Tudo bem quanto às liberdades que Ridley Scott tomou em relação à sua versão de “Robin Hood”. Elas partem de uma linha que ele vem seguindo em todos os seus espetáculos históricos. Ela consiste em dotar o protagonista de um determinado ponto de vista que coincide com o da classe a que pertence. Em “Gladiador” (Gladiator, 2000), a trama se organizava em função de um escravo, enquanto em “Cruzadas” (Kingdom of Heaven, 2005) a narrativa se construía a partir da visão de um senhor feudal, conforme o ideário cristão daquela época. Desta vez o herói é filho de um pedreiro, ou seja, de um artesão – categoria social que, junto com os mercadores, séculos mais tarde formaria o grupo chamado de burgueses. No século XII, em que se situa a lenda do aventureiro que “roubava os ricos para dar aos pobres”, eles constituíam um conjunto de pessoas quase marginais àquele modo de produção voltado para subsistência que se articulava basicamente em senhores feudais e camponeses
Como no campo da ficção história é lícito inventar, desde que não se contrarie o que esteja documentado, Scott fez do herói um arqueiro do exército com o qual Ricardo Coração de Leão foi lutar na Terceira Cruzada. Um personagem que esteve presente no cerco à fortaleza de Chalus-Chabrol, na França, onde o monarca morreu por meio de uma flecha disparada por um cozinheiro – mostrado, aliás, em close, porque o diretor costuma destacar a participação dos trabalhadores na ação dramática. Observado do ângulo em que Robin se situa, o cotidiano da batalha se assemelha à rotina dos operários numa fábrica. Em compensação, um letreiro comete a impropriedade de dizer que, após seu regresso do oriente, de passagem pela França e sem dinheiro, Ricardo resolveu saquear alguns castelos pelo caminho.
Na realidade ele estava sufocando uma revolta de seus vassalos na França, que aproveitaram a sua ausência da Europa para se rebelar. É que o rei da Inglaterra possuía vastos territórios no continente – quase um terço do que hoje é a França – de onde viera a sua família. Inclusive os cronistas afirmam que ele mal sabia falar inglês. Outra inexatidão de Scott é colocar o conflito com o rei Felipe II da França como se fosse uma guerra entre nações. Naquele tempo, os monarcas europeus eram quase todos parentes entre si e as guerras significavam imensas brigas de família.
Não existia o sentimento que hoje chamamos de patriotismo e que, ao final do filme, movimenta a batalha de defesa do litoral britânico contra um ataque de navios franceses comandado por Felipe II. Além de se parecer visualmente com a invasão dos aliados à Normandia em 1942, com os soldados desembarcando de barcaças muito parecidas, esse fato é inteiramente fictício. Felipe até chegara a se preparar para uma expedição invasora, mas foi seu filho Luis que conseguiu invadir a ilha em 1216. Igualmente imaginário é aquele grupo de centenas de terroristas franceses atacando os nobres na Inglaterra se fazendo passar por emissários do rei João.
O aspecto mais curioso e imaginativo do roteiro, porém, é desenhar Robin Hood como o mentor intelectual da Magna Carta Libertatum, assinada por João Sem Terra em 1215. Há muito assassinado, o pai do protagonista teria sido o próprio redator do documento. Engrandecido como personagem, Robin chega proferir um discurso em prol da liberdade diante do monarca e seus barões. E nessa fala, Scott revela com clareza o horizonte ideológico daquele tempo, ao definir a essência política do que significava a palavra “liberdade”, que é o princípio tribal da reciprocidade – esse um forte legado tradicional das comunidades bárbaras. O documento exigia que o rei mantivesse reciprocamente o respeito e a lealdade aos seus vassalos. Assim como o cineasta que, mesmo se deixando levar pela imaginação, respeita e homenageia a inteligência de seu público.
ROBIN HOODRobin Hood
estreia 14 05 2010
Distribuição Paramount
EUA/Reino Unido – 2010 - 140 min. - 12 anos
Direção Ridley Scott
Gênero História / Ação / Política
Com Russell Crowe, Cate Blanchett e Max von Sydow
***
BOM




No filme, por meio de um abundante material dos ensaios arquivados, vemos como essas trucagens foram idealizadas, recorrendo apenas a mudanças de luz e jogos de espelhos, com resultados impressionantes para aquele período muito anterior à computação gráfica. Curiosamente, muitas delas operando em continuidade com as experiências óticas inauguradas por Dziga Vertov nos anos 1920. Como a célebre sequência de "O Homem com Câmera" (1929) com uma locomotiva se aproximando em alta velocidade do cinegrafista e a câmera depositada sobre o trilho de trem.
Serge Reggiani interpreta um gerente de hotel alucinado de ciúmes pela esposa vivida por Romy Schneider. Depois de três semanas, Reggiani abandonou as filmagens, o projeto foi interrompido e as imagens permaneceram inéditas por mais de 40 anos. O documentário de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea investiga o que teria acontecido, por meio de cenas reconstituídas, entrevistas com artistas e técnicos que participaram daquela aventura e leituras dramáticas do roteiro. Em crise pessoal e profissional, depois disso Clouzot (na foto abaixo) ficou 4 anos sem filmar, até “A Prisioneira”, o seu derradeiro trabalho.

Vivido pelo veterano Christopher Plummer, o protagonista é um contador de histórias imortal porque há séculos fizera um pacto com o demônio. Este é interpretado pelo também cantor Tom Waits − numa atuação surpreendente e muito engraçada, sempre tramando para mandá-lo de vez para o inferno. Como exemplo de sofisticação visual, destaca-se o figurino que dá ao demônio a roupa ascética de Carlitos, com seu singelo chapéu-coco, enquanto veste o Dr. Parnassus com uma incrível mistura de trajes e adereços que ele teria trazido de todas as épocas e lugares do planeta.
Mas o destaque do elenco é Heath Ledger (Austrália, 1979 – 2005), o inesquecível Coringa de “O Cavaleiro das Trevas” (Dark Knight” - 2008) que lhe valeu o Oscar de coadjuvante. O ator (na foto acima) morreu durante as filmagens, mas, para não perder o que já tinha filmado, Gilliam resolveu a questão convocando outros três intérpretes para dar continuidade ao papel dele: Johnny Depp, Jude Law e Colin Farrell. E isso enriqueceu bastante o personagem, que tinha a função de representar o mundo real e prosaico, junto à surrealista caravana do Dr. Parnasus. Alguns críticos reclamam que o filme não tem uma unidade de estilo e cada uma das partes funciona como um espetáculo isolado. Mas, no meu entender, essa diversidade é mais um de seus muitos predicados. Depois de desfrutá-l0, é dicifil não se tornar "parnasiano".
"Viajo porque preciso, volto porque te amo" é uma inacreditável experiência que bombardeia a fronteira entre o documentário e a ficção. Assinado por dois diretores Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, o filme ganhou os prêmios de Melhor Direção e Melhor Fotografia do Festival do Rio 2009 e também participou do Festival de Veneza. Foi quase inteiramente montado a partir de filmagens operacionais realizadas para a pesquisa de locações para “O Céu de Suely” ( exibido na mostra Orizzonti – Veneza 2006), de Karim Aïnouz, e de “Cinema, Aspirinas e Urubus” (premiado na mostra ‘Um Certo Olhar’ do festival de Cannes em 2005), de Marcelo Gomes. Trata-se de um caso talvez inédito de desenvolvimento de uma narrativa ficcional em função de um conjunto heterogêneo de imagens disponíveis.
Em outras palavras, aquelas imagens que em sua captação original eram estritamente documentais foram inseridas num contexto ficcional e ganharam outro significado. Mais ou menos como fazia Duchamp com objetos prosaicos e utilitários que ele transformava em elementos de um discurso estético. E aí ocorre um rompimento com uma das principais características praticamente exclusivas do cinema documentário e que vem servindo inclusive para diferenciá-lo do filme de ficção, ou seja, a continuidade entre o universo que se posiciona à frente e o outro, que se se situa por atrás da câmera. Numa filmagem de ficção, por mais simples que seja, sempre há um conjunto de coisas e pessoas que pode ser chamado de bastidores, ou “backstage”. Isso também existia no chamado “documentário clássico”, que frequentemente recorria à encenação. Mas quando a câmara se coloca diretamente no mundo, desprovida da mencionada parafernália, é muito provável que ela esteja a serviço de um documentário, como vem acontecendo desde os anos 1960, graças ao advento do som direto e da crescente mobilidade das máquinas de filmar. Em suma, VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO prova que ainda há espaço criativo para o cinema experimental.








