ventríloquo que precisa vender o boneco com o qual trabalhava para pagar o aluguel. Ele mesmo se relaciona amargamente com a garota que, para ele, é quase uma filha adotada. E nesse aspecto ajuda saber que, na vida real, Jacques Tati teve uma filha com uma dançarina de “music-hall” que nunca reconheceu e para quem, antes de morrer, mandou os originais deste roteiro. Foi ela, aliás, quem enviou o texto para o diretor Sylvian Chomet, junto com autorização para filmá-lo. Isto é, o ilusionista da história não é Jacques Tati, nem o personagem da adolescente adotada é a filha dele, mas, ambos são representações evidentes, que permitem uma compreensão mais ampla do filme. Sob uma história mágica, registra-se uma tentativa tardia de Jacques Tati em fazer as pazes com a filha. Dito de outra forma, a revelação do truque, ou da carta marcada que o mágico escondia na manga do paletó.
O MÁGICO
The Illusionist
estreia 14 01 2011
Inglaterra/França - 2010 – 80 min. - 12 anos
Gênero animação / drama / humor / história
Distribuição Playarte
Direção Sylvian Chomet
COTAÇÃO
* * * *
ÓTIMO

3 comentários:

Enaldo disse...

estreia onde?

Luciano Ramos disse...

Em São Paulo, no Frei Caneca, Unibanco, Bristo, Lumiere, Livaria Cultura.

Enaldo disse...

Obrigado. Aqui em Juiz de Fora (MG) provavelmente não entrará em cartaz, assim como ocorreu com Belleville. Só fazendo download, mesmo, rs....