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quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Lançada em DVD “Ressurreição”, obra prima dos irmãos Taviani ainda inédita no Brasil

Um dos melhores filmes atualmente à disposição do público brasileiro é “Ressurreição” (2001), escrito e dirigido pelos irmãos Taviani (“A Noite de São Lourenço” – 1982). O filme acaba de ser lançado em DVD pela Versátil e se achava inédito no Brasil porque foi produzido pela televisão europeia, com mais de sete horas duração e exibido em dois episódios de 187 minutos cada. O deslumbrante texto de Tolstoi se mostra melhor aproveitado nesse projeto de duração mais longa. Percebe-se quase uma autocrítica ao socialismo cristão professado pelo escritor, nessa historia de um aristocrata que resolve se redimir de um caso que tivera em sua juventude com uma criada – aventura que levara a moça à prostituição e a uma injusta condenação por assassinato. 
O último filme dos Taviani lançado no Brasil é “Cesar deve Morrer” (2013), um trabalho radicalmente experimental que registrava a encenação de “Julio Cesar”, uma tragédia de Shakespeare, pelos presos de uma penitenciaria italiana de segurança máxima. Para o presídio, aquela era uma atividade terapêutica e de reeducação voltada para os internos, mas, para os cineastas foi uma oportunidade de testar os limites entre a ficção e o documentário, entre a encenação e a realidade. 
“Ressurreição”, por sua vez, é um espetáculo marcado por um rigoroso classicismo, em matéria de estilo. Cada plano é milimetricamente calculado, sem qualquer objeto fora do lugar e nenhum movimento gratuito, ou desnecessário. Mas essa postura estilística não engessa a narrativa. Ao contrário, a torna mais clara e fluente, como deveria mesmo ser um programa de TV de produção caríssima, com um elenco multinacional e exibido em vários países da Europa. Este trabalho prova que a forma clássica de filmar nem sempre é um defeito. 
RESSURREIÇÃO

Dois episódios de 187 min.
lançamento em DVD
Distribuição Versátil
Direção Paolo e Vittorio Taviani
Com Marina Vlady, Stefania Rocca e Tymothy Peach
COTAÇÃO

* * * * *

EXCELENTE


 

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Talento de Bruno Barreto continua vivo e florescendo em "Flores Raras"

Pelo corpo de “Flores Raras” passam questões levantadas há meio século e que continuam em discussão até hoje, na sociedade e no próprio cinema. No plano do social, prossegue em conflitado debate o tema das conexões entre política, mercado e cultura. Na estética cinematográfica, complica-se o problema do tratamento dramático dos acontecimentos históricos. Com direção de Bruno Barreto, o filme se baseia numa biografia da poeta americana Elizabeth Bishop, uma das mais importantes de toda a literatura em inglês. Ela que viveu por quase duas décadas no Brasil, entre o último governo de Getulio Vargas e o começo dos anos de 1970 e foi companheira de Lota Macedo Soares, a paisagista que, durante o governo de Carlos Lacerda, concebeu, criou e formou o Parque do Flamengo. 
Esta figura tão incomum na história brasileira, misto de socialite, mecenas e empreendedora, é interpretada com a costumeira segurança e competência por Glória Pires, enquanto o papel de Elizabeth fica para a australiana que fez a princesa guerreira Eowyn na série “O Senhor dos anéis” – Miranda Otto, num trabalho merecedor dos prêmios mais disputados, principalmente por ter evitado todos os possíveis truques e atalhos que poderiam conduzir a uma caricatura da personagem que, na realidade apresentava diversas facetas: uma americana, órfã, pobre, poeta talentosíssima que vivia de bolsas e prêmios literários, de saúde abalada por ser alérgica a quase tudo, alcoólatra, lésbica e linda. 
A representação de Miranda, no entanto, impressiona pela riqueza de recursos expressivos que utiliza, sempre discretamente, em baixa definição e enfatizando os contrastes, como por exemplo, entre recato e sensualidade, ou timidez e franqueza. Note-se como ela vai mudando de voz ao longo filme, à medida que o uísque começa a mexer com suas cordas vocais.
Celebrizado por sua direção em “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976), Bruno Barreto é o campeão histórico de bilheteria no Brasil e talvez agora tenha a oportunidade de dar à luz uma mulher tão marcante e viva quanto Sonia Braga esteve na pele de Dona Flor. Melhor dizendo, quem sabe ele possa realizar o que imaginara para a cantora Leniza, mas que Betty Faria, apesar de ter atuado ali na contracena de Odete Lara, não atingiu plenamente em “A Estrela Sobe” (1974): uma figura vitoriosa de mulher que vence não apesar de suas fragilidades, mas por causa delas. 
Tal como uma dessas “Flores Raras” do título, isto é, as personagens centrais – no bojo do filme e no momento histórico que ele nos recorta: duas pessoas diametralmente diferentes e que, no entanto, só se realizaram em resultado do que uma fez pela outra. Mais ou menos como seria num jogo de Isolda sobrevivendo a Tristão, e vice-versa. Eis aí uma dificuldade do “cinema histórico” que Barreto enfrentou bravamente: na vida real, os relacionamentos não se mostram assim tão lógicos, mas na ficção é preciso aquele mínimo de coerência para atribuir sentido à narrativa e evitar que os espectadores se aborreçam. Ou seja, quanto mais complexo, original, diferenciado (e ainda assim, plausível e emocionante) seja o relacionamento dos amantes protagonistas, mais próximo ele estará da chamada “vida real”. Então, vejamos...
Bishop escrevia relativamente pouco, em termos de quantidade, e também não tinha uma legião de leitores, mas recebeu alguns dos prêmios internacionalmente mais significativos em sua época. Na qualidade de paisagista, por sua vez, Lota não foi reconhecida como alguns de seus colegas brasileiros, inclusive porque sua atividade nunca alcançou o prestígio da arquitetura e sempre foi confundida com arte decorativa, ou mera jardinagem. Sua obra, porém, transformou a fisionomia e, talvez a própria sensibilidade do povo carioca. O cronista Humberto Werneck cita um famoso escritor argentino que esteve no Rio de Janeiro em 1930 e afirmou que, apesar das praias, a cidade lhe parecia triste porque não tinha flores. “Dois milhões de habitantes e nenhum jardim, nenhuma flor!” – reclamava Roberto Arlt. Duas décadas depois disso, ainda faltava no Rio de Janeiro, um lugar como o Central Park de Nova York ou o parque Ibirapuera de São Paulo, ou seja, uma paisagem construída com plantas e flores, mas em escala monumental. 
Aquela foi a obra de uma vida e que até hoje não teve a distinção que merece. Instalado no aterro do Flamengo – que, aliás, é o maior do mundo – sua implantação foi contemporânea de Brasília e serviu de experimento para o modernismo nacional, contando com a colaboração de diversos artistas, como Roberto Burle Marx e Afonso Reidy. Outra questão colocada por Barreto, portanto, é o fato da cultura do país ser pautada por nosso esquálido mercado artístico, sem o necessário respaldo por parte da sociedade. Quando durante a ditadura, Lota pretendeu transformar a estrutura gestora do Parque do Flamengo em fundação, nos moldes das organizações sociais de hoje, foi demitida pelo governo militar.
Egressa do “primeiro mundo”, Elizabeth era, por outro lado, uma escritora de status proporcionalmente bem maior que o volume de sua produção. Ela chegou a dizer que não estava interessada num trabalho em larga escala, por não acreditar que algo precisasse ser grande para ser bom. Às vezes, ela demorava anos para terminar um poema. Curiosamente, coisa equivalente acontecia com Lota e seu Parque do Flamengo que é gigantesco e, no entanto, singular – dotado de uma impressionante unidade de estilo. Nesse sentido, ambas eram criadoras quase minimalistas, absolutamente distintas, mas igualmente dedicadas a um único trabalho. 
Atravessaram juntas as décadas de 1950 e 1960 e, portanto, viram nascer a bossa nova e viveram o Rio de Janeiro em seu momento mais esfuziante, circulando por lugares mágicos como Petrópolis e Ouro Preto. Duas mentalidades conflitantes, em trajetórias quase opostas e que, no entanto, se complementaram no campo da criação artística. Elizabeth não teria escrito os seus premiados livros sem o apoio afetivo e financeiro de Lota. E esta não obteria o estímulo que lhe deu Elizabeth, às vezes sob a forma de desafio, para concluir aquele imenso jardim do qual cuidava como se fosse um filho.
“Flores Raras” promove uma celebração à beleza, ao abrir espaço para a origem dessa obra de arte monumental que é o parque do Flamengo e para a feitura de pequenas filigranas verbais, como este poema que Bishop compôs sobre o xampu com que lavava cabelo da amada: “Em formação brilhante, para onde migram as estrelas cadentes em seu cabelo preto?” Além de simplesmente contar uma história, Barreto elabora signos cinematográficos de forte impacto, como a luz da lua capturada pelas altíssimas luminárias do Flamengo e o tanque de modelismo naval que povo da cidade transformou em campinho de futebol. Quem teve contato com essa mesma historia narrada no livro de Carmem Oliveira ou no teatro, num inesquecível monólogo de Regina Braga com direção de José Possi Neto, poderá ver o mesmo drama se transfigurando nessas diferentes linguagens. E perceber o talento de Bruno Barreto, que continua florescendo neste seu 19º filme. 

FLORES RARAS 
Brasil, 2013, 116 min., 14 anos
Distribuição: Imagem Filmes
estreia 16 08 2013
gênero drama/ história
Direção: Bruno Barreto
Com Miranda Otto, Gloria Pires e Tracy Middendorf
COTAÇÃO
* * * * *
EXCELENTE

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Confirmado: "Vendo ou Alugo" prova que existe vida inteligente na comédia brasileira!

Ao receber um dos 12 prêmios que ganhou no festival de Pernambuco, entre os 14 que estavam em competição, a diretora Betse de Paula agradeceu a Oscarito e Grande Otelo – ícones da chanchada, como que invocando um parentesco com aquela tradição que, na época foi combatida pelos críticos porém, mais tarde, reabilitada. Teve gente que estranhou, porque “Vendo ou Alugo” não é musical e nem carnavalesco – ainda que tenha um gingado de malandragem que ajuda a fazer o seu encanto. Uma irreverência ao comentar a sociedade atual que lembra o teatro de revista e antigos programas radiofônicos, como “Balança Mais não Cai”. Ou seja, o filme reproduz o tom e o espírito daquele tempo em que se fazia graça com coisas sérias, porque afinal, as melhores piadas são para isso mesmo. 
Natalia Timberg é a viúva arruinada de um embaixador e vive num casarão carioca que era de luxo em meados do século passado e agora faz divisa com uma favela ocupada pelo tráfico e uma unidade pacificadora. Sua filha Marieta Severo ainda é chique, mas sobrevive de organizar festas e outros expedientes. A única saída é vender ou alugar o imóvel, mesmo que ninguém o queira – a não ser um pastor que enriqueceu não se sabe como e um francês que explora o turismo de risco. O filme é dirigido pela talentosa meio carioca meio brasiliense irmã de Marcos Palmeira e produzido por Marisa Leão, que tem se mostrado vitoriosa em praticamente todas as iniciativas – desde épicos políticos dos anos de 1980, como “O Homem da capa preta” e os blockbusters cômicos da atualidade, como “De pernas pro ar”. 
Desta vez a ousadia de Marisa é enfrentar as evidentes dificuldades de uma comédia montada sobre o movediço terreno dos indicadores sociais contemporâneos – como a violência urbana, que inclui a chamada guerra contra o tráfico – e construída a partir de personagens extraídos diretamente do mundo real e que, mesmo assim, são capazes de provocar o riso de qualquer um. Esta é, aliás, a essência das tradicionais chanchadas dos anos 1940 e 1950 que Marisa Leão recupera neste projeto do qual, sabiamente, ela participa também como roteirista junto com a diretora, para focalizar com o máximo de humor e senso crítico as encrencas de uma família de quatro mulheres interpretadas por Marieta Severo e Sílvia Buarque (mãe e filha na vida real), além de Natália Timberg e a jovem Bia Morgana (filha da diretora na vida real). Ou seja, temos sim vida inteligente na comédia brasileira. 
VENDO OU ALUGO 

Brasil, 2012, 88 min, 14 anos
estreia 09 08 2013

Gênero comédia/ social

Distribuição: Europa Filmes
Direção Betse de Paula
Com Marieta Severo, Marcos Palmeira, Natália Timberg
COTAÇÃO

* * * * *

EXCELENTE

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Lançada em DVD uma caixa com os seis filmes do clássico japonês "Lobo Solitário"

Agora que está para chegar aos cinemas a nova aventura de Wolverine, o herói imortal da Marvel com uma história inteiramente ambientada no Japão, é lançada em DVD pela Versátil a série completa e inédita com os seis filmes do “Lobo Solitário” numa caixa com 3 discos. Essa série foi produzida nos anos de 1970 com roteiro do próprio Kazuo Koike, que escreveu para o magnífico traço de Goseki Kojima – desenhista desta que é uma das mais importantes obras de histórias em quadrinhos de toda a história dessa mídia. Trata-se da saga de um ronin, ou seja, um samurai sem mestre que se tornou assassino: um kozuri, tal como o Wolverine é também chamado no filme que vai estrear em breve. Esse gibi que já foi publicado no Brasil influenciou muita gente de cinema como Quentin Tarantino, Frank Miller e James Mangold, o diretor de Wolverine. 
Tudo se passa no Japão do século XVII, isto é, no chamado período Edo, quando o herói Itto Ogami tinha o cargo de kaishakunin, que quer dizer “o executor do imperador”, uma figura temida e odiada por quase todos os senhores feudais. Por meio de uma falsa denúncia de traição, um clã rival faz com que ele caia em desgraça. Assim, toda a sua família, inclusive a esposa é executada e, por isso, ele vagueia pelo país com seu filhinho recém-nascido, em busca de vingança. Outra boa notícia para os admiradores das artes marciais e da cultura japonesa é que, agora lá no Japão, já foi publicada uma nova revista com as peripécias do “Lobo Solitário”. Com o atual crescimento do consumo do mangá entre nós, espera-se que esse material chegue logo ao Brasil.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

“O Homem de Aço”, uma mega hiper produção de qualidade superlativa.

O Super Homem nasce novamente, agora sob o título de “O Homem de Aço”. Em 1938, quando isso aconteceu pela primeira vez, o universo dos quadrinhos já se achava habitado por alguns poucos heróis, como Flash Gordon, o Fantasma, Tarzan e Buck Rogers. Esse tipo de personagem da cultura popular era mais comum em outras mídias, ou seja, na literatura de massa, veiculada em banca de jornal (pulp fiction) e no rádio. Por exemplo, The Shadow (O Sombra), The Lone Ranger (O Zorro), Nick Carter, Doc Savage e Sherlock Holmes. Todos esses eram feitos somente de carne e osso, apesar de determinadas traços excepcionais de caráter. A surpresa veio com esse alienígena do bem que tinha raízes na mitologia clássica – muito mais forte que Hércules e invulnerável igual a Aquiles, que tinha um ponto fraco no calcanhar, assim como “O Homem de Aço” era susceptível à kriptonita. 
Outra novidade a foi a tremenda síntese operada nas escassas páginas da revista Action Comics em que Jerry Siegel e Joe Shuster narram a saga cósmica de um bebê que atravessa as galáxias porque seu planeta natal se destrói. Eles levaram cinco anos para vender esse projeto, porque os editores não acreditavam que fosse comercial. Com a 2ª Guerra, porém, o sucesso foi tanto que a revista chegou a fazer parte do equipamento usual dos soldados americanos. Agora, 75 anos e 91 filmes mais tarde, o Super Homem protagoniza talvez a mais elaborada e ambiciosa de todas as suas incursões no universo audiovisual. 
O diretor Zack Snider, de “Watchman” e o roteirista Christopher Nolan dos três últimos “Batman” mantiveram a estrutura básica da história, tal como foi publicada em 1938, mas ampliaram ao máximo as possibilidades narrativas que ela sugeria. A sequencia inicial em Kripton é um primor em termos de design e inventividade. Após o impacto da cena em que acompanhamos parto do filho de Jor-El (Russel Crowe) assistimos ao estabelecimento de uma trama política em que se defrontam a ética e o poder militar. Os pais do bebê chamado Kal-El, isto é, o futuro Super Homem lideravam uma espécie de aristocracia de cientistas e, quando o planeta implodiu, eles se achavam em conflito com um general rebelde que escapou do exílio e sai em perseguição do jovem Kriptoniano asilado na Terra. 
Com poderes idênticos ao Super Homem, esse chefe guerreiro precisa se apossar de algo que viera na nave-berçário junto com o recém-nascido e que garante o conflito do começo ao fim do filme. Já no gibi original, o herói era vulnerável apenas à kriptonita, que seria um mineral originário de seu planeta natal e cujo contato teria a capacidade de transforma-lo num indivíduo comum, desprovido de superpoderes. Essa é a base dramática que funciona como o ponto fraco do Super Homem, isto é a situação que poderá matá-lo, ou fortalecê-lo ainda mais. 
De todos os filmes baseados em figuras originárias dos quadrinhos, “O Homem de Aço” é um dos mais bem resolvidos, talvez, um dos melhores. Além do choque visual proporcionado por uma presença maior de personagens do planeta Kripton, temos uma carga afetiva mais intensa no relacionamento entre o herói e a repórter Louis Lane, o que reforça a sua identificação com o público.
O HOMEM DE AÇO 3D 
Man of Steel 
EUA – Reino Unido – Canadá – 2013 – 148 min.12 anos
Distribuição Warner
estreia 12 07 2013
gênero fantasia/ aventura
Direção Zack Snyder 
Com Henry Cavill, Amy Adams, Russel Crowe e Diane Lane
COTAÇÃO
*  *  **
ÓTIMO

quinta-feira, 11 de julho de 2013

“O cavaleiro Solitário”: cada vez mais jovem, um herói completa 80 anos de idade.

“O cavaleiro Solitário” se passa no Texas em 1869, quando se iniciou a construção da Primeira Ferrovia Transcontinental e tem como cenário a construção dessa histórica estrada de ferro que ligava o oeste ao leste já urbanizado. Um dos primeiros filmes rodados nos Estados Unidos, aliás, foi um curta-metragem de 11 minutos chamado “O Grande Roubo do Trem” (1904), mas, neste filme dirigido por Gore Verbinsky, temos provavelmente os mais movimentados, cômicos e surpreendentes assaltos a trem já filmados desde 1904.  
Ele se inicia em São Francisco no ano de 1933, quando o cartão postal da cidade que é a ponte Golden Gate ainda se achava em construção. Naquele ano, o rádio começava a transmitir o seriado The Lone Ranger, com as aventuras de um justiceiro mascarado que tinha como companheiro o índio Tonto e um cavalo branco chamado Silver e que, no Brasil, ganhou o nome de Zorro. Pouco tempo depois, ele passou a aparecer também nos quadrinhos, no cinema e, de lá, na televisão. 
Neste filme, tudo começa com um garoto vestido como o herói e que, num museu de cera, conversa com a estátua de um ancião comanche que não é outro senão Johnny Depp, justamente no papel de Tonto. Esse diálogo é o fio condutor da narrativa e parece assumir um sentido simbólico, ou seja, a imagem do menino fantasiado de caubói em contato com um velho índio pode representar a juventude americana, para quem os velhos mitos se renovam por meio do cinema. 
Essa passagem é apenas um exemplo da amplitude de ilações, ironias e significados múltiplos que “O cavaleiro Solitário” injeta em cada cena, dando-se ainda ao luxo de conceber momentos de movimentação feérica, por meio de ângulos tomados muitas vezes em escala monumental. Outra firula é criar situações de intimidade, de preferência em closes, encenadas num cenário freneticamente móvel, lembrado as comédias de Richard Lester (“Help!” – 1965). Por sua vez, a trilha sonora raramente humorada de Hans Zimmer enlouquece um pouco e se esbalda em caricaturas orquestrais. 
Sinal de inteligência ou prodigalidade, o roteiro nos oferece uma overdose de citações plásticas e musicais dos clássicos do faroeste e filmes de animação, além de tiradas espirituosas de todo o tipo – como as alusões a Dom Quixote e ao livro de cabeceira do herói que é “Dois Tratados sobre o Governo”, de John Locke. Acima de tudo, porém, Gore Verbinsky pega embalo na série “Piratas do Caribe” que ele fizera com Johnny Depp, carrega na comicidade e se lança numa paródia das paródias que ele mesmo já dirigira. Como o seu desenho animado “Rango” (Oscar de 2012) – ele mesmo uma referência às desgraças do “Coiote”, que Chuck Jones desenhava desde 1949. 
O CAVALEIRO SOLITÁRIO 

The Lone Ranger

EUA, 2013, 149 min, 14 anos
estreia 12 07 2013
faroeste/ aventura/ comédia
Distribuição Disney
Direção Gore Verbinski
Com Johnny Depp, Armie Hammer, Helena Bohan Carter
COTAÇÃO
* * * *
ÓTIMO

terça-feira, 9 de julho de 2013

Eichmann julgado e Arendt condenada em docudrama de Margareth von Trotta

Neste momento em que a opinião pública brasileira começa a se manifestar novamente, estreia um drama histórico muito útil para refletirmos sobre os diversos lados das questões políticas e sociais. Funciona como um alerta contra as atitudes políticas que não se originam do senso crítico, nem de uma ideologia específica, mas sim apenas do rancor e do preconceito. Trata-se de “Hannah Arendt”, a dramatização de um conflito vivido por essa pensadora que, durante a 2ª Guerra, fugiu de um campo de concentração para os Estados Unidos. A obra é dirigida com sensibilidade e precisão pela veterana Margarethe von Trotta, especialista em cinema político, ela que foi esposa de Volker Schlondorff e realizou o premiado "Os Anos de Chumbo" em 1981. 
No papel central, temos Barbara Sukowa, a atriz preferida de Rainer Werner Fassbinder e que trabalhou com ele em obras primas como “Berlin Alexander Platz” (1980), além de ter estrelado “Os Anos de Chumbo”. O que vemos aqui, portanto é uma espécie de renascimento do cinema sério na Alemanha, de quando os títulos mostravam coragem para encarar problemas graves como o que este aborda. Ou seja, a manifestação daquela heroína da filosofia política alemã (autora de “As Origens do Totalitarismo” – 1951) que possuía origem judaica e que teve a ousadia de enfrentar a quase totalidade do grupo religioso ao qual pertencia, ao cobrir o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann para a revista americana The New Yorker. 
Nos cinco artigos que publicou na ocasião, ela afirmava que nem todos aqueles que foram considerados responsáveis pelos crimes do nazismo eram pessoas malignas ou sanguinárias, mas em sua maioria, apenas fracas, covardes ou idiotas. Além disso, ela apontava a participação de alguns judeus que colaboram com holocausto de seu povo no tempo de Hitler. Foi o bastante para ser execrada pela maior parte de seu próprio povo, e até por seus melhores amigos, sem jamais ter mudado de posição. Nesse sentido, a trama aborda duas condenações: a de Arendt e a de Eichmann que, pelo menos aconteceu depois de um julgamento. O filme, além disso, aprofunda a controvertida amizade entre Hannah Arendt (1906 – 1975) e o filósofo Martin Heidegger, que caíra em desgraça por causa da simpatia para com os nazistas. Tema polêmico, num filme que merece ser visto e discutido.


HANNAH ARENDT 
Alemanha/França, 113 min, 14 anos
estreia 05 07 2013
gênero docudrama/ história/ política
Distribuição Europa Filmes
Direção Margarethe Von Trotta
Com Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer 
COTAÇÃO
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ÓTIMO