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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

FESTIVAL DE BRASÍLIA | O cineasta Jean-Claude Bernadet recebe honraria do Festival




No último dia do Festival de Brasília, em 27/9, o crítico, professor e pesquisador Jean Claude Bernardet será agraciado com a Medalha Paulo Emílio Salles Gomes no encerramento da mostra. Aquela será a primeira vez em que essa honraria será concedida e, com ela, o acontecimento realizará uma inusitada ponte entre décadas e personalidades fundamentais para a história do cinema brasileiro.

Jean Claude Bernadet, agraciado com a Medalha Paulo Emílio Salles Gomes


Bernadet já esteve várias vezes no Festival. Primeiro como professor da Universidade Nacional de Brasília, de onde foi afastado em 1968 por motivos políticos. E, em seguida, para receber diversos Candangos – que é, aliás, o nome da estatueta criada para simbolizar os prêmios do Festival. Esses prêmios ainda se restringiam à atividade de roteirista, que ele mostrou em filmes como “O Caso dos Irmãos Naves” (1967), “Um Céu de Estrelas” (1996) e “Hoje” (2011), estes dirigidos por Tata Amaral. Mas seu trabalho de pesquisador já era amplamente conhecido por meio de livros como “Cinema Brasileiro – Propostas para uma História” e “Brasil em Tempo de Cinema”.

Depois de se aposentar como professor da Universidade de São Paulo, Bernadet decidiu trabalhar como ator. Algumas pessoas acham que isso aconteceu em função de problemas de saúde. Mas ele mesmo diz no filme “A Destruição de Bernardet”, apresentado no Festival, com direção de Claudia Priscila e Pedro Marques, que ele está criando uma nova linguagem. Motivado pelo avanço da idade, ele procura fazer coisas que nunca tinha feito antes. Coisas que faz não apesar da velhice, mas por causa dela.

Cena de "O Caso dos Irmãos Nave", dirigido por S. Luiz Person e escrito por Bernadet


E assim passou a colecionar outros troféus em BrasíliaEm 2008 ganhou o prêmio de melhor ator pela atuação em “Filme Fobia” de Kiko Goifman, com quem ele voltaria trabalharia novamente em “Periscópio” (de 2013). Recentemente em 2015, ele interpreta um andarilho que caminha por São Paulo no filme “Fome”, do diretor também premiado no Festival de Brasília Cristiano Burlan.

Mas o 49º Festival de Brasília de Cinema Brasileiro continua e amanhã prosseguimos com a nossa cobertura. 

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

49º FESTIVAL DE BRASÍLIA | "Cinema Novo" é um filme "arqueólogo" iniciado há 9 anos



Nesta edição do festival de Brasília do Cinema Brasileiro de número 49 causou impacto o documentário “Cinema Novo”, que é um filme-ensaio assinado pelo filho de Glauber Rocha (Erik Rocha) e que foi coproduzido pelas famílias de Gustavo Dahl e Joaquim Pedro de Andrade, com o apoio dos herdeiros de outros líderes do movimento, como Paulo Cesar Saraceni e Leon Hirzman. Isso além de receber a ajuda de integrantes ainda vivos, como Arnaldo Jabor, Nelson Pereira dos Santos e Luiz Carlos Barreto. O filme levou 9 anos para ser concluído está marcado para chegar aos cinemas no começo de novembro. Mas já deu o que falar em Cannes e, até a estreia, deverá circular em outros eventos, cineclubes e faculdades.

O documentarista Eryk Rocha, diretor de "Cinema Novo"

O diretor, aliás, considera que este é um “filme de arqueólogo”. O espetáculo é inteiramente construído a partir de arquivos sobre os títulos daquele período. Trata-se na verdade do filme mais rico em imagens desse tipo e baseado em mais de 130 fontes, obtidas em arquivos particulares das famílias mencionadas. Isso além de material obtido nas cinematecas da Europa e de cenas garimpadas em televisões, como a TV Cultura. Por exemplo, poderemos ver passagens da cineasta Suzana Amaral (de A Hora da Estrela) ainda trabalhando como repórter, e o programa Luzes Câmara, em que Silvia Bahiense entrevistava Joaquim Pedro de Andrade nos anos de 1970. Alia ele declarava que a crítica carioca de então se achava esclerosada. 
As primeiras imagens consistem numa coleção de diversos personagens, correndo numa longa carreira iniciada por Manuel e Rosa, os protagonistas de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", tomados na última cena do filme. O diretor reconhece que não teria condições de desenvolver o que ele chama de “uma história geral do cinema novo” e então optou por montar blocos temáticos de significados amplos, que mostrassem as diversas faces das dezenas de obras que formaram o movimento. Como nenhum desses filmes é designado por letreiros, o espectador precisa puxar pela memoria para identificar cada um deles.

As passagens mais interessantes, porém, são aquelas em que os diretores se manifestam, seja em entrevistas ou em conversas gravadas em reuniões das mais variadas. Aí fica clara a heterogeneidade de temas e estilos que caracteriza o Cinema Novo.

O 49º festival de Brasília do Cinema Brasileiro continua na semana que vem e o PCF vai continuar enviando as notícias do evento até lá

Cena de "Cinema Novo", filme de abertura do Festival de Brasília 2016

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

49º FESTIVAL DE BRASÍLIA | "Improvável Encontro" e "Cinema Novo" iniciam o festival



Já começou o festival de BSB do cinema brasileiro, em sua edição numero 49. A beira de completar ½ século de vida, portanto, esse evento fundado pelos professores da UNB – entre eles, o inesquecível crítico Paulo Emilio Sales Gomes do qual, neste ano, comemoramos o centenário de seu nascimento. Nestes últimos 50 anos, é claro que muita coisa mudou, menos o principal distintivo do evento, que é a vocação para a abordagem das questões polêmicas.

Especialmente as de natureza política, isto é uma daquelas coisas que se encontram constantemente em mudança. Assim como a estética, a linguagem, a técnica, enfim a arte do cinema. A mostra competitiva se inicia com dois filmes, ambos pertencentes ao gênero documentário. Eles exercem o papel de abrir a programação do 49º Festival e atendem plenamente a esses dois polos: ou seja, a polêmica estética e a discussão política. São eles o curta metragem “Improvável Encontro”, de Lauro Escorel e o longa “Cinema Novo” de Erik Rocha.

O trabalho de Lauro Escorel é magnífico – uma verdadeira inovação no gênero e, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre esta atividade que se situa nos alicerces do cinema, que é a fotografia. Recorrendo às possibilidades abertas pela ficção, diante dos nossos olhos o filme reconstrói um encontro físico 
entre os fotógrafos Tomas Farkas e José Medeiros. A matéria prima do filme não poderia deixar de ser a obra fotográfica desses dois criadores cujas trajetórias começaram a se aproximar desde as décadas de 1940 e 1950. E que a partir dos anos de 1960, passariam também a fazer cinema.

Eles atuavam na área do fotojornalismo, em revistas populares como O Cruzeiro. Diferentemente de fotógrafos mais famosos como Jean Manzon, que tinham uma forma mais estilizada de trabalhar, eles assumiam uma linha mais documental e tinham uma proposta que continuava a de Mario de Andrade que consistia em revelar a imagem do Brasil. A criatividade do diretor Lauro Escorel permitiu-lhe ousadias, como colocar os trabalhos de um e de outro em cada metade da tela dividida em dois – para comparar os seus estilos.

Portanto, o 49º Festival de Brasília do CB começa bem, com “Improvável Encontro”, de Lauro Escorel. Até seu encerramento, o CF estará transmitindo as principais notícias do evento. Até amanhã...


O diretor do curta "Improvável Encontro", Lauro Escorel

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

O medo e os mistérios do inconsciente são marcas de "O Silêncio do Céu"


Carolina Dieckmann e Leonardo Sbaraglia contracenam no filme.

Dentro em breve será lançada nos cinemas "O Silêncio do Céu"o último filme de um jovem realizador paulista que, pelos seus trabalhos recentes, possui um futuro brilhante no cinema brasileiro. Trata-se do jovem Marco Dutra, de apenas 36 anos, parceiro de Juliana Rojas no célebre “Trabalhar Cansa”, que foi aplaudido desde 2011 em seu lançamento no Festival de Cannes. 


"O Silêncio do Céu" é uma produção do brasileiro e multinacional Rodrigo Teixeira, que vem se colocando no mercado internacional com obras importantes, como “Alemão”, “Frances Ha e “Tim Maia”. Esta produção atual ultrapassa as nossas fronteiras porque a história se passa em Montevideo e, além da brasileira Carolina Dieckmann, o filme tem como protagonista o argentino Leonardo Sbaraglia -  bastante conhecido entre nós, por sua atuação em “Relatos Selvagens”, um indiscutível sucesso de bilheteria no Brasil. 
Entre os roteiristas de "O Silêncio do Céu", temos a presença do brasileiro Caetano Gotardo, que dirigiu o prestigiado “O que se Move” em 2013, e a argentina Lucia Puenzo - autora de “O Médico Alemão” de 2013, sobre a presença do carrasco Josef Mengele em nosso continente. Esses dados servem para comprovar essa tendência, ainda bastante incipiente, no sentido do estreitamento das relações criativas entre as cinematografias da América Latina.

Desde a sua aproximação com o estilo do cinema de Juliana Rojas em “Trabalhar Cansa”, se percebe uma proximidade com o cinema de horror. Não digo do horror tomado como uma opção de gênero, no qual se destacam fantasmas, casas mal assombradas e monstros de vários tipos e tamanhos. No cinema de Marco Dutra, essas forças malignas se escondem no mundo interior, ou melhor, no inconsciente dos personagens. E por isso, por serem de verdade, mostram-se muito mais assustadores do que qualquer vampiro.

Personagem de Dieckmann é violentada e vítima de estupro.
No Brasil, os números perturbam: esse crime vitima uma mulher a cada 11 min.


O personagem de Leonardo Sbaraglia é um roteirista de TV que simplesmente sente medo. Como ele é também o narrador da história, ficamos sabendo por sua voz em off que esse medo não se fixa num único objeto. Entre os principais, é claro, está o de avião. Mas ele confessa que em seu caso, a coisa é bem mais ampla – o que permite ao diretor deste "O Silêncio do Céu" se esmerar na trilha sonora, para desenvolver os climas e as atmosferas mais sugestivas e envolventes. Em sua edição de som, os ruídos mais banais são capazes de congelar o nosso sangue...

terça-feira, 20 de setembro de 2016

49º FESTIVAL DE BRASÍLIA | Veja quais são os 9 filmes em competição!



A maioria dos textos a seguir foram retirados do próprio material de divulgação do Festival de Brasília:


“Antes o Tempo Não Acabava”, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo
Longa que foi exibido no Festival de Berlim esse ano, conta a história de Anderson, um rapaz descendente da etnia indígena saterê que, ao mudar-se para Manaus, tem de lidar com os embates culturais entre o contexto onde nasceu e o cotidiano urbano de uma metrópole como a capital amazonense.

Cena do filme "Antes o Tempo Não Acabava"

“A Cidade Onde Envelheço”, de Marilia Rocha
Filme já exibido no Festival de Roterdã, também conta com uma sinopse sobre alguém que parte de sua terra natal para morar em outro contexto: dessa vez a portuguesa Francisca deixa o país europeu para trabalhar temporariamente em Minas Gerais, região essa a qual pretende morar o resto de seus dias.

“Deserto”, dirigido pelo ator Guilherme Weber
Livremente inspirado na obra Santa Maria do Circo, de David Toscana, narra a história de um pequeno grupo de artistas viaja pelo sertão brasileiro apresentando um espetáculo. Ao chegar num pequeno vilarejo, descobre uma cidade abandonada, casas, igreja e uma fonte que jorra água limpa, tal qual milagre de um deserto bíblico. Cansados e combalidos da vida errante, os artistas decidem se instalar no vilarejo e fundar uma nova comunidade, dando a si mesmos papéis diferentes daqueles que exerceram por toda a vida. Esta nova configuração, entretanto, vai revelar a estes artistas os piores vícios da vida civil.

“Elon Não Acredita na Morte”, de Ricardo Alves Jr.
Após o desaparecimento de sua esposa, Madalena, Elon imerge em uma jornada insone pelos cantos mais sombrios da cidade, buscando entender o que pode ter acontecido com ela, na tentativa de não perder sua sanidade pelo caminho.

Cena do longa"Elon Não Acredita na Morte"

“O Último Trago”, de Luiz Pretti, Pedro Diogenes e Ricardo Pretti
Os vivos pedem vingança. Os mortos minerais e vegetais pedem vingança. É a hora do protesto geral. É a hora dos voos destruidores. É a hora das barricadas, dos fuzilamentos. Fomes, desejos, ânsias, sonhos perdidos, misérias de todos os países, uni-vos!

“Rifle”, de Davi Pretto.
Dione é um jovem misterioso que vive com uma família em uma região rural e remota. A tranquilidade da região é afetada quando um rico fazendeiro tenta comprar a pequena propriedade na qual Dione e a família vivem.

“Martírio”, de Vincent Carelli
O retorno ao princípio da grande marcha de retomada dos territórios sagrados Guarani Kaiowá através das filmagens de Vincent Carelli, que registrou o nascedouro do movimento na década de 1980. Vinte anos mais tarde, tomado pelos relatos de sucessivos massacres, Carelli busca as origens deste genocídio, um conflito de forças desproporcionais: a insurgência pacífica e obstinada dos despossuídos Guarani Kaiowá frente ao poderoso aparato do agronegócio.

“Vinte anos”, de Alice de Andrade
Um documentário sobre o amor e o tempo que passa, numa Cuba onde o tempo parecia não passar. É um retrato de um mundo prestes a desaparecer para sempre, às vésperas de uma mudança radical e imprevisível. Histórias de amor de três casais cubanos, filmadas ao longo de duas décadas.

Cena do documentário "Vinte Anos"

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Festival de Brasília 2016 durará do dia 20 ao 27 de Setembro, com 9 longas em competição


Logo do 49º Festival de Brasília

Começa amanhã o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que chega à 49º edição e se prolonga até o próximo dia 27. Sempre com a marca da reflexão e da crítica, esse Festival vem trazendo mudanças. Elas renovam seu perfil e aprofundam sua vocação como um espaço privilegiado para a troca de ideias e experiências

O Festival de Brasília numero 49 vai mostrar nove filmes de longa-metragem na Mostra Competitiva – e não mais os costumeiros seis títulos – além dos 12 curtas e médias. São filmes produzidos em todas as regiões do País, oferecendo um amplo painel da produção cinematográfica nacional. As exibições acontecerão no Cine Brasília, com reprise no Cine Cultura Liberty Mall. A festa do cinema brasileiro começa já na noite de abertura, no dia 20, quando serão exibidos o curta ‘Improvável Encontro’, de Lauro Escorel, e o longa Cinema Novo’, de Eryk Rocha.

Cena do documentário "Cinema Novo", que abrirá o 49º Festival de Brasília

Durante oito dias, a programação inclui atividades que se estendem da manhã à noite e sempre com entrada franca, menos nas exibições competitivas. Haverá mostras paralelas, sessões especiais, encontros, debates, seminários, palestras e lançamentos. Essa movimentação vai ocupar o saguão do Cine Brasília e salas do Hotel Kubitschek Plaza, que será a sede do Festival. A programação inclui ainda a Mostra Brasília com a produção local (e também de caráter competitivo), que será exibida em três diferentes horários, ao longo do sábado e do domingo.

Também será entregue pela primeira vez nesse ano a Medalha Paulo Emílio Sales Gomes. É que Paulo Emílio, o crítico e professor responsável pela criação do Festival de Brasília, estaria agora completando 100 anos de idade. O primeiro exemplar dessa Medalha será entregue ao pesquisador e mestre Jean-Claude Bernardet, amplamente considerado por muitos como o mais importante pensador e crítico de cinema em atividade no Brasil, e que completa 80 anos de idade, em 2016.

O Cinema Falado estará presente ao longo do Festival, trazendo para os nossos ouvintes o que de mais importante acontecerá nesse evento. Até amanhã...


Para mais informações sobre o festival, acesse: www.festbrasilia.com.br

domingo, 18 de setembro de 2016

"Menino 23" é um documentário estarrecedor sobre o racismo e a violência à infância


Na década de 30, 50 crianças negras foram sequestradas e escravizadas por fazendeiros

“Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil” é o título de um documentário premiado como melhor roteiro e melhor montagem no recente festival Cine Ceará. Foi dirigido por Belisário Franca, autor do premiado“Amazônia Eterna” de 2012. Trata-se de um filme investigativo, em que ele trabalha a partir de uma pesquisa do historiador Sidney Aguilar Filho,

O trabalho deu origem a uma tese de doutorado aprovada em 2011 na Unicamp, com o título de "Educação, Autoritarismo e Eugenia: Exploração do Trabalho e Violência à Infância Desamparada do Brasil (1930-1945)". Ela trata da desconcertante descoberta de que na década de 1930, cerca de 50 meninos, em sua maioria negros, foram retirados do orfanato Romão Duarte do Rio de Janeiro e enviados para uma fazenda na região de Campina do Monte Alegre em São Paulo.

Fato impressionante é que aquele local era de propriedade da família Rocha Miranda, que simpatizava com o nazismo. Tanto que alguns de seus membros eram militantes da Ação Integralista, que consistia em uma versão brasileira da ideologia nazista. E para tornar o caso ainda mais estarrecedor, um agricultor da vizinhança descobriu na fazenda um sem número de tijolos marcados com a cruz suástica. A pesquisa do professor Sidney Aguilar Filho, aliás, começou em 1998, quando uma aluna afirmou ter visto um tijolo com aquele símbolo alemão.

Aloizio Silva (foto), o menino numerado com o 23

O mérito maior da produção de Belisário Franca foi ter localizado e entrevistado dois daqueles garotos que trabalharam por 10 anos como escravos no local, onde eram numerados, como nos campos de concentração da Europa. Agora com mais de 90 anos de idade, vemos e ouvimos os de números dois e vinte e três – esse o único que ainda vive na região. De modo elegante e discreto, o diretor encenou algumas imagens da narrativa para enfatizar determinados climas dramáticos. 

O filme é rico em imagens de arquivo, como filmes de reuniões da Ação Integralista Brasileira dos anos de 1930. A narração, ou seja, a apresentação da história ficou a cargo do próprio escritor da tese que deu origem ao filme “Menino 23” que, em alguns momentos, não consegue ocultar as suas emoções. 

sábado, 17 de setembro de 2016

O diretor Lionel Baier mostra seu talento ao usar da ironia em "La Vanité"


Patrick Vapp interpreta um arquiteto que assina seu suicídio assistido

Lançado de modo discreto e modesto em nosso mercado agora dominado por filmes de impacto, o suíço “La Vanité” vem passando despercebido. O que é um destino absolutamente injusto para este que vem se mostrando um dos mais interessantes filmes do momento. Mas esta é uma produção suíça de baixo orçamento e, como tal, tem apenas a competência de seus integrantes para defendê-la nesta feroz disputa pela ocupação das telas.
A estranheza se inicia pelo enredo básico, que se resume a um arquiteto rico e bem sucedido, mas acometido de uma doença incurável. Ele resolve se matar, aproveitando as leis daquele país que permitem a prática do suicídio assistido. No entanto, as coisas vão se complicando no decorrer do processo, especialmente com a intromissão de determinados elementos absolutamente estranhos nesse contexto, que são o humor e a comédia.

Como pode uma situação assim tão triste e deprimente se misturar com o riso e a graça? Aproveitando o talento do diretor e roteirista Lionel Baier, um professor de cinema na Universidade de Lausane de 41 anos, que já dirigiu uma dezena de longas metragens, entre documentários e filmes de ficção. A suprema ironia do enredo se encontra na suspeita de que a Suiça seja um país tão racional e arrumadinho que até mesmo a morte pode ser organizada. 


A eterna Carmen Maura é parte do elenco de "La Vanité"

Isso até certo ponto, é claro. Desde que a assistente da associação contratada para executar o suicídio assistido não seja uma pessoa imaginativa e ousada como esta interpretada por Carmem Maura. Como se sabe, ela é uma das atrizes prediletas de Almodóvar e, já podemos adiantar, acaba se colocando como a verdadeira protagonista do filme.


Outro elemento essencial na trama é o bom gosto do diretor Lionel Baier, que escolhe o suingue da voz de Claude Nougaro – esse grande cantor suíço de jazz infelizmente ainda desconhecido entre nós – para acrescentar no filme uma boa dose calor humano. Além do humor, portanto, não faltam surpresas, emoções e elegância a este excepcional “La Vanité”. 

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

"Vidas Partidas" discute o preocupante tema da violência doméstica


Naura Schneider interpreta uma mulher vítima de violência doméstica.

A violência doméstica é um dos temas atualmente mais preocupantes na sociedade brasileira. Talvez para se conectar com a origem da Lei Maria da Penha, o filme é ambientado em Recife no começo dos anos de 1980. Naquela época, o país acompanhava os lances dramáticos do assassinato de Angela Diniz e o julgamento do marido, bem como os episódios da série de TV “Quem Ama não Mata”, com Marilia Pera e Claudio Marzo. Uma das várias qualidades do filme "Vidas Partidas" é colaborar para uma melhor compreensão daqueles acontecimentos.
Domingos Montagner e a gaúcha Naura Schneider– que também é a produtora do filme – interpretam o casal de protagonistas. Os dois são professores universitários, aparentemente apaixonados um pelo outro. Aliás, o filme se inicia com uma tórrida sequência de amor, para que o público se convença da alta temperatura com que aquela paixão se manifesta. Nessa cena, a propósito, já é possível notar alguns indícios de uma futura complicação emocional. Aos poucos, o ciúme do marido vai crescendo e a violência ocupa o seu lugar no enredo.

Determinados comentários sobre a história adotam uma ótica econômico-financeira para abordar essa transformação. A frustração do marido desempregado em face ao sucesso profissional da esposa explicaria a mudança em seu comportamento. Essa linha de análise, entretanto, não se sustenta, porque o personagem de Montagner se torna ainda mais agressivo depois que ele volta a lecionar numa faculdade.


A cada 12 segundos, 1 mulher é violentada no Brasil.
O número 180 é destinado à denúncia desses casos.

Como o cineasta Guel Arraes faz parte da equipe de produção, “Vidas Partidas” se favorece dos bons exemplos do cinema pernambucano. A câmara se esmera em descrever de perto a gradativa evolução emocional do agressor, enquanto mostra que – à sua maneira doentia – ele ama sinceramente a mulher e as filhas. Em outras palavras, neste filme o trabalho da direção valoriza muito o resultado final do projeto.

O diretor Marcos Schechtman é um dos pilares da televisão brasileira que, embora muita gente nem desconfie, não se resume à produção da TV Globo. Na década de 1980, Schechtman foi um dos responsáveis pela consolidação da dramaturgia da TV Manchete. No final dos anos de 1990, ele passou a dirigir sucessos da TV Globo, como “Caminho das Índias” e “O Clone”. Toda essa experiência transparece na qualidade de “Vidas Partidas”, que é o 1º filme de sua carreira. Repare na maneira como o gestual do protagonista vai indicando as suas transformações, por meio apenas das imagens e da eloquente interpretação de Domingos Montagner. 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

"Desculpe o Transtorno" e "O Roubo da Taça" somam-se às comédias nacionais de 2016


Cena de "Desculpe o Transtorno" com Gregório Duvivier e Clarice Falcão

Em meio a um excesso de comédias nacionais é possível que o expectador esteja disposto a rir e queira escolher a melhor opção dentro desse gênero. Em meio às novidades é provável que ele faça opção por aquela que apresente mais pedigree, ou seja, atores globais e ligados a programas requintados e uma comicidade mais bem comportada. Nesse caso, talvez a escolha correta fosse “Desculpe o Transtorno”.
A primeira vista, esse título “Desculpe o Transtorno” nada tem a ver com o humor. Acontece que trata-se de uma piada, porque o protagonista é um sujeito que sofre de um transtorno de identidade.

Ele possui dupla personalidade, assim como Dr. Jekill e Mr. Hide, o médico e o monstro: um é carioca e o outro é paulista. Esse é o papel de Gregório Duvivier que, aliás, tem duas namoradas: uma interpretada por Clarice Falcão e a outra por Dani Calabresa. O diretor é Tomás Portella, que segue uma linha elegante e refinada, como foi a série televisiva “Copa Hotel”, a qual ele dirigiu. Mas para quem prefere um filme mais agitado, colorido e cheio de vida, a dica é “O Roubo da Taça”.
No último Festival de Gramado, o filme levou os prêmios de roteiro, fotografia e direção de arte – aliás um trabalho primoroso. E de quebra o de melhor ator para o surpreendente Paulo Tiefenthaler. Ele tinha feito um pequeno mas eficiente papel em “O Lobo Atrás da Porta” de 2013. O filme chegou a ser classificado como uma “neo-chanchada” por causa da ênfase nas atuações, que lembram um pouco a adrenalina de Oscarito, Grande Otelo e Dercy Gonçalves.

O diretor Caito Ortiz começou muito bem em 2003 com um documentário sobre os motoboys, chamado “Vida Loca”, e agora experimenta um relato histórico, na chave da comédia. O filme abre com uma advertência segundo a qual “boa parte disso realmente aconteceu”. A mais evidente qualidade de “O Roubo da Taça”, aliás, é a direção de arte que nos coloca por inteiro na década de 1980. Os automóveis, as roupas, os ambientes, ou seja, a aparência geral das coisas e das pessoas nos remete diretamente para aquela época.

Paulo Tiefenthaler (foto) protagoniza "O Roubo da Taça"

Em 1983, a taça Jules Rimet passou a morar no Brasil depois de vencida a 3ª Copa do Mundo. Os gestores da CBF mandaram fazer uma réplica e a guardaram num cofre. E deixaram a taça original exposta na sala da presidência, onde a segurança era precária. Todas as interpretações de “O Roubo da Taça” mostram total desenvoltura. Especialmente a da habilidosa Taís Araujo, que parece estar atuando no set do seriado televisivo Mister Brau. 

Os filmes lançados no circuito comercial de SP na semana iniciada em 15 09 2016


Diane Krugere e Bryan Crasnton estão no elenco de "A Conexão Escobar"

Esta é uma semana diferente das a
nteriores. Primeiro, porque o assunto que domina as notícias e as conversas é a indicação do filme brasileiro que deverá concorrer ao Oscar e que não é o favorito “Aquarius” de Kleber Mendonça Filho, mas sim “O Pequeno Segredo”, de David Shurman - filme que ninguém conhece, até porque ainda não foi lançado nos grandes centros. Mas esta é também uma semana diferenciada porque as estreias nacionais são maioria. Dos seis lançamentos, quatro são brasileiros.
No entanto, o melhor da semana é “A Conexão Escobar”, estrelado pela bela atriz e modelo alemã Diane Krugere por Bryan Cranston. Esse é o astro absoluto da série televisiva “Breaking Bad”. Ali ele interpretava um traficante e, neste filme ambientado na década de 1980, o papel é de um policial que tenta se infiltrar na quadrilha de ninguém menos que Pablo Escobar. Além do protagonista e da sua competência como ator, a força do filme se baseia no talento do jovem diretor Brad Furman que, em 2011, fez o surpreendente “O Poder e a Lei”, com Matthew McConaughey.
Lançada a terceira edição de “A Bruxa de Blair”– série que se iniciou em 1999, com um falso documentário, no qual um grupo de jovens se perdia numa floresta demoníaca. Desta vez temos outro grupo de estudantes que é perseguido por forças misteriosas, naquela mesma floresta. Trata-se provavelmente de uma inutilidade, assim como as anteriores.
O artista que se dedica radicalmente ao humor, jamais perde a oportunidade de fazer piada. De preferencia com qualquer coisa, mesmo as que não têm graça, como o título do filme, por exemplo. Este se chama “Desculpe o Transtorno”, já o protagonista é um sujeito superatrapalhado, porque sofre de um transtorno de identidade. 

Gregório Duviver, Clarice Falcão e Dani Calabresa estrelam "Desculpe o Transtorno"

Ele tem dupla personalidade, assim como o médico e o monstro: um é carioca e o outro é paulista. O sujeito é interpretado por Gregório Duvivier e uma das namoradas dele é Clarice Falcão. A outra é Dani Calabresa. Eles formam um dos grupinhos mais engraçados, e inteligentes, dentre os que atuam na área da comédia brasileira. O diretor Tomás Portella fez um bom trabalho com a série televisiva “Copa Hotel”.
O gênero documentário está querendo entrar na moda. E é aí que mora o perigo... Esse mesmo tipo de cuidado, segundo o filme “Hestórias da Psicanálise” deve ser tomado em relação ao próprio Sigmund Freud, veja só... É o que diz este filme dirigido por Francisco Capouladee aborda contextos históricos e culturais que vão de Viena, do fim do século 19 até o e Brasil do século XX.
Alguns comentários associam este filme à uma tradição que vem de François Truffaut e seu clássico “Jules e Jim” de 1962. Mas na verdade esse romance ao mesmo tempo triste e bem humorado remete à essência do cinema gaúcho – como é, aliás, o seu diretor Fabiano de Souza. O nome do filme é “Nós Duas Descendo a Escada”.

Tabajara Ruas é um escritor gaúcho que fez vários filmes, como o clássico “Anahy de las Missiones. Em “Os Senhores da Guerra” ele também dirige esse que é um drama histórico ambientado na Revolução de 1923, que dividiu o estado entre chimangos e maragatos. E neste caso dividiu também uma família nesses dois partidos políticos. 

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Documentário musical "Janis - Little Girl Blue" mostra vida da cantora 45 anos após sua morte


Rainha do Rock'n Roll é o centro do filme que ficou por mais de mês em cartaz

Atualmente são raros os filmes que duram mais de uma semana em exibição nos cinemas. Mas este, mesmo sendo um documentário, sobreviveu por mais de um mês. Estamos falando de um musical, só que de uma linha bem distante daquela vertente televisiva do “vídeo clip”: “Janis - Little Girl Blue” é uma obra que se filia à melhor tradição do cinema direto, inaugurada nos anos de 1960, por Robert Drew e o pessoal da revista Life.
Eram todos homens, como a maioria dos documentaristas daquele tempo. Mas foi preciso esperar que uma cineasta revelasse em profundidade aquela forma peculiar de alma feminina. 45 anos depois da morte de Janis Joplin, estreia a obra da americana Amy Berg. Ela que em 2006 foi indicada ao Oscar pela reportagem “Livrai-nos do Mal” - uma das primeiras sobre a pedofilia na igreja norte-americana.

Lançado no Festival de Veneza de 2015, o filme demorou várias décadas para ser concluído, provavelmente por conta das dificuldades em termos de direitos autorais. O filme é abençoado pelo mestre D. A. Penebaker, autor do cultuado “A Caminho do Leste” – ou seja, o “Don’t Look Back” que ele fez com Bob Dylan em 1967. O depoimento de Penebaker acrescenta credibilidade ao filme de Amy Berg, que entrevista quase todos os músicos que tocaram com ela. 

A diretora Amy Berg dirige a o filme sobre Janis Joplin (foto)

Destaque para os relatos de sua mãe, irmãos, amigos de infância e companheiros de palco – inclusive da sua inacreditável viagem ao Brasil que, aliás, foi um dos momentos mais felizes de toda a sua vida... 
Isso sem mencionar o belo trabalho de edição que vem valorizar os trechos de canções registradas ao vivo e que nos trazem muitos outros pedacinhos do coração de Janis Joplin.

terça-feira, 13 de setembro de 2016

A poesia e o encanto da música popular mostrada em "O Milagre de Santa Luzia"


Documentário cujo slogan é "O Brasil que toca sanfona" tem Dominguinhos no elenco

Dentro de alguns dias chegará às livrarias de São Paulo um livro com o título de “Os 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos”. Esses filmes resultam de uma eleição da qual fizeram parte os 100 críticos integrantes da Abraccine. Depois da votação, cada um dos associados escolheu um determinado titulo para escrever a respeito. Agora a Associação está desenvolvendo outro projeto que é os 100 melhores documentários brasileiros. Provavelmente o meu candidato será “O Milagre de Santa Luzia”!
Parece uma orquestra andando e tocando ao mesmo tempo. Mas é apenas o acordeão de Dominguinhos, produzindo todos os efeitos de ritmo, harmonia e fraseado melódico que um único instrumento pode oferecer. Esse é apenas o começo de um documentário musical, em que a sanfona e a música popular brasileira são os temas principais.

Ao contrário do que acontece nos filmes de ficção, não é necessário que os personagens de documentário carreguem uma ação dramática. Mas é essencial que eles possam partilhar conosco esse milagre de presenciar uma mesma experiência real. Por mais que a música interpretada diante da máquina de filmar já esteja escrita e ensaiada, toda a execução de uma peça musical é única e original. 

Dominguinhos e Sivuca, dois músicos que dispensam apresentações, em cena do filme

É isso que faz a força desse gênero em que cada tomada é ao mesmo tempo encenada, como no documentário clássico, e necessariamente imprevisível, como no cinema-verdade. Neste trabalho de Sergio Rozemblit, Dominguinhos é o guia de uma viagem em que visitamos todos os maiores sanfoneiros do país, em seus ambientes naturais e humanos. 

O ponto de partida é o mundo de Luiz Gonzaga e a devoção pernambucana à Santa Luzia, em cujo dia 13 de dezembro ele nasceu. Dia de um antigo ritual descrito como tragédia pelo poeta Patativa do Assaré, que também é personagem do filme. Na verdade, este documentário opera sucessivos milagres de encantamento poético e transe musical, cada um deles equivalente à magia cinematográfica conjurada por mestres do documentário, como foram Jean Rouch e Eduardo Coutinho. 

Último filme de Babenco, "Meu Amigo Hindu", ganha prêmio no Festival de Montreal


William Defoe (protagonista do longa) e Maria Fernanda Cândido em cena do filme

O filme “Meu Amigo Hindu”, último trabalho em longa metragem de Hector Babenco, acaba de ser aclamado no Festival Internacional de Cinema de Montreal. Seu protagonista Willen Dafoe recebeu o prêmio de melhor ator naquele Festival canadense. O filme parte de uma experiência muito pessoal de Hector Babenco, falecido há pouco tempo, ou seja, ela foi o ponto de partida para este seu derradeiro longa. Por isso a obra é considerada um trabalho auto-biográfico. 
No filme, Willem Dafoe interpreta Diego, um diretor de cinema que descobre uma doença provavelmente fatal. Ele então se casa com a mulher com quem vivia ha muitos anos de muitos anos, despede-se de seus amigos e ingressa numa rotina de intermináveis jornadas em hospitais. Chega a conversar com a própria morte, a quem pede tempo para fazer mais um filme. 

Durante o longo tratamento conhece um menino hindu com quem partilha histórias sobre a sua vida. Seu casamento termina e ele conhece uma nova mulher que traz um pouco de luz para a sua vida. Além de Willem Dafoe, no elenco, estão nomes como, Maria Fernanda Cândido, Barbara Paz, Selton Mello, Reynaldo Gianecchini, Tuna Duek e Dan Stulbach.


Hector Babenco ao meio de Defoe e Maria F. Cândido durante as gravações do filme

Como vemos, dessa luta final pela vida fazem parte várias pessoas e muitos símbolos. Pessoas, como o genial cineasta e milionário pintor americano Julian Schnabel (autor de “O Escafandro e a Borboleta”) que hospedou o protagonista em sua casa, e símbolos como a Morte, cujo emissário é interpretado por Selton Mello. Isso mostra que, na história em que o filme se baseia, Babenco quase perde a vida, mas não abandona o humor. Ele mesmo define o filme como uma viagem que vai do negro para a luz.

Em 1975, Babenco dirigiu sua primeira ficção que foi O Rei da Noite. Fez filmes de grande sucesso e prestigio como Pixote, a Lei do Mais Fraco (1981). Sua primeira produção internacional foi O Beijo da Mulher-Aranha (1984), com quatro indicações ao Oscar, incluindo a de melhor diretor. Em 2003, foi escolhido para a Seleção Oficial da Palma de Ouro, no Festival de Cannes, com Carandiru, uma das maiores bilheterias do cinema nacional. Este prêmio para “Meu Amigo Hindu” é uma demonstração de que o cinema de Babenco continua vivo e sempre poderá trazer novos ensinamentos para quem com ele entrar em contato.