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sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Talento de Bruno Barreto continua vivo e florescendo em "Flores Raras"

Pelo corpo de “Flores Raras” passam questões levantadas há meio século e que continuam em discussão até hoje, na sociedade e no próprio cinema. No plano do social, prossegue em conflitado debate o tema das conexões entre política, mercado e cultura. Na estética cinematográfica, complica-se o problema do tratamento dramático dos acontecimentos históricos. Com direção de Bruno Barreto, o filme se baseia numa biografia da poeta americana Elizabeth Bishop, uma das mais importantes de toda a literatura em inglês. Ela que viveu por quase duas décadas no Brasil, entre o último governo de Getulio Vargas e o começo dos anos de 1970 e foi companheira de Lota Macedo Soares, a paisagista que, durante o governo de Carlos Lacerda, concebeu, criou e formou o Parque do Flamengo. 
Esta figura tão incomum na história brasileira, misto de socialite, mecenas e empreendedora, é interpretada com a costumeira segurança e competência por Glória Pires, enquanto o papel de Elizabeth fica para a australiana que fez a princesa guerreira Eowyn na série “O Senhor dos anéis” – Miranda Otto, num trabalho merecedor dos prêmios mais disputados, principalmente por ter evitado todos os possíveis truques e atalhos que poderiam conduzir a uma caricatura da personagem que, na realidade apresentava diversas facetas: uma americana, órfã, pobre, poeta talentosíssima que vivia de bolsas e prêmios literários, de saúde abalada por ser alérgica a quase tudo, alcoólatra, lésbica e linda. 
A representação de Miranda, no entanto, impressiona pela riqueza de recursos expressivos que utiliza, sempre discretamente, em baixa definição e enfatizando os contrastes, como por exemplo, entre recato e sensualidade, ou timidez e franqueza. Note-se como ela vai mudando de voz ao longo filme, à medida que o uísque começa a mexer com suas cordas vocais.
Celebrizado por sua direção em “Dona Flor e seus Dois Maridos” (1976), Bruno Barreto é o campeão histórico de bilheteria no Brasil e talvez agora tenha a oportunidade de dar à luz uma mulher tão marcante e viva quanto Sonia Braga esteve na pele de Dona Flor. Melhor dizendo, quem sabe ele possa realizar o que imaginara para a cantora Leniza, mas que Betty Faria, apesar de ter atuado ali na contracena de Odete Lara, não atingiu plenamente em “A Estrela Sobe” (1974): uma figura vitoriosa de mulher que vence não apesar de suas fragilidades, mas por causa delas. 
Tal como uma dessas “Flores Raras” do título, isto é, as personagens centrais – no bojo do filme e no momento histórico que ele nos recorta: duas pessoas diametralmente diferentes e que, no entanto, só se realizaram em resultado do que uma fez pela outra. Mais ou menos como seria num jogo de Isolda sobrevivendo a Tristão, e vice-versa. Eis aí uma dificuldade do “cinema histórico” que Barreto enfrentou bravamente: na vida real, os relacionamentos não se mostram assim tão lógicos, mas na ficção é preciso aquele mínimo de coerência para atribuir sentido à narrativa e evitar que os espectadores se aborreçam. Ou seja, quanto mais complexo, original, diferenciado (e ainda assim, plausível e emocionante) seja o relacionamento dos amantes protagonistas, mais próximo ele estará da chamada “vida real”. Então, vejamos...
Bishop escrevia relativamente pouco, em termos de quantidade, e também não tinha uma legião de leitores, mas recebeu alguns dos prêmios internacionalmente mais significativos em sua época. Na qualidade de paisagista, por sua vez, Lota não foi reconhecida como alguns de seus colegas brasileiros, inclusive porque sua atividade nunca alcançou o prestígio da arquitetura e sempre foi confundida com arte decorativa, ou mera jardinagem. Sua obra, porém, transformou a fisionomia e, talvez a própria sensibilidade do povo carioca. O cronista Humberto Werneck cita um famoso escritor argentino que esteve no Rio de Janeiro em 1930 e afirmou que, apesar das praias, a cidade lhe parecia triste porque não tinha flores. “Dois milhões de habitantes e nenhum jardim, nenhuma flor!” – reclamava Roberto Arlt. Duas décadas depois disso, ainda faltava no Rio de Janeiro, um lugar como o Central Park de Nova York ou o parque Ibirapuera de São Paulo, ou seja, uma paisagem construída com plantas e flores, mas em escala monumental. 
Aquela foi a obra de uma vida e que até hoje não teve a distinção que merece. Instalado no aterro do Flamengo que, aliás, é o maior do mundo sua implantação foi contemporânea de Brasília e serviu de experimento para o modernismo nacional, contando com a colaboração de diversos artistas, como Roberto Burle Marx e Afonso Reidy. Outra questão colocada por Barreto, portanto, é o fato da cultura do país ser pautada por nosso esquálido mercado artístico, sem o necessário respaldo por parte da sociedade. Quando durante a ditadura, Lota pretendeu transformar a estrutura gestora do Parque do Flamengo em fundação, nos moldes das organizações sociais de hoje, foi demitida pelo governo militar.
Egressa do “primeiro mundo”, Elizabeth era, por outro lado, uma escritora de status proporcionalmente bem maior que o volume de sua produção. Ela chegou a dizer que não estava interessada num trabalho em larga escala, por não acreditar que algo precisasse ser grande para ser bom. Às vezes, ela demorava anos para terminar um poema. Curiosamente, coisa equivalente acontecia com Lota e seu Parque do Flamengo que é gigantesco e, no entanto, singular – dotado de uma impressionante unidade de estilo. Nesse sentido, ambas eram criadoras quase minimalistas, absolutamente distintas, mas igualmente dedicadas a um único trabalho. 
Atravessaram juntas as décadas de 1950 e 1960 e, portanto, viram nascer a bossa nova e viveram o Rio de Janeiro em seu momento mais esfuziante, circulando por lugares mágicos como Petrópolis e Ouro Preto. Duas mentalidades conflitantes, em trajetórias quase opostas e que, no entanto, se complementaram no campo da criação artística. Elizabeth não teria escrito os seus premiados livros sem o apoio afetivo e financeiro de Lota. E esta não obteria o estímulo que lhe deu Elizabeth, às vezes sob a forma de desafio, para concluir aquele imenso jardim do qual cuidava como se fosse um filho.
“Flores Raras” promove uma celebração à beleza, ao abrir espaço para a origem dessa obra de arte monumental que é o parque do Flamengo e para a feitura de pequenas filigranas verbais, como este poema que Bishop compôs sobre o xampu com que lavava cabelo da amada: “Em formação brilhante, para onde migram as estrelas cadentes em seu cabelo preto?” Além de simplesmente contar uma história, Barreto elabora signos cinematográficos de forte impacto, como a luz da lua capturada pelas altíssimas luminárias do Flamengo e o tanque de modelismo naval que povo da cidade transformou em campinho de futebol. Quem teve contato com essa mesma historia narrada no livro de Carmem Oliveira ou no teatro, num inesquecível monólogo de Regina Braga com direção de José Possi Neto, poderá ver o mesmo drama se transfigurando nessas diferentes linguagens. E perceber o talento de Bruno Barreto, que continua florescendo neste seu 19º filme. 

FLORES RARAS 
Brasil, 2013, 116 min., 14 anos
Distribuição: Imagem Filmes
estreia 16 08 2013
gênero drama/ história
Direção: Bruno Barreto
Com Miranda Otto, Gloria Pires e Tracy Middendorf
COTAÇÃO
* * * * *
EXCELENTE

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