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quarta-feira, 18 de março de 2015

"Mapas para as Estrelas" é o mais recente (e fascinante) escândalo de David Cronenberg


Como a maioria dos filmes do canadense David Cronemberg, Mapas para as Estrelas provoca impacto. Do elenco participam o veterano John Cusack e os jovens astros Mia Wasikowska e Robert Pattinson, além dessa atriz que vemos também em cartaz na cidade em Para Sempre Alice e O Sétimo Filho. Juliane Moore não é a protagonista do filme, mas é a personagem mais emblemática deste drama que tem como tema o desvario, a insanidade social e psíquica que domina aquele lugar. 

Hollywood é a sede de uma indústria em que as pessoas são meros insumos na produção de mercadorias. Gente de carne e osso que está para os filmes assim como os chips estão para os computadores fabricados no Vale do Silício.


Atualmente a cidade anda mais comportada, mas os escândalos de Hollywood já renderam milhares de páginas em jornais sensacionalistas. Isso desde os anos 1930. Por exemplo, com os processos judiciais contra Chaplin, o produtor Paul Bern que se matou por ciúmes de Jean Harlow, o assassinato de Natalie Wood pelo marido Robert Wagner (foto abaixo) e o misterioso enforcamento de David Carradine – só pra citar alguns casos, em centenas de ocorrências escabrosas.

O núcleo do enredo de Mapas para as Estrelas é uma família de celebridades hollywoodianas em que o filho de 13 anos é um astro de filmes para adolescentes que já consome drogas pesadas e enfrenta a própria decadência no sistema de estrelas. Já o pai é uma espécie de guru dos artistas, alguém que ganha dinheiro explorando as suas neuroses e fobias. As coisas se complicam quando a filha -- incendiária sai do hospício e tenta voltar para casa que ela tinha tentado queimar alguns anos antes. Em suma, Cronemberg nos revela o lado B do cinema americano. 

Filmes lançados em São Paulo na semana iniciada em19 de março de 2015

Novamente, o mercado de cinema pega fogo, oferecendo uma quantidade de lançamentos bem maior do que ele é capaz de absorver. Alguns títulos, portanto, estão desde já fadados ao esquecimento. Principalmente quando um novo blockbuster desponta no horizonte das estreias.
Da serie Divergente, temos o segundo episódio, chamado Insurgente. Essa é uma série de ficção científica especialmente banal, requentando mais uma vez a temática de “O Admirável Mundo Novo”, apresentada por Aldous Huxley há 83 anos. É também dirigida pelo alemão Robert Schwentke, que era considerado um profissional promissor, antes de entrar nessa linha de produção.

No extremo oposto, temos uma amostra atual do cinema alemão de verdade. É o elegante docudrama histórico Duas Irmãs, Uma Paixão – que vem a ser Friedrich Schiller que, ao lado de Goethe, foi o maior escritor da Alemanha do século XVIII. Quem dirige é o veterano Dominik Graf -- um dos mais premiados do cinema germânico
A mais atraente estreia da semana, no entanto, é Mapas para as Estrelas, outra obra impactante de David Cronenberg. O elenco tem Mia Wasikowska, John Cusack e Robert Pattinson. Porém, a grande figura é Juliane Moore em mais uma atuação memorável que, aliás, já mencionamos na semana passada. Trata-se de uma fábula cruel sobre o universo hollywoodiano, a partir ótica dos extravagantes conflitos entre artistas, agentes e diretores de cinema. Conflitos que podem ser sangrentos e mortais, como eram aqueles do velho oeste.
Por falar em faroeste, outra indicação é Divida De Honra: um filme pequeno, mas muito interessante, dirigido e protagonizado por Tommy Lee Jones que, em 1993 ganhou, o Oscar de coadjuvante por O Fugitivo. É um western muito original em que Hillary Swank tenta levar de volta para casa três mulheres de pioneiros que enlouqueceram no oeste. Em 2014, este filme concorreu à Palma de Ouro em Cannes.

Temos ainda una comédia romântica, inglesa e bem picante. Simplesmente Acontece conta a historia de um jovem casal que se conhece, namora e briga desde os 5 anos de idade.
Há também Eden -- um docudrama sobre Paul Valée, um DJ francês que criou a música eletrônica continental na década de 1990. Além desses 7 também estreiam quatro filmes brasileiros. Essa versão de Lenine para a canção de Milton Nascimento é uma das coisas boas que um deles, o Meus dois Amores oferece. Os outros três são O Duelo, Insubordinados e Branco sai, preto fica. 

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Em "O Passado", Asghard Farhadi levanta antecedentes dos personagens sem "flash backs"

Mais do que uma simples história, O Passado de Asghard Farhadi é um ensaio sobre a memória, a consciência moral e a própria linguagem do cinema. Ao contrário do seu trabalho anterior -- A Separação, premiado com o Oscar, que operava na urgência do presente, se debruçando para as múltiplas possibilidades do futuro. Enquanto A Separação se desenrolava à beira de um rompimento familiar prestes a ocorrer ainda no Iran, O Passado se passa com parte de uma família já vivendo na França.
O filme se inicia com o marido voltando a Paris para oficializar o seu divórcio, porque a mulher que lá ficara com as filhas precisa se casar novamente. Ela é interpretada pela fotogênica e talentosa Berenice Bejo, esposa do diretor Michel Hazanavicius, com quem tinha feito o premiado O Artista. Meio que sem querer, esse quase ex-marido acaba descobrindo fatos extremante constrangedores a respeito do novo relacionamento da mulher.
A essência estrutural do roteiro é a opção por evitar o flash back. De modo que tudo o que tinha acontecido antes do início do filme precisa ser revelado, debatido e julgado nas cenas que passam naquele curto período em que o divórcio é assinado. Em outras palavras, o passado só pode se manifestar no presente, o que desafia a habilidade narrativa do diretor, mas amplia dramaticamente a sensação de vida real vibrando de verdade diante de nós. O Passado: outra grande obra de Asghard Farhadi, o lado mais vivo do cinema iraniano.

O PASSADO
Irã, França, 131min, 12 anos
estreia 08 05 2014
gênero drama/ família
Direção Asghard Farhadi
Distribuidor Califórnia Filmes
Com Bérénice Bejo, Tahar Rahim e Ali Mosaffa
COTAÇÃO
* * *
Ó T I M O

terça-feira, 29 de abril de 2014

A partir do dia 05 de maio de 2014, o Programa Cinema Falado retorna para a Rádio Cultura FM de São Paulo, com comentários diários ao longo do Rádio Metrópole e da Tarde Cultura. A gente se encontra por lá!

"Getúlio" dirigido por João Jardim: um filme à altura do personagem central.

Lançado no dia primeiro de maio, em homenagem àquele que criou a legislação trabalhista no Brasil, o filme Getúlio – dirigido por João Jardim, até aqui mais conhecido como um documentarista de talento (Janela da Alma – 2001). O enredo focaliza as três semanas que separam o atentado a Carlos Lacerda e a madrugada em que ele se suicidou. Mais do que um drama histórico, porém, o filme adquire a estatura de uma tragédia. E uma tragédia de suspense. Todos nós sabemos de que forma ele morreu, mas quando finalmente soa o tiro do suicídio, ocorre um alívio com o fim da tensão que vinha se acumulando desde o inicio, até atingir um nível insuportável. 
Ou seja, é perfeita a identificação entre o público e o personagem em desespero do presidente, interpretado com o máximo de empatia e verdade por Tony Ramos. Em seus momentos derradeiros, há um eco de Julio Cesar, como se ele exclamasse um “até tu Brutus” coletivo, enquanto que vai descobrindo as traições que parentes, amigos e até o seu guarda costas pessoal vinham praticando. O restante do numeroso elenco também não falha – escolhido provavelmente por Carla Camurati, a produtora executiva. A par do tipo físico adequado, quase todos os intérpretes escolhidos funcionam adequadamente diante das lentes cirúrgicas de Walter Carvalho. Destacam-se Alexandre Borges (Carlos Lacerda) e Drica Moraes (Alzira Vargas). O bom gosto e o bom humor de Carla Camurati, aliás, devem ter se associado para determinar escolhas preciosas, como o português Fernando Luís, para Benjamim Vargas, Marcelo Medici para Lutero Vargas e Clarisse Abujamra para Ivete Vargas. 

Mais que uma caracterização precisa, na aparência e nos diálogos de cada figura histórica, o roteiro do diretor e de George Moura (Gonzaga de pai pra filho - 2012)  produz emoção de verdade – desde indignação, pelo mar de lama que se revela, até a angústia amplificada pela soturna arquitetura do Palácio do Catete, que fica parecendo um mausoléu sob a luz de Walter Carvalho. No entanto, o que nos atinge mais de perto, a garantir a universalidade da narrativa, são as delicadas manifestações de carinho entre o caudilho e a filha Alzira – além das inevitáveis comparações com o mundo contemporâneo. Mesmo longe do planalto central e de costas para a praia o mar de lama já se achava agitado. 
GETÚLIO
Direção João Jardim
estreia 01 05 2014
Brasil 2013 – 100 min. – 12 anos
gênero docudrama
Distribuição Copacabana filmes 
com Tony Ramos, Drica Moraes, Alexandre Borges
COTAÇÃO
* * * *
ÓTIMO

quarta-feira, 26 de março de 2014

Em DVD um clássico do western: "Juramento de Vingança" (Major Dundee) de Sam Peckimpah

Lançado em DVD pela Versátil , "Juramento de Vingança", uma obra de Sam Peckimpah com o título original de “Major Dundee”, que é o nome do personagem central, interpretado por Charlton Heston. Foi feito em 1968,  época em que o Cinema Novo se iniciava no Brasil e a Nouvelle Vague aparecia na Europa. Mas o filme tem a estatura de um clássico, com todosos elementos que faziam a grandiosidade do gênero. O tema é uma luta justa contra um bando de índios apaches que, na verdade eram bandidos, ou seja, algo parecido com os nossos cangaceiros, que praticavam barbaridades na fronteira com o México. Só que, para complicar tudo, a Guerra da Secessão estava no final e o Major do título foi obrigado a recrutar prisioneiros confederados, ou seja, sulistas rebeldes, para enfrentar aqueles bandoleiros que se reuniam num grande grupo.

Outra complicação era a convivência desses soldados derrotados com ex-escravos que pertenciam ao exército da União. Os dramas mais pesados, porém, se situam no interior do suposto herói e se referem à sua desmedida ambição política, ao seu alcoolismo e à queda pelo sexo oposto. Naquele mesmo ano, na Itália, Roberto Rosselini, então dedicado ao docudrama histórico, pintava o quadro de outro herói militar, que viveu no tempo do Major Dundee. Era o lider Giuseppe Garibaldi que, sob as lentes de Rosselini ficava parecendo um santo. Se os dois filmes forem comparados, os que sempre preferem o cinema europeu ao americano ficariam surpresos ao verificar que o de Sam Peckimpha é mais realista. 

segunda-feira, 24 de março de 2014

Em cartaz "Rio 2", animação americana do carioca Carlos Saldanha e sua arara azul

Nesta semana estreia “Rio 2”, novo episódio das aventuras criadas pelo animador brasileiro Carlos Saldanha para a Fox de Hollywood, com um casal de araras azuis que vive no Rio de Janeiro. Apesar da sua espécie se achar em extinção, eles já têm tres filhotes e formam uma família. Portanto, o diretor Carlos Saldanha se encontra de novo em seu ambiente preferido, não fosse ele um dos criadores de “A Era do Gelo” – protagonizada por uma família de animais pré-históricos... já extintos. Desta vez, a odisséia desses pássaros de cor azul anil prova que eles têm coração verde e amarelo, porque voam até a Amazônia, para encontrar o resto dos seus parentes. E com eles vão outros pássaros que simbolizam o país: um canarinho, um pica-pau e um tucano. 
Lá chegando, encontram duas tribos rivais de araras: as azuis e as vermelhas, numa curiosa referência à festa amazônica de Parintins. E tambem o grande vilão da história que é um madeireiro empenhado em desmatar a selva. Ao som de Sergio Mendes e outros músicoas brasileiros, como Milton Nascimento e os Barbatuques, as imagens iniciais no reveillon do Rio de Janeiro são deslumbrantes, assim como as da floresta, mesmo que o registro dos cenários seja desenvolvido num desenho quase realista. O filme tem um número maior de personagens, tamas mais complexas e mais música que o anterior, o que não permite nenhum momento de tédio. É como se Saldanha reunisse vários gêneros de comédia, como a sátira e a paródia, num roteiro que lembra a agitação das melhores chanchadas dos anos de 1950.
Rio 2
estreia 27 03 2014 
gênero animação/ comédia
distribuição Fox

Direção Carlos Saldanha

COTAÇÃO
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Ó T I M O