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quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Arnaldo Jabor regressa ao cinema em alto estilo, com "A Suprema Felicidade"

Após cerca de 20 anos de espera, “A Suprema Felicidade” marca o retorno de Arnaldo Jabor − o cineasta que nos deu alegrias como “Toda a Nudez Será castigada” (1973). A história do filme que estréia agora se inicia em 1945 e se encerra em 1961, abrangendo, portanto, o período entre o fim da 2ª Guerra e os últimos momentos do governo JK. Algumas pessoas já apontaram ligações entre este filme e o “Amarcord” (1973) de Fellini ou o “Baaría” (2009) de Tornatore. Nota-se um parentesco mais concreto, porém, com “Foi Apenas um Sonho” (2008), de Sam Mendes, que se aprofunda nas contradições daquele período.
Os personagens centrais formam uma família carioca de classe média, naquele período em que euforia libertária proporcionada pela derrota do nazi-fascismo era gradativamente sufocada pelo provincianismo do país – “sub-desenvolvido”, como então se dizia. O pai, um capitão da Força Aérea e a mãe uma moça cujos sonhos moldados pelo cinema americano são esmagados pela aridez de um casamento típico da época. Ou seja, ao marido provedor cabiam todos os direitos e à esposa, de prendas domésticas em tempo integral, todos os deveres. Mas o protagonista é o filho, que chega à adolescência em 1950.
O essencial do folclore juvenil da época está ali: as absurdas aulas de religião e seus padres caricatos, os livros de medicina usados como revistas pornográficas e a imaginação alimentada pelos programas de rádio. Como alternativa à mediocridade familiar, surge a figura do avô Noel, magnificamente trabalhada por Marco Nanini. De fato, esse tipo sugere alguém parecido com o próprio compositor (Noel Rosa), se ele não tivesse morrido em 1937.
O roteiro de “A Suprema Felicidade” não segue um encaminhamento linear e se compõe de quadros relativamente autônomos, em termos de estilo e narrativa. A aula de educação sexual do padre Ary Fontoura, por exemplo, não tem ligação dramática com as piadas eróticas do pipoqueiro João Miguel. Mas o contraste entre a comicidade dessas cenas ajuda a erguer um painel psicológico e cultural daquele tempo. Deste quadro fazem parte aspectos que o filme descreve quase sem diálogos. Como a melancolia despertada pelo pregão do homem que comprava jornais velhos; o nojo de beijar a mão do padre; a tristeza de ver o melhor amigo optando pela homossexualidade; o constrangimento diário de presenciar os pais eternamente brigando; o terror e o fascínio proporcionado pelo prostíbulo onde se fazia a iniciação sexual.
E aqui acontece uma curiosa coincidência entre a passagem em que os garotos fogem do bordel sem pagar e outra, de idêntico significado, no filme “As Melhores Coisas do Mundo” (2010) de Laís Bodanzky. Essa semelhança serve, porém, para enfatizar o fato de que Jabor não está aqui preocupado em reconstituir este retrato de época de um modo naturalista. Estes bocados de realidade, os olhares sobre aquele passado, que é dele e de toda uma geração de brasileiros, se articulam por meio do sentimento. Ou seja, desse caldo de lembranças emergem mais símbolos e imagens emocionais do que fatos históricos propriamente ditos. Assim, a moça virgem que se despe num cabaré exprime a fantasia romântica da flor que nasce no lodo − uma constante no imaginário dos sambas-canções e novelas de rádio.
Tanto o funcionário público que freqüenta rodas de choro para não enlouquecer quanto a beldade maluca que se esconde num casarão em ruínas representam fantasmas de um tempo que se recusa a passar na mente do poeta. Por isso, as imagens que o filme elabora com mais esmero são justamente as de caráter explicitamente musical e alegórico − como a dionisíaca irrupção do carnaval na monotonia de um bairro carioca; o tenebroso caldeirão de erotismo, loucura e violência na sequência do mangue; e o deslumbrante encerramento, com Marco Nanini dançando pra não cair morto: no papel de um Noel Rosa que insiste em não sair de cena, ele representa um país se equilibrando precariamente entre os enganos do passado e as ilusões do futuro. Só por essa cena, ator e diretor merecem aquele prêmio, secreto e intangível, da lágrima enxugada disfarçadamente no rosto do espectador, antes que se acendam as luzes do cinema
A SUPREMA FELICIDADE
Brasil - 2010 – 125 min. - 16 anos
estreia 29 10 2010
Gênero Drama / história / autobiografia
Distribuição Paramount
Direção Arnaldo Jabor
Com Jayme Matarazzo, Marco Nanini,
Elke Maravilha, Dan Stulbach,
João Miguel Ary Fontoura
COTAÇÃO
* * * *
ÓTIMO

Um comentário:

Danielle disse...

Oi, Luciano!

Ah, eu também adorei esse filme (confesso que muito, muito mais que o Baaria, o qual, para te dizer a verdade, pouco entendi)! Eu tava precisando ver um filme assim bonito.

Duas semanas sem aula, e justo dessa disciplina que estou curtindo tanto! Eu estou começando a ficar preocupada - vamos ter de repor até janeiro (:D).

Bj e até quinta
Dani