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sexta-feira, 6 de agosto de 2010

"A Origem” derruba as barreiras entre os filmes de arte, o cinema de ação e o vídeo-game

Primeiro, o inglês Christopher Nolan ganhou notoriedade com dois thrillers que todos se apressaram em aplaudir como “filmes de arte” desabrochando no solo esteticamente estéril de Hollywood: “Amnésia” (2000) e “Insônia” (2002). Depois, vieram os filmes de Batman (“Batman Begins” – 2005, e “O Cavaleiro das Trevas” – 2008), que lhe trouxerem prestígio nos meios culturais e influência entre os executivos da indústria. Agora, ultrapassada essa década de crescimento, ele amadurece e nos apresenta “A Origem”, novamente um filme autoral, como os do início da carreira. Só que dotado de um orçamento que lhe permitiu quase tudo, em termos de elenco, recursos de produção e, principalmente, liberdade para filmar a história que bem entendesse.
Ele reúne astros situados no topo da lista, como Leonardo DiCaprio e Marion Cottilard, a outros que estão chegando lá, como Ken Watanabe (“Cartas de Iwo Jima”), Ellen Page (“Juno”) e Cillian Murphy (“Extermínio”), e alguns já praticamente remidos, como Michael Caine e Tom Berenger para filmar um projeto absolutamente pessoal. Um tipo de experiência que Luis Buñuel (“Um Cão Andaluz” – 1928) e os surrealistas ousaram praticar, com os recursos mínimos dos anos 1920. E que os metafísicos, na linha de Alain Resnais (“O Ano Passado em Marienbad” – 1961) e Wojciech Has (“Os Manuscrito de Saragoça” – 1965) deram continuidade, já movidos pela ousadia tornada obrigatória nos anos 1960.
Trata-se de transformar em cinema a diáfana e intangível matéria dos sonhos. No trailer do filme, o personagem de Leonardo DiCaprio explica a sua atividade de modo aparentemente simples: ele é um especialista em se infiltrar na mente das pessoas e invadir seus sonhos, como quem penetra numa festa sem ser convidado. Mas ao longo do roteiro escrito pelo próprio Nolan, tudo vai ficando cada vez mais complicado à medida que as pessoas participam dos sonhos das outras, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.
Inútil buscar uma lógica para esse procedimento que, para o protagonista e seus comparsas, é corriqueiro – desde que tenham em mãos determinados produtos químicos e uma misteriosa engenhoca que mantém um conjunto de sonhadores plugados num único devaneio. Somente depois que entendemos ou − com a ajuda de impressionantes efeitos de computação gráfica − julgamos entender a mecânica dos sonhos partilhados, se inicia o núcleo do filme que acontece durante uma viagem de avião entre a Europa e os Estados Unidos.
Durante esse percurso, os personagens vivem um sonho que se manifesta dentro de outro sonho e que, por sua vez, os conduz a uma terceira camada de sonhos. Nesse contexto totalmente onírico, eles vivem peripécias das mais mirabolantes, enfrentando centenas de inimigos em perseguições de automóveis e tiroteios que lembram imediatamente a frenética ação dos vídeo-games, em que a regra básica é atirar nos sempre anônimos oponentes, no ritmo em que eles forem aparecendo. E, assim, ir passando de um “nível” do jogo para outro que, afinal, é experimentado como um fim em si mesmo. Independente do enredo central que, de resto se mostra totalmente integrado à tradição do cinema hollywoodiano, temos a sensação de participar de um longo discurso sobre a vida virtual.
O motivo principal desse herói visceralmente americano é reconstituir a família desintegrada e juntar-se aos filhos. Mas a trama vai se revelando sempre mais falsa e vazia, na medida em que se complica nas peripécias e batalhas incessantes que, no plano do real, só existem na cabeça de um grupo de viajantes dormindo nas poltronas de um avião. Nesse ponto, saltamos de volta para 1880, quando Gustave Flaubert concluía o irônico e demolidor “Bouvard e Pécuchet”, que mais tarde seria considerado o romance fundador do modernismo e precursor dos estudos semióticos. Nele, a narrativa também se esgarçava e questionava a si mesma, enquanto seus personagens experimentavam a novidade de uma vida vicária, ou seja, virtual. Um dia, os amigos Bouvard e Pécuchet se encontram numa estação, com o objetivo de viajar para outro país. Mas em seguida desistem de embarcar, ao concluir que nenhum trajeto seria tão interessante quanto aquele com o qual eles já tinham sonhado. Nenhum sentido ou aprendizado poderia resultar de qualquer de seus deslocamentos pelo espaço. Ou seja, conduzidos por Christopher Nolan, estamos novamente regressando ao princípio, à “Origem” de tudo o que vem acontecendo com a cultura ocidental desde o fim do século 19.
A ORIGEM
Inception
Estreia 06 08 2010
EUA / Reino Unido 2010 – 148 min. 14 anos
Gênero Ação / fantasia
Distribuição Warner Bros.
Direção Christopher Nolan
Com Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard,
Ellen Page, Ken Watanabe, Cillian Murphy
COTAÇÃO
* * * *
Ó T I M O

3 comentários:

pseudo-autor disse...

Foi feliz na escolha do elenco, na montagem do roteiro, na execução do trabalho. Realmente ótimo! E os fãs, lógico, já no aguardo do Batman 3.

Cultura na veia:
http://culturaexmachina.blogspot.com

SECJ disse...

Olá Luciano. Gostaria de entrar em contato com você para falar sobre uma de suas fotografias, que gostaríamos de usar numa publicação da instituição em que trabalho. Aguardo seu email.
Obrigada, Heloisa Sanfelice

Matheus de Arruda Jesus disse...

Parabéns pelo texto Luciano.
Também escrevi um texto sobre esse filme no meu blog, se puderem pessoal acessem, o link é: http://leituradecinema.blogspot.com/. Se possível, sigam. Obrigado. Abraços à todos.