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sexta-feira, 13 de abril de 2012

Adeus, Festival de Cinema de Paulínia...

A prefeitura de Paulínia extinguiu o seu Festival de Cinema que, apesar de uma curta carreira, já tinha se colocado entre os cinco mais importantes do país, ao lado dos de Brasília, Gramado, Pernambuco e Ceará. A esfarrapada desculpa é a necessidade de priorizar projetos sociais da cidade − como se Paulínia, com sua refinaria, não fosse um dos municípios mais ricos do Brasil. Há, no entanto, a esperança de que Edson Moura, o principal concorrente do prefeito José Pavan Junior o derrote nas próximas eleições e ressuscite o Festival. Porque foi Moura, quando foi prefeito na gestão anterior, quem criou o pólo de produção e o Festival de Cinema da cidade. Pavan afirmou que Paulínia continuará a apoiar e investir nos longas e curtas produzidos no Polo Cinematográfico. Mas, segundo nosso colega João Nunes, “o edital de 2011 (que deveria ter sido anunciado no final de 2010) não saiu, assim como o de 2012 (que deveria ter sido anunciado no final do ano passado). O de curtas vai completar dois anos em julho. Nenhum deles saiu. O prefeito repete o que tem dito desde então: ’Vão sair o mais breve possível’. Ou seja, não vão sair. Ainda tem filmes do edital de 2010 sendo feitos aqui. Agora, isso tudo pode mudar caso ele perca as eleições”. Ocorre, porém, que essa atitude foi francamente eleitoreira porque a prefeitura de Paulínia alega que “os cerca de R$ 10 milhões que seriam investidos no Festival de Cinema, serão direcionadas para os trabalhos realizados na área social, como, construção de novas escolas, casas, saúde e nos programas do meio ambiente”. Toda a comunidade do cinema brasileiro lamenta dolorosamente o ocorrido, em especial os críticos, como ficou registrado na Carta Aberta ao Prefeito, enviada há pouco pelo presidente da Associação Brasileira dos Críticos de Cinema, a ABRACCINE.

Carta aberta da Abraccine ao Prefeito de Paulínia
A Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) recebe com muito pesar o comunicado de que o Festival de Cinema de Paulínia não será realizado este ano. A nota do prefeito José Pavan Jr. afirma que a alocação de recursos destinados ao festival em outras prioridades (saúde, educação, moradias populares) tornou a decisão inevitável. Como cidadãos, entendemos a construção de moradias populares, e o investimento em educação, saúde e meio ambiente deveriam mesmo ser prioridades constantes de qualquer municipalidade, e não apenas em anos eleitorais. Já como profissionais de cinema, lamentamos a descontinuidade de um projeto muito bem formatado e de grande repercussão nacional. Em poucos anos, Paulínia criou um Polo Cinematográfico, uma Escola de Cinema e um festival que se tornaram exemplares. O festival, ora em compasso de espera, era justamente a vitrine de toda essa atividade. Reunia em Paulínia produtores, cineastas, atores e atrizes, jornalistas e críticos de todo o País. Formava público para os filmes brasileiros. Criava empregos na cidade e beneficiava a autoestima dos seus habitantes. Muitos novos projetos surgiram desses encontros anuais entre profissionais de diversos estados da federação. Foi dessas reuniões, por exemplo, que nasceu a nossa própria instituição, a primeira associação nacional de críticos de cinema, o que faz com que tenhamos carinho especial com Paulínia. Todo esse patrimônio simbólico corre o risco de se perder, ao sabor de conveniências políticas de momento. Esperemos que a fresta de esperança aberta no comunicado do prefeito resulte na realização do festival em 2013. Mas ressaltamos, desde já, que é perda irreparável o cancelamento da edição de 2012. Eventos importantes firmam sua tradição pela continuidade. Assinado. Luiz Zanin Oricchio (presidente da Abraccine)

domingo, 8 de abril de 2012

O melhor de "Xingu"é falar de heróis brasileiros de verdade: os sertanistas irmãos Villas Boas

Na abertura de “Xingu”, com o entusiasmo de adolescentes os Villasboas sujam a própria roupa e o rosto com o barro do chão para não despertar suspeita acerca de sua posição social. Como que se pintando para a guerra, os três irmãos ingressam como simples peões na expedição Xingu-Roncador organizada em 1943 pelo Estado Novo, com o objetivo de dar início à ocupação do Brasil Central. Não há aí qualquer informação quanto aos motivos pelos quais os rapazes, todos com mais de 25 anos, tomaram aquela decisão. O fato é que, na sequencia seguinte, eles já se acham em pleno Xingu, como líderes de uma primeira missão de contato com índios isolados. O confronto entre uma cena e outra na mente do espectador já diz muito sobre os personagens, mais do que poderia a voz de um narrador, porque esta usaria palavras em lugar de imagens.

Essa forma de narrar caracteriza o cinema épico, tal como era denominado pelo soviético Sergei Eisentein, justamente na época em que Leonardo, Claudio e Orlando vieram ao mundo. Era a chamada montagem intelectual, em que idéias poderiam ser sugeridas por meio do choque dialético entre figuras filmadas. E o filme prossegue nessa linha, com um mínimo de diálogos e conceituações verbais, deixando que o fluxo dos fatos se encarregue da narrativa. Já mais perto do ponto culminante do roteiro, por exemplo, vemos uma conversa entre Orlando e um político para o qual basta uma frase para ser identificado como Jânio Quadros. Logo em seguida, junto com os xavantes, ele ouve pela Voz do Brasil a notícia de que o presidente da república acabara de decretar a criação do Parque Nacional do Xingu, salvando dezenas de nações indígenas da extinção pelo contato com os brancos.

Ao longo do filme, aparecem conflitos entre os protagonistas, fruto de suas contradições interpessoais e internas, lembrando-nos de que eles são simples humanos e não heróis, no sentido mitológico do termo que os antigos gregos usavam para designar os semideuses. Leonardo foi afastado da expedição pelos irmãos porque se envolvera com uma índia, dando motivo a um escândalo divulgado nacionalmente pela imprensa e que teria lhe abreviado a vida. Cláudio criticava a atuação política de Orlando e ambos se culpavam pela morte do irmão.

Mas, com tantos acontecimentos para contar, nessa saga que envolve a consolidação da maior reserva natural e indígena das Américas, o filme parece evitar a armadilha do palavreado folhetinesco que veio do teatro e ganhou plena acolhida nas novelas de televisão. Pode ser que futuramente, em sua versão para mini-série televisiva, o diretor Cao Hamburger acrescente mais informações pontuais àquela história, mas, em 102 minutos de filme durante os quais há pouca oportunidade para pestanejar, predomina a concisão. Nesse quesito, o diretor contou com o apoio de Ana Muylaert -- ela mesma uma cineasta iniciada na arte de informar o máximo com um mínimo de recursos. E, é claro com a inspiração e o traquejo de Felipe Camargo, João Miguel e Caio Blat que deram corpo à lembrança daqueles irmãos, heróis brasileiros do século XX.

XINGU
Brasil, 2012, 102 min, 12 anos
estreia 06 04 2012
gênero drama / história / política
Distribuição Columbia / Downtown
Direção Cao Hamburguer
Com Caio Blat, João Miguel, Felipe Camargo
COTAÇÃO
* * * *
Ó T I M O

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Neste “Um método muito perigoso”, Cronnenberg se disfarçou de Rosselini

Todo o mundo estranhou aclareza da narrativa, a precisão das referências visuais de cunho histórico e artístico e o realismo bem comportado da narrativa em “Um método muito perigoso”. Afinal nada disso faz parte da imagem construída por seu diretor David Cronnenberg (Canadá, 1943) ao longo de uma carreira em que desponta uma estética pessoal do grotesco com filmes como “Scanners”, “Videodrome” e “Crash - Estranhos prazeres”. Taras ainda sem nome, vícios mórbidos, violência compulsiva e demais perversões que circulam pelos sombrios labirintos da mente humana aparecem com tanta freqüência em seus filmes, que ele ganhou os apelidos de King of Venereal Horror (Rei do Horror Venéreo) e Baron of Blood (Barão do Sangue). Era natural, portanto, que ele se interessasse em adaptar o livro de John Kerr que focaliza a origem da psicanálise e tem como protagonistas Carl Jung (Michael Fassbender ) e Sigmund
Freud (Vigo Mortensen), tal como se relacionavam na primeira década do século XX. A eles o roteiro destina violentas discussões e desavenças − sempre circunscritas, porém, ao plano civilizado do debate intelectual. Como se sabe, Jung foi o principal discípulo de Freud, antes de enveredar por uma metodologia em que o conceito de inconsciente era ampliado para além da concepção freudiana. No filme, o desvario psicótico se manifesta sim, ainda que reservado aos personagens secundários vividos por Keira Knightley e Vincent Cassel – ela uma paciente masoquista que se tornaria terapeuta, e ele um psiquiatra que experimentava a loucura como quem hoje pratica yoga. No fundo, é Cronnenberg puro, mas disfarçado de docudrama na linha de Roberto Rosselini.
UM MÉTODO PERIGOSO
A Dangerous Method
estreia 30 03 2912
gênero docudrama / psicologia / história
Reino Unido/Alemanha/Canadá, 2012, 99 min, 14 anos
Distribuição Imagem Filmes
Direção David Cronenberg
Com Keira Knightley, Michael Fassbender, Viggo Mortesen
COTAÇÃO
* * *
B O M

quinta-feira, 5 de abril de 2012

“A Dançarina e o Ladrão” é um espetáculo completo: diverte, emociona e faz pensar.

A produção espanhola “A Dançarina e o Ladrão” é dirigida por Fernando Treuba, que em 1992 fez o emocionante “Sedução - Belle Époque”. Mas a alma do espetáculo é o livro em que se baseia − do chileno Antonio Skarmeta autor de “O Carteiro e o Poeta” (na foto abaixo), que faz uma pequena ponta no filme, no pele de um crítico de dança. Outro papel pequeno, porém, marcante é da bailarina brasileira Marcia Haydée, vivendo uma professora de balé. A história se passa no Chile, em seu processo de redemocratização, após o período Pinochet. Mas a tônica é essencialmente romântica, e a figura do ditador é apenas um quadro na parede que esconde um cofre com dinheiro sujo do regime derrubado.
Uma fortuna a ser arrebatada quase a contragosto pelo ladrão do título, interpretado com a maestria de sempre pelo argentino Ricardo Darin. Ele pretende abandonar o crime, mas as circunstâncias o levam a se associar a um jovem ex-presidiário que parece uma versão atualizada do cômico mexicano Cantinflas, apaixonado por uma bailarina muda. Essas figuras chaplinianas sacodem o protagonista que representa o homem sério e empenhado em se regenerar e tornar-se um cidadão integrado ao mundo real. A partir delas, a trama vai adquirindo uma tonalidade quase poética e fantástica, por meio de detalhes ao mesmo tempo dramáticos e simbólicos. Um exemplo disso é cavalo que o rapaz enamorado usa para se locomover pela cidade de Santiago, como se o animal fosse uma bicicleta, ou se a capital do Chile não passasse de um vilarejo do interior.
A DANÇARINA E O LADRÃO
El baile de la Victoria
Espanha, 2009, 127 min, 12 anos
estreia 30 03 2012
Gênero comédia / drama / história
Distribuição:Paris Filmes
Direção Fernando Trueba
Com Abel Ayala, Ariadna Gil, Ricardo Darin
COTAÇÃO
* * * *
ÓTIMO

Retrato realista de um ídolo do futebol brasileiro nos anos 1940: "Heleno", por Rodrigo Santoro

Quem se interessa por futebol não precisará assistir “Heleno”, dirigido por José Henrique Fonseca (“O Homem do Ano”, 2003) para saber que ele foi um dos atletas mais brilhantes dos anos 1940. Os demais poderão se surpreender com esta bem cuidada produção em preto e branco sobre a triste vida de Heleno de Freitas (foto real abaixo)em foto , encarnado por Rodrigo Santoro com a garra de um centro avante em disputa pelo campeonato. Mesmo que o roteiro do filme não tenha alcançado essa dimensão, este (anti) herói carrega uma aura de tragédia que o arremessou da celebridade e da riqueza à degradação da loucura e do esquecimento. Apesar de elegante, inteligente e bem educado, ele não conseguiu superar os seus principais adversários, a saber, a bebida, o cigarro e o éter, além do temperamento agressivo e promíscuo que o levaram a encarar o seu inimigo verdadeiramente mortal que foi o treponema pallidum, ou seja, a sífilis.

Chegam a cinco, portanto, esses tremendos antagonistas, de modo que eles poderiam formar um time de futebol de salão. Mas o oponente que de fato o derrotou era um só e se escondia dentro dele mesmo. Falo de um ego tão inquebrável e desmesurado que o impedia de enxergar as coisas em sua configuração real e o levava se julgar invencível, mesmo quando já se achava a beira do abismo. Nesse sentido a equipe de roteiristas, na qual se inclui o argentino Fernando Castets − aplaudido por filmes como “O Filho da Noiva” (2001) – falhou em não trabalhar mais com esse conflito interno do personagem. No entanto, “Heleno” tem menos erros do que acertos. Como por exemplo, um intérprete perfeccionista − que veste a aparência física, o gestual e até alma do jogador − e a reconstituição do Rio anterior à Segunda Guerra, fotografado pela luxuosa lente de Walter Carvalho. Mas infelizmente não deixa que nos identifiquemos com o protagonista, porque afinal, ninguém consegue torcer por um chato, monolítico e invariável que se considera o máximo, acima de tudo e de todos.

HELENO
Brasil, 2012, 116 min, 14 anos
estreia 30 03 2012
gênero docudrama / futebol
Distribuição Downtown
Direção José Henrique Fonseca
Com Rodrigo Santoro, Alinne Moraes e Othon Bastos
COTAÇÃO
* * *
B O M

segunda-feira, 26 de março de 2012

"Pina", um documentário de Wim Wenders é a primeira produção européia rodada em 3D

Wim Wenders hesitou bastante antes de introduzir o vídeo, ou seja, a imagem magnética na realização do filme que dirigia em 1989. Era “A Identidade de Nós Mesmos”, um documentário sobre o designer japonês Yoji Yamamoto, então radicado em Paris. Durante a produção, ele explicitava as suas idéias e reflexões a respeito, nas quais se misturavam receio, fascínio e admiração por aquele novo meio de captar imagens. Naquela época, Wenders presidia o Festival de Cannes, cuja Palma de Ouro foi para “Sexo, Mentiras e Videotape”, de Steven Soderbergh. Agora ao fazer um documentário sobre a coreógrafa Pina Bausch, ele não deve ter hesitado um segundo para decidir fazê-lo em 3D.

Nas mãos dele, essa técnica que acrescenta a dimensão de volume às imagens filmadas parece ter sido criada com o destino específico de registrar a arte da dança. Apenas parece, porque na origem o seu principal objetivo era produzir na mente do público a ilusão de que determinado objeto “saía” do filme para se lançar à platéia.O trem dos Irmãos Lumière, de fato não atropelava a platéia naquela projeção de 1896, mas não há dúvida de que a câmara se posicionava num ponto de visão inacessível às pessoas que observavam a sua chegada na estação. O que o 3D faz pela dança é envolvê-la espacialmente com o espectador, eliminando virtualmente a separação entre palco e platéia. Sentado na primeira fila, na coxia do teatro ou até fazendo parte do espetáculo, nenhum ponto de vista se mostra mais privilegiado do que este que Wenders nos oferece. Digo isso de cátedra, por ter assistido uma das coreografias do filme, no Teatro Municipal de São Paulo, no final dos anos 1970. Era a célebre “Café Muller”, da qual a própria Pina Bausch participava. Em termos de linguagem, o documentário é suntuoso, construído não só a partir das lembranças dos principais colaboradores de Pina Bausch como também das coreografias que ela deixou registradas em cada um de seus corpos.

PINA 3D
França/Reino Unido/Alemanha, 2010, 106 min, 12 anos

estréia 23 03 2012
gênero documentário
Distribuição Imovision
Direção Wim Wenders
Com Pina Bausch, Regina Advento, Malou Airaudo, Ruth Amarante
COTAÇÃO
* * * * *
EXCELENTE

O documentário "Raul - o inicio, o fim e o meio" é uma mosca que caiu na sopa de quem merecia.

O filme não é indicado apenas para os fãs da metamorfose ambulante, porque é o retrato super vivo e colorido sobre o tempo em que Raul viveu. Com essa obra, Walter Carvalho será invejado por todos os documentaristas da atualidade, porque ele teve a sorte de filmar uma cena que deverá entrar para a antologia das mais felizes do gênero, graças a uma mosca que aterrissou na brilhosa careca de Paulo Coelho. No meio da gravação, o próprio entrevistado interrompe o discurso para se mostrar surpreso: ele nunca tinha visto uma mosca ali em Genebra. E como ele estava falando do Raul Seixas, que tinha dividido com o "mago" uma etapa, profundamente mística da sua carreira, era inevitável a relação entre aquela estranha visita com a possibilidade de uma presença sobrenatural do cantor e compositor baiano na filmagem.
Para quem não percebeu a piada do acaso, logo em seguida entra a voz dele cantando “eu sou a mosca que pousou na sua sopa. Todas as grandes canções dele são encenadas, em meio a entrevistas atuais de figuras importantes em sua história, como todas as suas esposas, filhos, parentes, parceiros, empresários, amigos e admiradores famosos como Caetano Veloso, Pedro Bial e Nelson Motta. Isso sem falar em primoroso material de arquivo até então desconhecido. O filme é tão rico que, enquanto nos mostra alegremente esse furacão que foi a sua vida, nos leva a refletir sobre a sociedade e a cultura do país. E entender por quais motivos ele tem até hoje uma multidão de seguidores, que não se esquecem daquela explosiva mistura de criatividade e irreverência.
RAUL – O INÍCIO, O FIM E O MEIO
Brasil, 2012, 115min, 12 anos
estreia 23 03 2012
Gênero documentário
Distribuição Paramount
Direção Walter Carvalho e Leonardo Gudel
COTAÇÃO
* * * *
ÓTIMO