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quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A semana 09/10/2009 é marcada pela diversidade de gêneros e temas.

Da Itália, por incrível que pareça, vem um desenho animado baseado num livro peruano e, é claro, dublado em português. Trata-se de O GOLFINHO – A HISTÓRIA DE UM SONHADOR, lançado para tentar acompanhar o atual campeão de bilheteria, Tá chovendo hambúrguer. O desenho é até razoável, mas vai ser difícil chegar perto de outro longa de animação que estréia hoje.
É o sensacional "9 - A SALVAÇÃO" (nas duas fotos acima), produzido pelo doentiamente criativo Tim Burton, de "A Noiva Cadáver". Trata-se de uma incrível estilização para ficção científica da história de Pinóquio. Um boneco de pano ganha vida e descobre que no planeta não existem mais seres humanos e as máquinas que restaram tentam destruí-lo.
Do Brasil, vem FLORDELIS – BASTA UMA PALAVRA PARA MUDAR, um docudrama amadorístico sobre uma professora carioca que nos aos 90 adotou 50 crianças de rua. E agora elas são interpretadas por astros globais que dão falsos depoimentos sobre ela. Sinceramente, não dá... Não dá pra perder HERBERT DE PERTO, documentário sobre o líder dos Paralamas do Sucesso, no qual ele se confronta com imagens do passado antes de se tornar paraplégico.
Mas temos que reconhecer o melhor lançamento é de Quentin Tarantino (abaixo com Brad Pitt e o resto do elenco), essa genial brincadeira com a História que é BASTARDOS INGLÓRIOS, sobre um comando de soldados americanos judeus que decidem espalhar o terror entre os nazistas. É humor de alto nível, com a elegância germânica de Diane Krueger (acima)

“Bastardos Inglórios” de Quentin Tarantino é um raro caso de comédia histórica.

Poucos humoristas tentaram essa modalidade, sem cair no surrealismo do grupo Monty Pithon, (“A busca do cálice sagrado”), ou no pastelão linha irmãos Marx de Mel Brooks (“História do Mundo Parte 1”) – ambos filmes dos anos 70. O humor de Tarantino lembra o de Mario Monicelli, no clássico “O incrível exército de Brancaleone”. Ou o de Carla Camurati, no igualmente clássico “Carlota Joaquina a princesa do Brasil”.
A narrativa tangencia os fatos reais dos últimos dias de Hitler ao ar livre, antes dele se enfurnar em um bunker, do qual só sairia morto, no fim da guerra. Se antes disso, em julho de 1944, como vimos em “Operação Valkíria” com Tom Cruise, generais dissidentes tentaram explodir o fuhrer e não conseguiram, por que não imaginar outro atentado?
É o que faz Tarantino brilhantemente, com um leve sotaque caricatural, mais acentuado em personagens como o de Brad Pitt (acima) e quase realista no de Christoph Waltz (abaixo) que, aliás, ganhou o prêmio de melhor ator em Cannes por este papel de um general conhecido como “o caçador de judeus”. Brad Pitt comanda um grupo de combatentes americanos judeus que se infiltra nas linhas alemãs para espalhar o terror. Mas Tarantino não abandona o seu gosto pela violência explícita e, assim, um desses americanos é um ex-jogador de baseball que trouxe seu bastão para a guerra, só para estourar crânios nazistas.

O filme imagina dois atentados que teriam como alvo o próprio Hitler, enquanto ele estava assistindo um filme na Paris ocupada pelos nazistas. Dito isso, pode-se imaginar que o filme seja apenas uma paródia ao famoso "Operação Valkíria", mas ele faz uma sofisticada caricatura de gêneros inteiros, brincando com própria linguagem e a história do cinema. Na sangrenta cena inicial, por exemplo, ele expande artificialmente a duração da cena, exatamente como fizera Eisenstein no massacre de Odessa, em "O Encouraçado Potenkin", contando apenas com o diálogo e o brilho de Christoph Waltz. Nos momentos finais, esse mesmo ator comanda uma sangrenta paródia da Cinderella, contracenando com a bela e talentosa Diane Krueger (abaixo), no papel de agente dupla, assim como era aquela personagem de conto de fadas.
O filme se divide em capítulos, imitando os episódios de uma revista em quadrinhos e, num deles, vemos um crítico inglês especialista em cinema alemão convertido em agente secreto, só porque conhece um pouco do idioma germânico. Aquele filme que Hitler vai assistir seria uma produção do próprio Goebbels, empenhado em vencer os judeus de Hollywood em seu próprio território, ou seja, a indústria cinematográfica. Chegamos até a ver imagens deste filme que, por sua vez não passava de uma paródia alemã do célebre "Sargento York", feito por Howard Hawks em 1941, sobre um herói americano da 1ª Guerra, outro impiedoso matador de alemães.

BASTARDOS INGLÓRIOS
Inglourious Basterds
EUA / Alemanha - 2009 – 153 min.
Gênero: Ação / História / Comédia
estréia 09/10/2009
Distribuição: Paramount
Direção Quentin Tarantino
Com Brad Pitt, Christoph Waltz,
Diane Krueger e Mélanie Laurent

O cinema brasileiro coloca na tela fenômenos marcantes da nossa cultura.

Todos devem se lembrar da novela “Roque Santeiro”, exibida com grande sucesso na Rede Globo nos anos 80. Com direção e produção de Daniel Filho ("Se Eu Fosse Você") o filme “Roque Santeiro” começará a ser rodado em maio de 2010. Sinhozinho Malta – que foi vivido por Lima Duarte – será interpretado na versão cinematográfica por Antônio Fagundes. E a Fernanda Torres será a viúva Porcina, que Regina Duarte criou para a versão televisiva. Quem fazia o coroinha Roque Santeiro era o José Wilker. Agora o papel vai ser de Lázaro Ramos. Mas a principal ponte entre os dois produtos áudio-visuais será o roteiro de Aguinaldo Silva, que foi ele mesmo o autor da novela. Aí é que mora o perigo, porque escrever roteiro para cinema e para novela são dois ofícios completamente diferentes. O Daniel Filho deve saber muito bem disso. Mas vejam só: em vez de pedir para o próprio Fernando Morais que escreveu a biografia de Paulo Coelho elaborar o roteiro de outro filme que começará a ser produzido em 2011, o escritor de "O Alquimista" contratou Carolina Kotscho, que foi a roteirista de "Dois filhos de Francisco", em 2007. Isso porque o escritor, que não é bobo, gostou daquele filme que conta a história de Zezé Di Camargo e Luciano. E tomou essa providência de escolher a roteirista antes do diretor e do elenco do filme.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Nos anos 50, havia Victor Mature. Agora em "Gamer", quem luta é Gerard Butler

O título brasileiro do filme é “Gamer”, que quer dizer “jogador”. Mas o título original é “Citizen Game”, ou seja, uma pretensiosa referência a “Citizen Kane”, a célebre obra de Orson Welles. Aliás, o filme é inteiramente pretensioso, uma interminável carnificina que pretende alcançar um nível equivalente ao já clássico “Matrix”. O tema é o mesmo de “Golpe Baixo”, que Robert Aldrich fez com Burt Reynolds em 1974. O roteiro é mais parecido ainda com “O Sobrevivente” de 1987, baseado numa história de Stephen King, com Arnold Schwarzenegger fazendo o papel de um presidiário obrigado a participar de um jogo mortal: um game show de televisão. Desta vez o prisioneiro é vivido pelo brutamontes Gerard Butler, essa espécie de Victor Mature do nosso tempo que ficou famoso como o Leônidas de “300”.
A pretensão se acentua ao transferir o cenário de um estúdio de TV para o ambiente virtual de um vídeo game, ou seja, um jogo de computador, em que os lutadores são pessoas e carne e osso, só que manipuladas pelos outras que manejam os controles. Essa trama, porém, é complicada demais para as cabecinhas doentias da dupla de realizadores Neveldine e Taylor, que viraram meras caricaturas deles mesmos. Esses são aqueles espertinhos que, em 2006, nos ofereceram “Adrenalina”, um corajoso filme marginal, quase “underground”, estrelado pelo cão raivoso inglês Jason Statham, que por coincidência no ano passado trabalhou numa refilmagem de “O Sobrevivente”, chamado “Corrida Mortal”. Resumindo, o filme é derrotado pelas próprias regras do jogo que seus realizadores tentaram inventar: Neveldine e Taylor arrasam com Taylor e Neveldine.
GAMER
Citizen Game
EUA - 2009 – 95 min
estréia 02/10/2009
Gêneros ação / ficção científica
Distribuição Imagem Filmes
Direção Mark Neveldine e Brian Taylor
Com Alison Lohman, Gerald Butler e Logan Lerman

O melodrama ainda vive e prospera em filmes como “Algo que você precisa saber”

O melodrama é um modo de narrativa que o cinema tomou emprestado da literatura e do teatro, e que nas novelas de TV encontrou terreno até mais fértil para se desenvolver. Para boa parte da crítica de cinema, essa linha foi considerada indício de baixa qualidade, provavelmente por buscar o exagero nos efeitos emocionais das reviravoltas e situações dramáticas. Manifesta-se quando, por exemplo, um personagem descobre que seu grande inimigo é na verdade seu irmão e a única pessoa que pode salvá-lo da desgraça. A rigor, no entanto, o melodrama é um procedimento de ênfase para o desenvolvimento da uma trama, ou seja, um recurso como qualquer outro. E é assim que ele é tratado pela diretora e roteirista Cécile Telerman, uma belga que fez carreira no cinema francês, como advogada e administradora. Mas, que num lance melodramático, passou a dirigir filmes com extrema competência.
Neste engraçado e comovente “Algo que você precisa saber”, ela mostra que tem consciência absoluta do artificialismo com que trabalha as trajetórias de cada personagem, fazendo-as convergirem todas para um final de fábula. Como as linhas melódicas de diversos instrumentos que o compositor clássico reúne no acorde final do concerto. No caso, os instrumentos são atrizes bem afinadas, como Charlotte Rampling e Mathilde Seigner (acima), e as melodias são as frustrações e incertezas de uma família que, para sobreviver, preferiu trocar a franqueza dos sentimentos, por um simulacro de estabilidade – até que todas as pulsões e segredos reprimidos explodissem ao mesmo tempo, num lance... melodramático.
Algo que você precisa saber
Quelque chose à te dire
França 2009 – 100 min
gêneros drama / melodrama / comédia
estreia em 02/10/2009
distribuição Imovision
direção Cécile Telerman
com Mathilde Seigner, Pascal Elbé,
Olivier Marchal, Charlotte Rampling

"Deixa ela entrar" é um filme de vampiros inovador e também fiel ao gênero

A história do cinema está repleta de vampiros. Mas, o sueco Tomas Alfredson de “Deixa ela entrar” consegue surpreender com esta história, que é ao mesmo tempo inovadora e fiel à toda a tradição iniciada pelos romances góticos do século XIX. O protagonista é menino de doze anos, tímido e introvertido, cheio de dificuldade de se relacionar com os colegas de escola. Sua solidão se interrompe quando uma menina da sua idade se muda para o prédio. A princípio ele não nota a palidez da garota e nem estranha o seu cheiro azedo, ou o fato de nunca sentir frio e só sair de casa à noite. Aos poucos percebe que ela é uma vampira com mais de 400 anos de idade e, mesmo assim, aceita a nova amizade.

O mais curioso é o registro, digamos, “realista” da encenação. A personagem é construída sem o grotesco, ou a glamurização que costumam circundam os filmes com esse tema, como por exemplo, os blockbusters da série “Crepúsculo”. A jovem morta viva é sem graça, mal vestida, antipática e mal cheirosa. Mora num apartamento imundo e sem móveis que, em lugar de cortinas, tem o vidro da janela coberto por jornais. Por outro lado, tem a mesma força física e os pontos fracos do Conde Drácula, além de uma mala cheia de dinheiro. Não se pode dizer que “Deixa ela entrar” seja agradável, ou edificante. Mas é inegável o pulso firme de seu diretor, que nos oferece uma sensação de permanente estranhamento, mesmo caminhando por um terreno em que os sustos e calafrios sejam geralmente previsíveis.
Deixa ela entrar
Let the Right One In
Suécia - 2008 – 114 min
estreia 02/10/2009
Gênero drama / horror
Distribuição: Filmes da Mostra
Direção Tomas Alfredson
com Kåre Hedebrant, Lina Leandersson

"Salve Geral" o filme que conta como foi o "11 de setembro" que parou São Paulo

Em “Salve Geral”, o carioca Sergio Rezende reconstitui dramaticamente os acontecimentos que paralisaram São Paulo, no dia das mães de 2006. A história é toda narrada a partir do ponto de vista de uma mãe que tem o filho na cadeia e procura ajudá-lo. Para afastar essa personagem de um tipo estatisticamente comum, ela é uma professora de piano interpretada por Andréa Beltrão. O filme se inicia com ela vendendo o instrumento, indicando uma queda na escala social. Para ajudar o filho preso, quase sem querer, ela acaba se envolvendo com uma advogada ligada ao crime organizado. Este drama pessoal corre paralelo com o dos presidiários e autoridades judiciárias ao radicalizarem as suas contradições.
A narrativa de Rezende segue uma linha clássica, mas surpreende ao destacar o comportamento ético dos presos, ainda que seja uma ética da violência. Alguns deles até praticam meditação e mantém bibliotecas nas celas. Já os policiais, quando não são corruptos, mostram-se incompetentes. Ao contrário do que, na vida real, foi declarado à imprensa por eles, o filme revela que os conflitos só cessaram após uma negociação entre as partes. Se obras anteriores sobre o tema repisavam na identificação entre a pobreza e a criminalidade, este acrescenta que as demais camadas da sociedade também são responsáveis por ela. E usa o alento de Andréa Beltrão para garantir uma identificação plena do espectador à protagonista e, por extensão, ao filho dela e a tudo o que ele representa por trás das grades. Por isso, o roteiro tem o cuidado de fazer com que o envolvimento dela com o "partido" tenha sido com uma liderança que fora eliminada semanas antes dos acontecimentos de maio. Trata-se de uma produção empenhada em todos os aspectos, até na música de José Briamonte, que trabalha a partir de uma dança eslava de Dvorak. Provavelmente para sublinhar a imposibilidade de uma definição cultural e socialmente clara perante o crime, que afinal conta com a participação de gente de todas as classes sociais.
Salve Geral
Brasil - 2009 – 126 min
estreia 02/10/2009
Gênero docudrama / policial /
Distribuição: Columbia
Direção Sérgio Rezende
Com Andréa Beltrão, Denise Weinberg