skip to main |
skip to sidebar
Encontre o que precisa buscando por aqui. Por exemplo: digite o título do filme que quer pesquisar
A região de Timbuktu ocupa os jornais de hoje, na qualidade de lugar cujo nome sugere poesia, mas a realidade o situa pra lá de Bagdá. Ou seja, em pleno território reclamado pelo EI. Inclusive por esse motivo, o púbico paulista amante do
cinema não deve perder, ou melhor, tem o dever de assistir o filme "Timbuktu". Depois de
concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro, esta coprodução da França e da
Mauritânia acaba de vencer o Cesar, que é o "Oscar do cinema francês". Levou 7
prêmios, incluindo melhor filme, roteiro e direção para Abderrahmame Sissako, um cineasta de 54
anos, natural do Mali e formado em Moscou.
https://www.youtube.com/watch?v=CspcDYQ-SiY
O filme e indiscutivelmente uma jóia, não só em termos de denúncia contra a
violação de direitos humanos, como um manifesto poético em defesa de uma cultura
milenar e ameaçada de extinção por conta da ocupação pelos jihadistas. A região vem
sendo atacada pelos fundamentalistas desde 2012 que, desde então, vem
destruindo monumentos históricos considerados patrimônio da humanidade. Muito
antes, portanto, do que o vandalismo que se noticia atualmente o Iraque
Timbuktu é uma região do Mali bem próxima ao deserto do Saara e habitada por
tribos de tuaregues já islamizados. O filme focaliza o momento em que
jihadistas controlam um vilarejo e impõe sua autoridade por meio do terror. As
mulheres precisam trabalhar de burca e luvas, inclusive as que vendem peixes no
mercado. O povo está proibido de fumar, de tocar ou de ouvir música, e até
mesmo sorrir em público. Até jogar futebol é considerado um pecado grave.
https://www.youtube.com/watch?v=Jd8SGBqLhoc
Uma cena antológica que atesta o talento do diretor Sissako mostra um grupo de
rapazes se movimentando como se estivessem jogando uma partida, mas... sem
bola. Trata-se de um filme que merece ser visto, até porque apesar de todas
essas qualidades, está em cartaz em apenas uma sala na cidade,
https://www.youtube.com/watch?v=gAGydP0ICLg
As primeiras imagens do pernambucano “A História da Eternidade”
reforçam o paradoxo contido no título, ou seja, o que é histórico não pode ser
eterno. O autor Claudio Cavalcante focaliza um enterro e o mostra do começo ao
fim, desde que o cortejo entra em quadro e até a derradeira pá de terra ser
lançada sobre o caixão. Ali nada há o que contar. Nenhuma história, apenas o
inevitável retorno da matéria viva ao pó da terra.
https://www.youtube.com/watch?v=8TEuLkC7I68
Quando a lente revela a máscara de dor de Marcélia Cartaxo, porem
surge a certeza de que há de fato uma ou várias histórias para acontecer naquele
fim de mundo nordestino. Um lugar em tudo semelhante à desolação da paisagem
escolhida para ambientar “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. O clássico de
Glauber Rocha, inclusive é citado por tabela, neste filme em que o sertão,
literalmente, se transforma no mar.
https://www.youtube.com/watch?v=GJzXp1ql0rc
O principal e mais contundente conflito do roteiro não acontece entre as
classes sociais, mas entre dois irmãos, ou seja, entre o vaqueiro tosco e
amargurado e um artista frenético que não se deixa abater nem pela miséria mais
extrema. Esses são os papéis que Claudio Jaborandy e Irandhir Santos
desempenham, com garra e precisão.
https://www.youtube.com/watch?v=w8TlznTbbQ4
Do outro lado da praça, aliás a única da vila, por meio da
sanfona, um cego se declara a uma mulher ainda incapaz de enxergar a força
daquele amor. A fotografia de Beto Martins se junta à inspiradíssima música do imortal
Dominguinhos e do polonês Zbigniew Preisner, para transformar aquela aridez em
poesia pura.
https://www.youtube.com/watch?v=f6Gb1c8tIqk
“A História da Eternidade” abre uma nova vertente no cinema brasileiro,
agora tão sobrecarregado de comédias chulas e épicos sanguinolentos. Ou melhor,
uma vereda atemporal, já trilhada por tantos outros cineastas brasileiros – de
Mario Peixoto a Joel Pizini. É o retorno ao chamado “cinema de poesia”, tal
como foi definido por Pier Paolo Pasolini. Para saud-alo nada como os acordes
eternos d Dominguinhos.
https://www.youtube.com/watch?v=w8TlznTbbQ4
Nesta
semana, é possível admirar o trabalho de Juliane Moore em três filmes
absolutamente diversos: o drama realista e de certa forma exemplar, que é “Para sempre Alice”, filme que deu
a ela o Oscar de melhor atriz. E o conto de fadas “O Sétimo Filho”, no qual ela
interpreta uma bruxa má – muito mais inquietante e ambígua do que aquela outra
criada por Angelina Jolie em “Malévola”. Na foto ela contracena com Robert Pattinson no filme "Mapas para as Estrelas", de David Cronenberg.
Em “Para sempre Alice”, assistimos às mudanças gradativas e radicais no comportamento e na
aparência de uma intelectual que desenvolve precocemente o mal de Alzheimer.
Para isso, ela deve ter empregado as técnicas de atuação propostas por
Stanislavski e que, desde os anos de 1930, representam o feijão com arroz da
arte dramática posterior ao Actors Studio. De modo simplificado trata-se de
internalizar os conflitos do personagem para que eles se manifestem, digamos...
naturalmente no corpo do ator.
Já no papel de bruxa, com a figura talhada pela maquiagem e
outros efeitos especiais, ela se mostra ora decrépita e monstruosa, ora
escultural e sedutora. Para exercer esse papel duplo, ela utiliza recursos
exteriores ao seu próprio psiquismo, trabalhando na linha dos chamados
“intérpretes característicos” de Hollywood – como, por exemplo, Lon Chaney que
fez “O Corcunda de Notre Dame” e “O Fantasma da Ópera”. 
A partir deste semana, porém, ela estará mostrando uma terceira faceta de
sua arte, no filme “Mapas para as Estrelas” de David Cronemberg. No papel de
uma estrela de cinema neurótica e amoral, Juliane exercita a paródia e uma
caricatura da sua profissão. Critica a sua própria construção da personagem,
por meio daquilo que Bertolt Brecht chamava de “afastamento”, ou seja, um
trabalho capaz de impedir, ou pelo menos, dificultar a identificação afetiva
entre ela e o público.
Parabéns a essa atriz que, aos 55 anos, continua desabrochando em seu ofício.

Aproveitamos o sorriso de José Wilker para retomar, com o máximo de alegria, a atividade deste blog endereçado aos que são, como ele era, amantes do cinema.
O trabalho na Rádio e na TV Cultura, que mantive enquanto concluía a minha tese de doutorado na Unicamp, explica porque fui levado a interromper a edição regular do blog "Cinema Falado". Felizmente, a partir de hoje ele foi reativado, com uma matéria sobre os filmes que estreiam nesta semana. Caso raro neste período, são lançados quatro títulos nacionais. Mas não se trata de uma luz no fim do túnel, porque ao mesmo tempo outros sete estrangeiros chegam aos cinemas. Entre eles o medíocre blockbuster "Insurgente", que deverá atrair milhares de incautos. Abrindo espaço para experiências amadorísticas como "Branco Sai Preto Fica" (na foto abaixo), alguns colegas da mídia impressa alimentam a ilusão de que esse cinema auto-denominado "alternativo" e "questionador" venha a atrair a atenção do grande público, apenas por ser exibido no circuito comercial. Obras muitíssimo mais importantes, como "O Som ao Redor" e "A Historia da Eternidade" permanecem praticamente ignoradas. Esses quatro filmes novos nacionais também são comentados na página seguinte. A imagem que abre esta nota mostra a alegria de José Wilker em "O Duelo", o seu derradeiro trabalho no cinema. A ele, todo o nosso respeito por ter lutado pelo cinema brasileiro da melhor forma que lhe foi possível.

Nesta semana são lançados quatro filmes brasileiros,
mas, infelizmente dotados de poucos pontos positivos. Digo isso apesar da competência
dos atores e dos técnicos que trabalharam neles e que, visivelmente, se
esforçaram para fazer o melhor possível. Já pronto desde 2012, Meus dois Amores
é uma comédia regional e de época baseada em conto de Guimarães Rosa. Foi
produzida pela Globo Filmes, com um elenco de primeira, que inclui Lima Duarte,
Alexandre Borges, Caio Blat e Maria Flor. Toda falada em sotaque do interior de
Minas, a trama é de difícil entendimento, principalmente pela fragilidade do
roteiro que mistura tramas confusas e inconsistentes.
Na pele de um coronel, Lima Duarte está perfeito. Aliás, ele estaria bem, mesmo
que não lhe dessem personagem algum. Por outro lado, Guilherme Weber e Milton
Gonçalves se acham completamente deslocados. O pior é que um dos dois amores do
protagonista Caio Blat é Maria Flor, enquanto o outro é uma mula, com a qual
ele dorme toda noite... de conchinha
Decepção maior ainda é O Duelo, com
direção de Marcos Jorge que, em 2007 nos deu o excelente Estomago. O roteiro se baseia no livro “Velhos Marinheiros” de Jorge
Amado e traz o habilidoso ator português Joaquim De
Almeida, além de Jose Wilker e Claudia Raia. Nenhum deles está bem, porque faltou
o mais importante: roteiro e cuidado de produção. 
Não há unidade nos figurinos e nem na ambientação de época. O livro foi escrito
em 1961, a partir de referências que Jorge Amado trazia de muito antes. Mas
tudo se passa num presente totalmente implausível. Verdadeiramente uma pena
pelo desperdício de talentos.

Insubordinados é um trabalho de Edu
Felistoque e da atriz Silvia Lourenço, colaborando aqui também como roteirista,
filmado em elegante branco e preto. Na verdade esse longa é uma remontagem de
trechos do seriado “Bipolar”, do mesmo diretor e já exibido na televisão. Na verdade acrescentou-se a trechos de capítulos da série, um material filmado posteriormente
e criado por Silvia Lourenço. Essas novas imagens contam uma pequena história
dentro da qual se encaixa a ação contida no episódio
. 
Uma tenente da PM interpretada pela Silvia vem passando as noites num hospital,
onde seu pai se acha em estado de coma. Com o objetivo de passar melhor o
tempo, ela começa a escrever um livro policial que corresponde exatamente às
peripécias centrais do seriado. (foto abaixo)
O problema, porém, é o vazio que habita essa sequencia da moça que escreve um
texto de ficção, enquanto aguarda a morte do pai. Nessa espera nada acontece de
interessante e a vemos vagando pelos corredores, batendo papo com o faxineiro e
conversando com a médica sobre o texto em processo de elaboração. Poderia ser
uma experiência estética de confronto entre dois discursos ficcionais. Mas tudo
não passa de tempo perdido.

Para facilitar a produção, mas dificultado a clareza da narrativa, a atriz Silvia
Lourenço desenvolve dois personagens neste Insubordinados.
Com cabelos longos, ela faz a tenente que é escritora nas horas vagas. Já de
cabelos curtos, ela interpreta uma delegada especialmente agressiva,
acompanhada por dois parceiros não menos violentos. Para complicar, a líder
dessa equipe policial é interpretada por Priscila Alpha (foto acima) -- aliás, a mesma atriz
que faz o papel da médica que atende o pai da Silvia, na outra história. Deu
pra entender?
Branco Sai, Preto Fica foi o mais
importante vencedor do Festival de Brasília de 2014, onde – além de melhor
filme, arrebatou outros 10 prêmios. Se alguém estiver achando esse resultado um
exagero, acertou. Mesmo que, naquela competição os de ficção filmes apresentassem
uma qualidade muito baixa. Tanto assim, que o júri popular escolheu como melhor
filme o documentário Sem Pena, sobre
o nosso sistema carcerário.

É possível que a comissão julgadora tenha se impressionado pelo fato do filme
ter sido feito por um coletivo recrutado em Ceilândia, uma das cidades satélite
do Distrito Federal. Ou seja, trata-se de uma produção em cooperativa, na qual
não houve financiamento. Ao contrário, os associados cuidaram eles mesmos da
sua feitura e realizaram uma vaquinha para pagar os serviços técnicos mais complicados.

O diretor e líder dessa associação é Adirley Queirós (foto acima). Dos
16 aos 25 anos, ele foi jogador de futebol profissional, mas estudou cinema na
Universidade de Brasília, onde se formou há 10 anos. Branco Sai, Preto Fica é um filme ficcional que poderia ser
considerado como de ficção científica, porque fala de um rapaz que foi baleado
num baile funk e que volta ao passado para investigar o crime.

O roteiro poderia ter sido um justificado filme de protesto contra os problemas
urbanos na periferia do DF que, aliás, não devem ser poucos. Mas resultou numa
espécie de brado de guerra de Ceilândia contra Brasília – retratada como o
antro da burguesia branca e opressora e que mereceria ser eliminada por meio de
uma bomba. Pior do que essa postura ofensiva, que escandalizou muitos artistas
e intelectuais brasilienses, a maior parte do filme é mesmo rudimentar e no
fundo só interessa a quem o fez.
Como a maioria
dos filmes do canadense David Cronemberg, Mapas
para as Estrelas provoca impacto. Do elenco participam o veterano John Cusack e os
jovens astros Mia Wasikowska e Robert Pattinson, além dessa atriz que vemos também em cartaz na cidade em Para Sempre Alice e O Sétimo Filho. Juliane Moore não é a protagonista do filme, mas é
a personagem mais emblemática deste drama que tem como tema o desvario, a
insanidade social e psíquica que domina aquele lugar.

Hollywood é a sede de uma indústria em que as pessoas são meros insumos na produção
de mercadorias. Gente de carne e osso que está para os filmes assim como os
chips estão para os computadores fabricados no Vale do Silício.

Atualmente a cidade anda mais comportada, mas os escândalos de Hollywood já renderam
milhares de páginas em jornais sensacionalistas. Isso desde os anos 1930. Por exemplo,
com os processos judiciais contra Chaplin, o produtor Paul Bern que se matou
por ciúmes de Jean Harlow, o assassinato de Natalie Wood pelo marido Robert
Wagner (foto abaixo) e o misterioso enforcamento de David Carradine – só pra citar alguns casos,
em centenas de ocorrências escabrosas. 
O núcleo do enredo de Mapas para as
Estrelas é uma família de celebridades hollywoodianas em que o filho de 13
anos é um astro de filmes para adolescentes que já consome drogas pesadas e enfrenta
a própria decadência no sistema de estrelas. Já o pai é uma espécie de guru dos
artistas, alguém que ganha dinheiro explorando as suas neuroses e fobias. As
coisas se complicam quando a filha -- incendiária sai do hospício e tenta
voltar para casa que ela tinha tentado queimar alguns anos antes. Em suma,
Cronemberg nos revela o lado B do cinema americano.

Novamente, o mercado de cinema pega
fogo, oferecendo uma quantidade de lançamentos bem maior do que ele é capaz de
absorver. Alguns títulos, portanto, estão desde já fadados ao esquecimento.
Principalmente quando um novo blockbuster desponta no horizonte das estreias.
Da serie Divergente, temos o segundo
episódio, chamado Insurgente. Essa é
uma série de ficção científica especialmente banal, requentando mais uma vez a
temática de “O Admirável Mundo Novo”, apresentada por Aldous Huxley há 83 anos.
É também dirigida pelo alemão Robert Schwentke, que era considerado um
profissional promissor, antes de entrar nessa linha de produção.
No extremo oposto, temos uma amostra atual do cinema alemão de verdade. É o
elegante docudrama histórico Duas Irmãs, Uma Paixão – que vem a ser Friedrich Schiller que, ao lado de
Goethe, foi o maior escritor da
Alemanha do século XVIII. Quem
dirige é o veterano Dominik
Graf -- um dos mais premiados do cinema germânico 
A mais atraente estreia da semana, no
entanto, é Mapas para as Estrelas, outra
obra impactante de David Cronenberg. O elenco tem Mia Wasikowska, John
Cusack e Robert Pattinson. Porém, a grande figura é Juliane Moore em mais uma
atuação memorável que, aliás, já mencionamos na semana passada. Trata-se de uma
fábula cruel sobre o universo hollywoodiano, a partir ótica dos extravagantes conflitos
entre artistas, agentes e diretores de cinema. Conflitos que podem ser
sangrentos e mortais, como eram aqueles do velho oeste. 
Por falar em faroeste, outra indicação é Divida De Honra: um filme pequeno, mas muito interessante, dirigido
e protagonizado por Tommy Lee Jones que,
em 1993 ganhou, o Oscar de coadjuvante por O
Fugitivo. É um western muito
original em que Hillary Swank tenta levar de volta para casa três mulheres de
pioneiros que enlouqueceram no oeste. Em 2014, este filme concorreu à Palma de
Ouro em Cannes. 
Temos ainda una comédia romântica, inglesa e bem picante. Simplesmente Acontece conta a historia
de um jovem casal que se conhece, namora e briga desde os 5 anos de idade. Há também Eden -- um docudrama sobre
Paul Valée, um DJ francês que criou a música eletrônica continental na década
de 1990. Além desses 7 também estreiam quatro filmes brasileiros. Essa versão de Lenine
para a canção de Milton Nascimento é uma das coisas boas que um deles, o Meus dois Amores oferece. Os outros três
são O Duelo, Insubordinados e Branco sai,
preto fica.