Prossegue em cartaz, o filme peruano "A Teta Assustada", vencedor do último Festival de Berlin, onde ganhou também o prêmio de melhor direção, ou seja, para Claudia Llosa, sobrinha do escritor Mario Vargas Llosa. O título se refere a uma suposta crença popular recente, segundo a qual as mulheres violentadas durante o que os peruanos chamam de período do terrorismo nos anos 80 passam para as filhas. As moças mostram um temperamento catatônico e um medo de tudo e de todos que as paralisa. A personagem central do filme vai além e introduz uma batata em seu sexo, na tentativa de evitar um possível estupro. O filme é todo muito estranho, chegando a evocar um parentesco com o datado realismo mágico do colombiano Gabriel Garcia Marques. O que aqui, aliás, não significa elogio.
Um piano que cai sozinho de uma janela, a tal batata que começa a brotar ali tão separada da luz do sol, e os costumes dos habitantes da periferia de Lima, mais coloridos e fellinianos do que seria plausível. Isso além de longos planos exageradamente abertos e imagens visualmente sugestivas fazem do filme, um espetáculo sem dúvida surpreendente. Há um fiapo de drama, em que protagonista e antagonista são mulheres: de um lado a moça da batata e de outro a sua patroa, uma pianista que rouba uma canção que ela tinha composto. Talvez isso explique a vitória de "A Teta Assustada" em Berlim, por meio de um júri comandado pela atriz Tilda Swinton.Efraín Solis, Marino Ballón






Trata-se de Up: Altas Aventuras. Só a premissa do filme já dá pra imaginar a criatividade e a extravagância da história. Revoltado contra o mundo, um aposentado ranzinza e meio gagá de 78 anos amarra milhares de balões à sua casa, que sai flutuando pelos céus. Só que, sem querer, leva com ele um escoteiro 70 anos mais moço que estava na varanda da casa, quando ela levanta vôo. O resto é pura surpresa e encantamento. O roteiro se baseia no confronto entre duas personalidades opostas: um ancião derrotado pela vida e um garoto cheio de otimismo. Os realizadores procuram exprimir essas diferenças de modo imediato, por meio do desenho. E até propõe um novo conceito visual filme para Up: Altas Aventuras que é a simplexidade, ou seja, a arte de simplificar a imagem até atingir a sua essência.

Ao contrário do que acontece nos filmes de ficção, não é necessário que os personagens de documentário carreguem uma ação dramática. Mas é essencial que eles possam partilhar conosco esse milagre de presenciar uma mesma experiência real. Por mais que a música interpretada diante da máquina de filmar já esteja escrita e ensaiada, cada execução de uma peça musical é única inteiramente original. É isso que faz a força desse novo gênero em que cada tomada é ao mesmo tempo encenada, como no documentário clássico, e necessariamente imprevisível, como no cinema-verdade.
Neste trabalho de Sérgio Roizenblit, Dominguinhos é o guia de uma viagem em que visitamos todos os maiores sanfoneiros do país, em seus ambientes naturais e humanos. O ponto de partida é o mundo de Luiz Gonzaga e a devoção pernambucana à Santa Luzia, em cujo dia 13 de dezembro ele nasceu. Dia de um antigo ritual descrito como tragédia por Patativa do Assaré, também personagem do filme. Na verdade, este documentário opera sucessivos milagres de encantamento poético e transe musical, cada um deles equivalente à magia cinematográfica conjurada por mestres do documentário, como Jean Rouch.

Mas o essencial na produção do mal estar que o filme causa se encontra na dimensão formal, especificamente na montagem. Assim como fez Stanley Kubrick, inicialmente Von Trier oferece ao espectador uma certeza que vai se dissolvendo no decorrer do enredo. Isso numa atmosfera visual sombria e angustiante, como nas novelas góticas de May Shelley, Bram Stocker e Edgar Poe. “Anticristo” não usa computação gráfica, mas vai fundo na construção do horror, na linha de F.F. Coppola, em “Drácula” (1992).
Anticristo Antichrist
No meio do cotidiano, surge um drama de proporção pequena, que quase ninguém percebe. A não ser talvez a mãe do protagonista, que desconfia de uma coisa muito perigosa acontecendo com o filho. Ele, Joaquin Phoenix e ela Isabela Rosselini, interpretando pessoas de classe média no bairro nova-iorquino do Brooklin. Com quase 40 anos, ele ainda mora com os pais e volta e meia tenta se matar, porque há alguns anos perdera a mulher que amava. Apenas esse fato nos leva a duvidar da aparência de equilíbrio em suas emoções. Mas fora isso, é uma pessoa até simpática e bem humorada, ainda que apenas superficialmente. Só nós os espectadores sabemos que, para ele, a vida não tem mais sentido.
Quando o acaso lhe oferece uma espécie de bilhete premiado, ela tenta jogar fora, mas não consegue. Porque, além de rica, bonita e sensual, a moça que se apaixona por ele é de uma família que pretende incluí-lo como herdeiro. Mas como advertia Carlos Drumonnd de Andrade, é quase impossível enfrentar “o sem sentido apelo do não”. E assim, só para negar a sua própria natureza, esse herói às avessas se entrega a uma paixão completamente fora de hora e lugar por uma vizinha interpretada por Gwyneth Paltrow: a mais completa reunião de inconvenientes que uma moça pode oferecer. Neste que é dos filmes mais inquietantes do ano, o diretor John Gray (“Fuga Para Odessa” – 1994) mostra que o pior dos nossos inimigos pode estar escondido dentro gente.




