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sexta-feira, 20 de março de 2009

Em "The Spirit - o Filme", Frank Miller mata novamente o personagem de Will Eisner

O protagonista não está na cena, dominada pela provocante Eva Mendes, interpretando uma das garotas curvilíneas que partilhavam com o detetive de Central City as páginas sensacionalmente elaboradas por Will Weisner (1917 - 2005) desde 1941. A iluminação exageradamente contrastada e a eliminação quase total da cor remetem a "Cidade de Pecado" (2005), trabalho recente de Frank Miller, baseado em seus próprios quadrinhos. Desenhista de estilo inconfundível, mas diretor de recursos discutíveis, ele faz aqui uma triste caricatura do "film noir" (nome francês do ciclo de cinema policial americano dos anos 40 e 50). Poderão dizer que o próprio personagem central era, por sua vez, uma caricatura de Dick Tracy, o detetive de quadrinhos mais popular da década de 30. O termo mais correto seria "paródia" ou, melhor ainda, "estilização": o mesmo que Dostoiévski fez com as novelas policiais baratas, ao compor "Crime e Castigo". Mas, enquanto Will Eisner desenvolvia uma narrativa visual tão dinâmica que as figuras pareciam saltar das páginas, Miller tranca os personagens em estúdio e os obriga a agir como idiotas e dizer coisas sem a menor graça ou interesse. Até a caracterização monocromática do detetive Colt (abaixo) que fora dado como morto e volta para assombrar os bandidos o empobrece, fazendo-o lembrar o Zorro e dando excessivo destaque à gravata vermelha.

Esta acaba se tornando uma representação da alma do herói, que era visualmente muito mais sugestivo no desenho original (figura abaixo) do que na interpretação monolítica de Gabriel Macht ("O Bom Pastor").
Nas mãos de Eisner, o detetive Dany Colt era realmente misterioso e se achava sempre envolvido em histórias repletas de imaginação e criatividade. Tanto assim, que muitas vezes ele era apenas um condutor da trama, construída pelos bizarros habitantes da selva urbana de Nova York, cujo espírito se manifesta na imaginária Central City. Construções decrétipas, becos úmidos e escuros povoados por ratos e mendigos, mas que se abriam para dar passagem a mulheres de tirar o fôlego (literalmente) de quem aparecesse em seu caminho. Às vezes o universo gráfico de Eisner se manifestava mais vivamente nas capas que no interior dos gibís. Cada uma delas continha um conflito interno, quase como uma narrativa condensada, que levava a mente do leitor para o que teria acontecido antes, ou depois, do momento congelado na capa pelo desenhista. No caso abaixo, vemos que o herói está prestes a pisar na mão do bandido que, provavelmente, estava perseguindo.

Esse era um procedimento gráfico típico do genial quadrinista que volta e meia aparecia em São Paulo, arrastado por seus amigos Álvaro Moya e Jayme Cortez. Nos anos 70, eu o conheci, vagando por pracinha do interior de São Paulo, como um periscópio fora d'água, durante um festival universitário de quadrinhos na cidade de Avaré. O mestre não merecia que, após a morte, o colega Frank Miller deformasse a sua criação, como podemos observar no cartaz abaixo.
O estúdio deve ter julgado essa peça gráfica demasiadamente indefinida e pouco cinematográfica e decidiu elaborar outra (abaixo) que de fato é mais sugestiva, mas nada tem a ver com o personagem e nem com o roteiro do filme. Pode até dar a idéia de que o Espírito seja um zumbi, menos vivo e agitado que sua gravata vermelha. Mas, ainda assim, remete ao estilo narrativo de Eisner: coloca no mesmo quadro os revólveres fumegantes do primeiro plano, com o personagem ferido pelas balas vivo e olhando para o que seria uma "câmara subjetiva" de quem estivesse empunhando as armas. E verificando que a luz do sol se pondo ao fundo atravessa os orifícios, num curioso efeito de Tyndall.

THE SPIRIT – O FILME
The Spirit
Estréia 20/03/2009
Direção de Frank Miller
EUA - 2008
Com Gabriel Macht, Jaime King,
Samuel L. Jackson e Eva Mendes

2 comentários:

luizinox disse...

Vi a reportagem pela metade no canal TV Aberta ( The Spirit ) Quando foi o evento em Avaré?

BigBangCinema disse...

Frank Miller é muito bom, criou um gênero diferente no cinema.